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Memória

UFU promove júri simulado do caso Ismene Mendes

Faculdade de Direito propõe uma simulação de tribunal para contar a história da ex-aluna

Publicado em 04/03/2026 às 14:29 - Atualizado em 05/03/2026 às 09:54

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A Faculdade de Direito “Professor Jacy de Assis”, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), realiza, nesta quarta-feira, 4/3, às 19h, no auditório do bloco 5S, o evento “I Júri da Memória: Vozes por Ismene Mendes”. A atividade propõe uma simulação de tribunal para lançar luz sobre a história da ex-aluna e militante Ismene Mendes, brutalmente assassinada em 1985.

O evento é uma ação do Projeto de Pesquisa e Extensão Memoriar, coordenado pela professora Neiva Flávia de Oliveira. A iniciativa tem como foco central o resgate e a promoção da memória de casos de violações de direitos humanos na história brasileira, com ênfase especial no período da Ditadura Civil-Militar (1964–1985).


O Caso Ismene Mendes

Ismene Mendes (1956-1985), advogada nascida em Patrocínio (MG), graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia na década de 1970. Nascida na zona rural de Patrocínio,  mudou-se com a família, em 1965, para a cidade para que ela e a irmã tivessem uma educação de qualidade. Seu pai Almando Mendes ajudou a fundar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Patrocínio. Esse contato com o trabalho sindical, desde menina, incentivou Mendes a estudar Direito em Uberlândia, tornando-se advogada oficial do grupo quando se formou, e ajudando a construir a sede própria do Sindicato. Além do trabalho sindical, Mendes realizava diversos trabalhos voluntários em Patrocínio com pessoas que necessitavam de socorro  jurídico. 

Mendes candidatou-se a vereadora em 1982, quando o trabalho de vereadores em cidades que não eram capital e com menos de 200 mil habitantes não era remunerado. Ao mesmo tempo que Mendes era vereadora,  atuava como advogada da cooperativa Gargafé. 

Como consta no ebook “Comissão da Verdade do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba - Relatório I: caso Ismene Mendes: o legado classista, machista e fascista da ditadura civil-militar”, produzido pela Editora da UFU (EDUFU), em 2016, Mendes nunca teve grandes pretensões políticas. Como vereadora usou da posição como ferramenta de luta em busca dos direitos dos trabalhadores: “Fato que ilustra isso é que sua campanha eleitoral foi quase toda desenvolvida por companheiros e pessoas que Ismene ajudara, os quais se prestavam a andar pela cidade e conversar com a população, pedindo votos para eleição da advogada. [...] Como membro do legislativo municipal, Ismene soube usar muito bem sua posição política, de certa forma peculiar, posto que era uma das poucas mulheres vereadoras de Minas Gerais, na defesa dos direitos dos trabalhadores. Chama-se atenção para sua influência no trâmite 1º Projeto de Lei 998/1983, que obrigava o transporte de trabalhadores rurais e urbanos em ônibus adequados, proibindo que fosse feito em caminhões, por exemplo”, conta o ebook. 

Como agente político durante a Ditadura Militar, Mendes era constantemente vigiada por agentes do regime. Além de ser frequentemente ameaçada por fazendeiros e latifundiários, contrariados com perdas jurídicas envolvendo processos trabalhistas conduzidas por Mendes.  

A morte da advogada, em 22 de outubro de 1985, ficou marcada por versões contraditórias e polêmicas. De acordo com o inquérito policial, a advogada teria forjado um sequestro e estupro quase duas semanas antes. Mendes relatou que no dia 10 de outubro, quando saia do escritório da Gargafé rumo a sua casa, foi chamada por uma criança que pedia por socorro, ao chegar no local foi rendida, espancada e violentada sexualmente por homens encapuzados. Ao se dirigir à polícia, Mendes relatou o que havia acontecido, mas por falta de “provas robustas” o delegado da cidade concluiu que Mendes havia forjado o próprio estupro, mesmo sendo encontradas lascas de madeira dentro da órgão sexual da advogada. 

Sua morte, 12 dias depois, também teve controvérsias. De acordo com a versão policial, Mendes cometeu suicídio, resultado da ingestão de um inseticida. Ela foi encontrada por Humberto Casagrande, diretor da Gargafé. A polícia relatou que a ação foi motivada por uma negativa amorosa do diretor, que contou ter recebido cartas suicidas de Mendes, onde ela assumia ter forjado o próprio sequestro, e por isso foi até a casa de Mendes onde a encontrou agonizando na cama, mesmo tendo dito na primeira versão que não tinha intimidade nenhuma com Ismene e sua família. A família da advogada nunca acreditou na versão policial, sua irmã Islene Mendes disse à polícia que almoçou com a irmã e que não havia sinais que ela faria algo do tipo, além disso, a família nunca reconheceu as cartas suicidas apresentadas dias depois. 

O velório de Mendes foi repleto de trabalhadores rurais que carregavam faixas pedindo por justiça. O caso de Ismene Mendes foi retratado no ebook produzido pela EDUFU. Para saber mais, leia o conteúdo na íntegra

 

Exercício de Cidadania e História

Mais do que uma prática jurídica, o Júri Simulado se apresenta como um exercício interdisciplinar e de reflexão crítica. Estudantes da UFU assumirão os diversos papéis que compõem um tribunal, reconstruindo os fatos e debatendo as circunstâncias da morte de Ismene Mendes, ocorrida em um período sensível da redemocratização do país.

O objetivo é dar voz àqueles que foram silenciados e garantir que as novas gerações compreendam a importância da defesa dos direitos fundamentais.

 

Como Participar

O evento é aberto à comunidade acadêmica e externa. As inscrições estão disponíveis para diferentes categorias: jurados, participantes diretos da simulação e ouvintes. Haverá emissão de certificados para os presentes.

Confira os links para inscrição abaixo:

 

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