Publicado em 10/03/2026 às 09:30 - Atualizado em 10/03/2026 às 09:37
Uma pesquisa realizada no final de 2024 pelo Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais, em parceria com a NetLab-UFRJ e o Ministério das Mulheres, revelou a dimensão da misoginia nas redes sociais. O levantamento mostrou que conteúdos que propagam ódio, aversão, controle e desprezo às mulheres estão presentes em 137 canais no YouTube Brasil, somando 3,9 bilhões de visualizações na plataforma. O estudo aponta que a misoginia tem se tornado um negócio lucrativo para homens que produzem conteúdo na internet.
Esses influenciadores fazem parte da chamada machosfera, um nicho presente nas redes sociais composto por homens que promovem, por meio de vídeos e publicações, comportamentos machistas e misóginos. Eles difundem discursos que se opõem à liberdade feminina e reforçam estereótipos prejudiciais às mulheres.
A professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Nicoli Tassis, pesquisadora dedicada ao estudo das relações entre narrativas midiáticas e gênero, destrincha no episódio #147 do Ciência ao Pé do Ouvido as dimensões, consequências e causas que levam homens a integrar essa comunidade na internet.
Segundo a docente, a machosfera não surge apenas no ambiente digital, mas encontra nas redes sociais um espaço propício para expandir e alcançar um grande número de pessoas. “Quando a gente fala de machosfera, estamos falando de um conjunto de práticas, valores e modos de viver que configuram uma sociedade hierárquica, em que o homem cis é visto como sujeito social de excelência”, explica.
De acordo com Tassis, esse modelo coloca outras experiências de gênero em posição de subalternidade e contribui para reforçar desigualdades já presentes na sociedade. Ela destaca que a violência de gênero não se manifesta apenas em agressões físicas, mas também em atitudes cotidianas que limitam o direito de existência e participação de determinados grupos: “Quando cercamos o direito de existência do outro, seja na dimensão psicológica, verbal ou simbólica, também estamos falando de violência”.
A pesquisadora destaca que as redes sociais podem potencializar esse tipo de comportamento. O ambiente digital, segundo ela, cria uma sensação de anonimato que faz com que muitas pessoas se sintam mais confortáveis para expressar opiniões violentas ou preconceituosas. “Quando nos escondemos por trás de uma tela, muitas coisas são potencializadas. Muitas vezes a pessoa está usando o perfil falso e se sente menos inibida para dizer coisas que talvez não diria presencialmente”, pontua.
Além de afetar diretamente as mulheres, Tassis afirma que esse modelo de masculinidade também prejudica os próprios homens. Isso porque a machosfera reforça padrões de comportamento que desencorajam a expressão de sentimentos, vulnerabilidade e outras formas de vivência da masculinidade. “Esse sistema cerceia a liberdade e a potência das mulheres, mas também coloca os homens em um ambiente reduzido, em que eles não podem falar suas dores, sensibilidade ou fragilidades”, explica.
Para a pesquisadora, enfrentar esse cenário exige uma mudança cultural mais ampla, que passa pela educação e pela construção de relações baseadas no respeito e na igualdade de gênero. Para ela, também é fundamental que a sociedade aprenda a reconhecer e questionar práticas que naturalizam discursos de ódio e desigualdade.
O episódio já está disponível nas principais plataformas de áudio e também aqui no portal Comunica UFU. O Ciência ao Pé do Ouvido é produzido pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU) e conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).
Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.
Palavras-chave: machosfera machismo misoginia podcast Ciência ao Pé do Ouvido
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