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Conscientização

Letramento Racial: Expressões racistas que devem ser evitadas em nosso cotidiano

Reprodução de termos e expressões reforçam o racismo presente em nossa história. O dia 21 de março representa o Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial

Publicado em 20/03/2026 às 13:43 - Atualizado em 20/03/2026 às 14:01

Artes: Divisão de Publicidade, Propaganda e Design Gráfico (DPPDG/Dirco/UFU)

 

“A coisa tá preta”, “Chuta que é macumba!”, “Cabelo ruim”, estas e muitas outras expressões presentes em nossa sociedade carregam o racismo e, por isto, devem ser excluídas do nosso dia a dia. Jane Maria dos Santos Reis, servidora vinculada à Divisão de Licenciaturas da Diretoria de Ensino (Diren), da Pró-reitoria de Graduação (Prograd), e ao Núcleo de Estudos Afrobrasileiros (Neab), da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e pesquisadora da temática explica que estas expressões retratam a história do nosso país, a qual é marcada pelo racismo.

“Esses termos e expressões racistas nascem assim como nasce o nosso país, porque nós somos um território que se estruturou na base de colonização e de escravização de pessoas negras e, com isso, uma das heranças que a gente tem desse processo de colonização é um vocabulário extremamente racista”, explica .

A pesquisadora, que promove diversas atividades formativas antirracistas e participa da Rede de Mulheres Negras Líderes do Serviço Público Federal, destaca o porquê do uso de expressões e termos racistas. “Esse vocabulário, essa questão dos termos e expressões racistas, ele é muito de conhecimento empírico, de senso comum, de conhecimento popular”, afirma.

Se o dia a dia reforça a presença destes termos é com ações de letramento racial que elas perderão o espaço. “O Letramento Racial é essencial e há várias formas que ele pode ser feito e realizado. Então, apesar de não ser a única possibilidade,  para mim é uma das mais eficazes e importantes, não é só aqui na sala de aula, no processo educativo, mas também nas redes sociais, perfis antirracistas, filmes, músicas, documentários, tudo isso vai te proporcionar letramento racial”, comenta Reis.

 

Foto da pesquisadora Jane
A pesquisadora participa da Rede de Mulheres Negras Líderes do Serviço Público Federal (Foto: Milton Santos)

 

Guimes Rodrigues Filho, diretor da Diretoria de Estudos e Pesquisas Afrorraciais da UFU, reforça que “o letramento racial é um conjunto de práticas que buscam trazer uma formação antirracista. Aqui na UFU, nós temos o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros com pesquisadores que atuam nessa linha, já que uma das funções do Núcleo é justamente promover essas ações de formação antirracista”.

 

Combate à Discriminação Racial

 

Além de ações focadas no letramento racial, há datas que destacam a luta contra o racismo. Uma destas datas é 21 de março, o Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em memória ao Massacre de Sharpeville, que ocorreu na África do Sul em 1966.

Em 21 de março de 1960, mais de 20 mil sul africanos protestavam pacificamente e desarmados contra a Lei de Passe (a lei previa a obrigatoriedade de negros portassem cartões de identificação nos quais constassem os locais aonde eles poderiam ir). A proposta era que ocorresse um ato pacífico, onde os manifestantes não portariam o documento, para que assim todos fossem presos, fato que causaria problemas às administrações locais, em virtude do número de pessoas postas atrás das grades. No entanto, um grupo de policiais decidiu abrir fogo contra os manifestantes, matando 69 e ferindo 186.

“Embora o racismo nem sempre se manifeste de forma explícita, seu impacto é estrutural, institucional e simbólico. O que movimenta o racismo no Brasil é a leitura social dos corpos negros, ou seja, é a cor chegando primeiro, é o textura do cabelo crespo estigmatizada, são os traços faciais emitindo leituras enviezadas e promovendo o preconceito de marca. Daí a necessidade de combater a discriminação racial e destacar a importância dessa data, indicando o letramento racial enquanto instrumento promordial para essa luta antirracista”,  explica a pesquisadora.

 

Confira, abaixo, algumas expressões e termos racistas* presentes na Língua Portuguesa:

 

“Cabelo ruim”,  “cabelo duro”, “cabelo bombril”: são expressões de cunho racista que consistem em desprezar as características físicas das pessoas negras, associando-as a características ruins ou de qualidade inferior. 

“Denegrir": de origem latina que significa enegrecer, mas seu uso está associado à ideia de macular, manchar, sujar algo, ou seja, transmite  a ideia de que tornar algo negro é negativo.

“Disputar a negra”, “Disputar a neguinha”: a origem do termo possui caráter racista e misógino. No período da escravidão, homens brancos que possuíam pessoas escravizadas comumente se reuniam para disputas de lazer cuja premiação era a posse de uma mulher escravizada. 

“Escrava” e “Escravo”: possuem origem latina, podendo derivar de sclavus, ou seja, pessoa que pertence a outra, ou de slavus, isto é, eslava ou eslavo, um povo bastante escravizado na antiguidade. Especialistas afirmam que os termos escrava e escravo passam a ideia de que a pessoa já nasceu sem liberdade, como algo inato à sua condição, ignorando o fato de que as africanas e os africanos foram trazidos ao Brasil e forçados  a trabalhar nessa condição. 

“Humor negro”:  refere-se a uma espécie de comédia que foge dos padrões convencionais e chega a ser chocante por estar baseada em situações mórbidas, macabras ou ilícitas. Em outras palavras, é provocar o riso valendo-se de elementos relacionados, eventualmente ,ao susto ou ao choro.  

“Lista negra”: refere-se a um rol em que são agrupadas categorias de coisas ruins, proibidas, ilícitas ou que devam ser evitadas ou perseguidas. 

“Mulata”: a palavra serve para referir-se a mulheres negras que possuem o tom de pele mais claro, refletindo o preconceito ao estimular o clareamento da pessoa negra e pretender afastar a negritude do conceito de beleza. 

“Ovelha negra”: pretende designar uma pessoa que foge aos padrões aceitáveis, diferencia-se de forma inadequada dos padrões esperados. 

“Preta/preto de alma branca”: a expressão transmite a ideia de que não existem, por natureza, pessoas negras que sejam dignas, boas, exemplares. Reafirma uma percepção racista de que essas características são típicas apenas das pessoas brancas e que uma pessoa negra, para que as obtenha, deveria imitar uma branca.

“Serviço de preto”: possui duas interpretações. Em primeiro plano, pode significar trabalho feito de forma inadequada, incompleto, de baixa qualidade, o que embute a ideia de que apenas pessoas brancas podem realizar trabalho de qualidade e adequado. Sob outra perspectiva, pode significar trabalho pesado, trabalho braçal, aquele que não exige muito do intelecto. 

 

*Explicações extraídas da Cartilha “Expressões racistas: como evitá-las”/ Tribunal Superior Eleitoral. – Dados eletrônicos (107 páginas). – Brasília : Tribunal Superior Eleitoral, 2022.

 

Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.

 

Palavras-chave: letramento racial discriminação discriminação

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