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SÉRIE MULHERES E MENINAS NA CIÊNCIA

Doutoranda da UFU planeja formar pesquisadoras no Paquistão

Faryal Khan cruzou o mundo para estudar a detecção precoce de doenças

Publicado em 18/02/2026 às 14:38 - Atualizado em 18/02/2026 às 15:30

“De onde eu venho, as pessoas pensam que as mulheres não podem viver ou construir carreiras de forma independente. Eu quero mostrar a elas que, se uma mulher decidir o que quer, ela consegue. Quero ser uma inspiração para outras meninas no meu país”, diz Faryal Khan (Foto: Marco Cavalcanti)

 

Uma cientista com véu por baixo do jaleco não era quem eu esperava encontrar quando fui ao laboratório conhecer a tecnologia desenvolvida na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) para detectar metanol em bebidas alcoólicas, em outubro de 2025.

Mas foi assim que conheci Faryal Khan, uma paquistanesa de 30 anos que tinha chegado ao Brasil há poucos meses para cursar doutorado no Programa de Pós-graduação em Imunologia e Parasitologia Aplicadas da UFU, orientada pelo professor Robinson Sabino da Silva. Depois que ele me explicou a pesquisa que estavam fazendo com o metanol, que rendeu uma reportagem com mais meio milhão de visualizações nas redes sociais, no auge da crise sanitária no Brasil, conversamos ela e eu, em inglês e com simpatia recíproca. 

Faryal Khan é da cidade de Kohat, que significa “um vale cercado por colinas”. É a filha mais velha da família de cinco, com mais duas mulheres e dois homens. Graduada em Microbiologia e mestre em Microbiologia Médica pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Kohat, ela tem publicações nas áreas de nanotecnologia, segurança alimentar e saúde pública e já trabalhou como professora de ciências e de biologia. 

A vinda para Uberlândia é sua primeira experiência fora do país natal. Faryal Khan é bolsista do Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras. No doutorado, está trabalhando para detectar doenças precocemente, por meio da saliva, com uma ferramenta de diagnóstico rápida, confiável e repetível. 

Admiti, para ela, minha surpresa e visão limitada sobre as mulheres paquistanesas. Khan confirmou que elas ainda têm muitas dificuldades para avançar nos estudos, mas que ela tem uma família que a apoia e isso fez muita diferença.

Entre mulheres e homens, apenas 9,4% da população total do Paquistão possui curso superior, segundo o censo de 2023. Atualmente, há uma paridade de gênero no número nacional de matrículas em universidades que mascara a desigualdade geográfica. As mulheres que vivem nos grandes centros estudam mais, enquanto as rurais são o grupo com menos acesso à educação. 

Meninas paquistanesas podem ter sua educação interrompida por um casamento infantil, escassez de escolas femininas, falta de transporte seguro, pobreza que a obrigue a trabalhar, conflitos extremistas em algumas regiões e falta de representatividade. A paquistanesa mais famosa do mundo é justamente uma ativista pelo direito à educação das meninas, Malala Yousafzai.

Quando descobri que havia uma paquistanesa fazendo pesquisa na UFU, pensei na nossa série Mulheres e Meninas na Ciência, produzida anualmente pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social. Nessa série, são publicados perfis e entrevistas com pesquisadoras, no portal Comunica UFU, entre 11 de fevereiro, Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, e 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Às vezes, a série cresce e se estende até o fim de março.

Ainda no dia da apuração sobre metanol, convidei Faryal Khan para a série e ela aceitou. Abaixo, leia nossa entrevista.

 

Faryal Khan durante experimentos com metanol (Foto: Marco Cavalcanti)
Faryal Khan durante experimentos com metanol (Foto: Marco Cavalcanti)

 

Quem é você no currículo? 

Eu sou Faryal Khan, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Imunologia e Parasitologia Aplicadas na UFU. Minha formação de base é em imunologia e microbiologia, em que explorei como podemos melhorar a saúde das pessoas através de melhores abordagens terapêuticas e diagnósticas. Essa é minha principal área de interesse. Eu realmente quero investigar a prosperidade da saúde das pessoas. Por exemplo, durante a minha graduação, trabalhei no padrão de suscetibilidade antimicrobiana e uropatógenos em pacientes com infecção do trato urinário. Eu queria saber o quão séria é a resistência aos antibióticos e como podemos superar esse problema na sociedade. Durante o meu mestrado, mudei meu foco da microbiologia médica para a microbiologia de alimentos, pois queria expandir minha experiência e adquirir novas informações e habilidades de outra área. Naquela época, trabalhei na preservação de carne bovina moída usando nanopartículas de óxido de ferro, que é um campo muito bom e emergente. Eu também trabalho com coisas relacionadas à saúde pública, em palavras simples. Diria que sou uma pessoa motivada por pesquisas que podem sair do laboratório e gerar um impacto no mundo real.

Como era seu interesse por ciência quando menina?

Eu me lembro que, durante a minha infância, havia um capítulo em nosso livro de ciências sobre Florence Nightingale. Fiquei realmente fascinada pelos serviços dela em prol da comunidade. Naquela época, pensei: por que eu não poderia ser a pessoa que participa do bem-estar das pessoas e da sociedade como um todo? Naquele momento, essa faísca se acendeu dentro de mim. Além disso, lembro que havia um desenho animado chamado "As Meninas Superpoderosas". Eram três meninas que trabalhavam ajudando as pessoas. Elas tinham um professor que trabalhava em um laboratório, mexendo com instrumentos e fazendo experimentos. Desde criança, eu ficava fascinada, pensando: "o que está acontecendo com esses produtos químicos?" Desde então, fui muito inspirada por essas coisas.

Como você explicaria para uma menina o que é a sua pesquisa e por que ela é importante?

Agora estou trabalhando com saliva, que é um fluido biológico muito bom, porque contém todas as informações essenciais do nosso corpo. Estamos trabalhando para detectar doenças precocemente com uma ferramenta de diagnóstico rápida, confiável e repetível. 

Como é a sua rotina de cientista?

Eu diria que não é fácil tornar-se uma cientista ou pesquisadora. É preciso prestar atenção a cada detalhe. Seu dia começa com muitas coisas na mente e compromissos agendados. É uma vida ocupada, mas acho muito importante manter um equilíbrio entre vida pessoal e profissional para a saúde mental. Para pesquisadores, isso às vezes parece difícil porque temos prazos específicos. No doutorado, você vai seguindo o fluxo, mas no final, quando tudo se acumula, o dia fica agitado, embora seja administrável.

 

Infância de Faryal Khan no Paquistão (Fotos: Arquivo pessoal)
Infância de Faryal Khan no Paquistão (Fotos: Arquivo pessoal)

 

O que você gosta de fazer quando não está trabalhando?

Bem, eu sou muito sensível por natureza. Lembro que, quando acontecia algo importante no universo ou algum tema em alta em algum país, eu costumava escrever tudo o que vinha à minha mente. Era uma forma de me expressar. Hoje em dia, como estou mais ocupada, não tenho tanto tempo livre. Além disso, amo jardinagem e gosto muito de limpar e organizar minha casa. Me sinto muito serena e relaxada fazendo essas atividades. Não confio em ninguém para limpar meu quarto [risos]! Eu mesma tenho que fazer para sentir que está realmente limpo.

Como é ser uma cientista no Paquistão?

Acho que cientistas no mundo todo têm a mesma rotina, mas os processos, pré-requisitos e exigências para conduzir um doutorado podem ser diferentes. No geral, é igual ao que é aqui.

Como foi o processo de deixar sua cidade no Paquistão para cruzar o mundo e pesquisar em Uberlândia? O que você trouxe de lá na sua "bagagem científica"?

Foi muito difícil decidir vir para cá porque eu nunca tinha viajado muito. Mudei não apenas de país, mas de continente, o que foi uma decisão enorme para mim e para minha família. Eles me apoiaram, mas tinham dúvidas se eu conseguiria ficar sozinha tão longe. Eu queria uma experiência de doutorado internacional com boa orientação de pesquisa e recursos. Por isso, quis sair da minha zona de conforto, o que vejo como parte do meu crescimento. Acredito que foi uma decisão produtiva. De onde eu venho, as pessoas pensam que as mulheres não podem viver ou construir carreiras de forma independente. Eu quero mostrar a elas que, se uma mulher decidir o que quer, ela consegue. Quero ser uma inspiração para outras meninas no meu país.

Por que você escolheu o Brasil, e a UFU, para fazer seu doutorado?

No Paquistão, muitos dos meus supervisores concluíram seus doutorados no Brasil e me contaram suas histórias e experiências. Escolhi o Brasil também pelo equilíbrio entre vida pessoal e profissional, que é muito bom aqui. Escolhi Minas Gerais e especificamente a UFU porque os projetos de pesquisa em imunologia e parasitologia se alinhavam perfeitamente aos meus objetivos, especialmente o trabalho do professor Robinson.

Como você foi recebida aqui como pesquisadora internacional?

Eu realmente aprecio a forma como as pessoas me tratam. Elas são muito educadas e prestativas, mesmo com desconhecidos no supermercado ou na universidade. A língua é uma grande barreira para mim, mas as pessoas param o que estão fazendo para me ajudar. Elas são muito acolhedoras e humildes.

Você fala mais português agora, um ano depois?

Estou trabalhando nisso. Já entendo algumas frases e palavras básicas. Entendo palavras de cortesia como "obrigada" e saudações como "bom dia" e "boa tarde". Acho o português fácil, mas levará tempo para me tornar fluente.

Quais dificuldades as mulheres enfrentam na carreira científica em geral?

Existem muitas barreiras. Não é apenas a pressão social ou cultural. O ambiente muitas vezes é menos acolhedor, as pessoas julgam e há menos oportunidades de liderança. As mulheres enfrentam preconceitos tanto na cultura quanto na academia.

Do que precisamos para ter mais meninas e mulheres na ciência?

Precisamos começar cedo. As escolas devem tornar a ciência mais interessante e acessível para que as meninas vejam seu caminho com clareza. As instituições também desempenham um papel vital, fornecendo oportunidades de apoio, bolsas de estudo exclusivas para mulheres e, principalmente, uma boa mentoria. Com esse suporte e motivação, as mulheres podem crescer e ter sucesso no que desejarem.

Quais são os seus sonhos para o futuro?

Meus sonhos são grandes. Quero continuar com um pós-doutorado, o que é incomum para mulheres no meu país. Depois, quero retornar ao Paquistão e construir capacidades locais de pesquisa, organizando seminários, workshops e conferências. Meu público-alvo serão as mulheres, para encorajá-las a não se limitarem e não deixarem a sociedade decidir seus limites. Acredito que, se uma mulher for educada, ela molda a sociedade e as futuras gerações serão mais saudáveis e instruídas. Esse é meu principal objetivo.

 

Faryal Khan
Faryal Khan é aluna de doutorado no Programa de Pós-graduação em Imunologia e Parasitologia Aplicadas da UFU (Foto: Marco Cavalcanti)


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