Publicado em 04/03/2026 às 17:38 - Atualizado em 06/03/2026 às 13:06
“A gente chega aqui com tantas expectativas, sem saber muito bem o que está acontecendo, passa pelas matérias e, de repente, começa a explorar áreas que te chamam atenção, que você se apaixona”. Estas são as palavras que Giovanna Evangelista, agora graduada em Sistemas da Informação, usa para descrever como é para ela terminar a graduação com a entrega de uma pesquisa: o famoso Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
Assim como em uma das matérias que antecederam esta, nesta série “Mulheres e Meninas na Ciência”, também quero começar a contar a história de como cheguei nas minhas entrevistadas de modo pessoal. Com a missão de entrevistar alguma mulher pesquisadora que fosse da graduação, já sabia que queria alguém da área de exatas, mas não tinha um nome, até que eles chegaram, em alto e bom som, para um salão de festas inteiro ouvir, durante a colação de grau dos cursos de graduação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
Eu estava na equipe de cobertura do evento em Uberlândia, no turno da tarde e, no meio do cerimonial, fui comunicada que haveria a entrega de certificados de estudante destaque, pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC), para alguns formandos dos cursos de Sistemas da Informação (SI) e Ciência da Computação (CC), pelas suas contribuições na pesquisa e extensão durante a graduação.
No momento da entrega, fiquei surpresa que a maioria homenageada eram mulheres! Para quem conhece a área das exatas de perto, principalmente da Computação, sabe que é um universo majoritariamente masculino. E entre elas estavam as xarás Giovanna Evangelista e Giovanna Martins.
Apesar de partilharem algumas coisas em comum, como o nome, o dia de formatura, o certificado de destaque e até o mesmo orientador de TCC, elas são de cursos distintos. Evangelista, como já dito, formou-se em SI e Martins em CC. As trajetórias delas durante a graduação também foram distintas e com focos diferentes, mas ambas saem da universidade deixando uma importante contribuição para a comunidade científica: a pesquisa feita para o TCC.
Muitos estudantes saem da faculdade achando que não fizeram pesquisa ou se envolveram pouco com a área, mas se esquecem de que o desfecho dessa trajetória é deixando um pequeno código nesse grande sistema chamado ciência - se formos falar na linguagem computacional, e os programadores de plantão sabem como um único comando pode modificar todo um programa.
Conheça a seguir um pouco da trajetória das egressas, a percepção delas, como mulheres na área da Computação, e as pesquisas que as deram o tão sonhado diploma.
Giovanna Evangelista
Por que você escolheu fazer Sistemas da Informação?
Eu sempre fui para o lado da tecnologia. Sempre gostei de explorar a questão de tecnologia, imagem, design. Na hora de decidir o curso, eu vi que era algo que daria um retorno rápido. Estava no finalzinho da pandemia quando eu estava terminando o meu ensino médio, então, estava com aquela bolha bem aquecida dessa área, com todo mundo utilizando internet e redes sociais. Por isso, eu decidi que seria uma boa para explorar esse cenário e acabei decidindo por Sistemas.
Como você avalia que foi a sua jornada na graduação? E como foi durante o curso e é para você ser mulher nessa área?
Muito difícil e desafiadora. Você está em um ambiente que começam muitas pessoas juntas, 60 alunos, mas começam a vir matérias, um boom de informação que muitas vezes não é o que você esperava, e conforme você vai indo os seus amigos ao redor vão desistindo. Ainda tem a questão também de não ter muitas meninas nesses cursos de exatas, no geral, mas na Computação a gente vê isso muito mais forte, de chegar num ponto de ter duas, três meninas em uma turma mais avançada. Eu diria que foi muito desafiador, porque você precisa encarar não somente as matérias, mas também a pressão ali de não poder desistir, de fato conseguir conciliar.
Como você chegou ao tema de pesquisa do seu TCC?
Eu tive muito contato com o professor Rodrigo Miani, ele é da área de segurança e da informação. Então, antes de começar o TCC mesmo, eu já comecei a conversar com ele sobre possíveis caminhos a serem seguidos, porque sempre foi o que mais me chamou atenção. A gente vê muito sobre a internet, sobre sistemas e tudo mais e eu sentia que essa área não era tão falada aqui na faculdade como uma área de desenvolvimento de sistemas. Então, eu tinha muito interesse em saber como que funcionava essa questão de integridade de um site, de um banco de dados e como eles impedem invasões, como simulam elas para trazer uma prévia de proteção. Minha pesquisa final propõe o desenvolvimento e aplicação de uma metodologia de testes de intrusão (pentest) para prestação de serviços de cibersegurança por parte da Faculdade de Computação (Facom/UFU), com foco em sistemas web.
Como é para você saber que deixou uma pequena contribuição com o mundo acadêmico e científico com o seu TCC?
A gente chega aqui com tantas expectativas e não sabe muito bem o que está acontecendo. Passa pelas matérias, de repente começa a explorar áreas que te chamam a atenção e se apaixona. Quando você começa a pôr isso em prática e ver o seu trabalho, o seu esforço, de fato produzindo algo que pode vir a ser um bem para a instituição ou para as outras pessoas, é muito gratificante, porque eu acho que vai muito além do estudo em si pessoal. Mas tem toda essa questão de querer contribuir também e fazer algo que outras pessoas possam se inspirar.
O que representou para você receber o prêmio destaque da SBC?
Foi extraordinário, uma notícia muito boa. Eu acho que todo suor, toda lágrima valeu a pena pelo diploma e pelo prêmio também, porque não é fácil, é um curso que exige muito. Às vezes a gente pensa em desistir, às vezes a gente fica perdido no próprio curso mesmo, se quer seguir tal área, se não quer, qual é o próximo passo. E eu acho que foi um gesto de recompensa que faz a gente querer seguir estudando, seguir dando o melhor, seja no mercado de trabalho, seja em uma possível área acadêmica, de mestrado, doutorado, eu acho que dá uma vontade mesmo de querer entregar o máximo.
Quais são suas palavras de incentivo para uma menina que queira atuar, futuramente, na área da Computação?
Primeiro de tudo, respira. Vai parecer que está difícil, vai parecer que não tem saída, mas tem. Se tem uma coisa que essa área precisa é perseverança e dedicação, mas quando você tem essas duas coisas você voa, vai longe, vai conseguir experimentar áreas, experimentar coisas que você nem imaginava que existiam, que eram possíveis. Você vai ter um contato maravilhoso com outras pessoas e o seu crescimento vai ser infinito. Essa é uma área que está sempre se atualizando.
Giovanna Martins
Por que você escolheu fazer Ciência da Computação?
Eu nunca pensei em fazer Ciência da Computação. Sou filha de dois professores da área, meus pais deram aula aqui na UFU, e eu não gostava de Computação porque eu tinha ciúmes. Eles estavam todo dia trabalhando com computador e eu pensava: “ele é o primeiro filho de vocês, eu sou apenas a segunda”. Quando eu fui decidir o meu curso, eu estava em dúvida sobre tudo. Eu queria Direito, Relações Internacionais, Biotecnologia, Engenharia Mecânica, eu queria tudo, de todas as áreas. Eu não sabia escolher, só sabia que eu queria ajudar pessoas. Foi minha meta de vida. Então, minha mãe sentou comigo e falou assim: "sabe uma área que você vai conseguir ajudar todo mundo, porque você pode atuar no que você quiser, você pode atuar junto com Medicina, Engenharia, Meio Ambiente? Computação". E eu falei: "é, Computação eu vou conseguir ajudar de um jeito que nenhuma outra área vai me proporcionar de atuar em vários lugares diferentes”. Por isso, eu decidi entrar na CC. No fim das contas acabei me apaixonando pela área, algo que eu não estava esperando.
Quando eu entrei, minha mãe já tinha me avisado que tinham poucas meninas no curso, então, eu já estava esperando que já tivesse pouca gente. Eu lembro que a primeira coisa que eu fiz quando entrei na sala foi contar o número de meninas. Eram seis meninas e provavelmente 40 meninos. Isso acaba atrapalhando bastante mesmo, porque é mais difícil de você se encaixar na sua turma, querendo ou não, porque muita gente ainda tem essa visão de clube do Bolinha, clube da Luluzinha, a gente vê muita piada assim que não quer ouvir. É um ambiente mais desafiador, fora competição também. Eu sinto que o nosso curso é muito competitivo.
Qual sua experiência com a pesquisa durante a graduação?
Quando eu entrei, eu já tinha foco na parte acadêmica por conta da questão dos meus pais. Eu já entrei com o objetivo de fazer parte do PET [Programa de Educação Tutorial], fazer monitoria e assim que foram surgindo as oportunidades, eu fui me agarrando a elas. No PET a gente tem que fazer uma Iniciação Científica (IC) e eu já vinha conversando antes com o Miane, porque queria fazer pesquisa com ele, justamente por conta da área de cibersegurança que tinha me atraído. Eu mexi bastante com sistemas de detecção de intrusão, fiz uma matéria de Mineração de Dados, por conta da mineração científica, e fiquei encantada. A partir daí não queria mais saber de cibersegurança, queria saber de inteligência artificial (IA). A IC foi boa para eu aprender sobre a área, nem tanto para produzir resultados. E aí, quando eu peguei o TCC [que propôs e investigou classificadores hierárquicos para detecção de intrusões em redes IoT, visando combinar a alta sensibilidade da classificação binária com a capacidade de distinção das formas de ataque proporcionadas pela classificação multiclasse] para fazer, foi mais a parte prática de documentar todos os experimentos que eu ia fazer. E, assim, fiquei apaixonada pela minha pesquisa. Sou suspeita de falar, né? Gostei tanto que estou voltando agora para o mestrado. Fui aprovada no último edital e vou seguir o trabalho com Miane e com a Elaine Paiva, que também fez parte da minha banca.
Como é para você fazer parte da comunidade científica?
Eu não sei descrever muito bem como é, mas ver o seu projeto sendo feito, ver o resultado final, ver que você conseguiu achar resultados ali... Por mais que no TCC, a gente não necessariamente precisa inventar algo, só de você estar lá fuxicando e quando dá certo você fica assim: “Eu fiz isso!”. E eu fiz [pesquisa] em conjunto com outra colega e eu lembro que a gente sofria, que tinha alguns casos que o resultado era muito ruim e a gente não entendia por que que mudando de um para outro piorava o resultado.
O meu TCC nasceu de uma ideia de teste que eu tive e veio o hierárquico. E quando deu certo eu fiquei tão feliz quando eu vi que uma coisa aleatória, que eu pensei, tinha fundamento. Foi muito bom ver o resultado, ver os meus colegas assistindo à apresentação, entendendo. Mesmo fora da apresentação de TCC, tem também os workshops aqui da UFU, que a gente pode mostrar. Então, teve o TCC, eu apresentei o meu trabalho e eu vi outros professores, outros alunos vindo ver o meu trabalho, discutindo comigo, propondo coisas novas e isso é uma coisa simples, mas tão gratificante para todo mundo da área da ciência, é muito divertido.
Eu fiquei extremamente feliz e não sabia que ia ser daquele jeito, naquela hora [na colação de grau]. Ver meus amigos lá, minha família lá e receber esse prêmio foi algo mágico, é uma forma de reconhecer todo o esforço que foi feito valeu a pena. Todas aquelas preocupações, todos aqueles questionamentos que eu tive durante a graduação: “Por que que eu estou fazendo isso? Por que que eu estou me matando aqui a essa hora estudando? Por que que eu estou fazendo esse projeto aqui?” Foram embora.
Você tem alguém da área que te inspira?
No meu caso, não tem como não ser a minha mãe, essa grande inspiração que eu tive para a minha vida. Dra. Gina Maíra Barbosa de Oliveira. Ela sempre foi e é uma pessoa que chamou a atenção pela inteligência dela. Ela fez Engenharia Elétrica aqui na UFU. Outro curso com muitos homens, poucas mulheres. Fez mestrado em Tecnologias da Informação (TI), focada em Ciência da Computação. Fez o doutorado muito cedo e sempre foi minha grande referência de vida. Ela sempre foi reconhecida pelas pessoas ao redor dela, tanto que ela tocava as pessoas com a inteligência dela e mudava vidas com a inteligência dela. Sempre a acompanhei para todos os lugares, era muito chamada para apresentar em conferências lá fora, sobre a área, sobre as pesquisas, sobre os projetos, e eu sempre fui. E, sim, é encantador ter uma mulher dessas em casa. Não tinha essa de “isso é para homem, isso é para mulher”. Então, ela realmente é um destaque. Qualquer um que conviveu com ela, se você pergunta, só vai ouvir coisas boas.
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Palavras-chave: sistemas de informação Ciência da Computação Facom Mulheres e Meninas na Ciência Série Mulheres e Meninas na Ciência Série Mulheres e Meninas na Ciência
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