Publicado em 02/06/2026 às 14:58 - Atualizado em 02/06/2026 às 15:12
A Universidade Federal de Uberlândia (UFU) desenvolveu uma pesquisa que estuda como o fogo impacta a relação entre plantas e polinizadores no Cerrado. A pesquisa foi desenvolvida no curso de doutorado em Ecologia, Conservação e Biodiversidade pela estudante Larissa de Lima, a qual realizou os estudos em áreas do Itororó Park Club desde 2021.
A pesquisa destacou que os incêndios causados impactam diretamente na relação que os polinizadores têm com as plantas. Helena Maura Silingardi, orientadora do projeto, explicou que indivíduos estudados, os vegetais e os animais, têm uma relação benéfica mútua em que os polinizadores precisam das plantas para se alimentarem e as plantas precisam deles para se reproduzirem.
Para realizar o estudo, os pesquisadores analisaram três espécies de nativas do Cerrado: Qualea grandiflora, Qualea multiflora e Vochysia cinnamomea. Ao todo, foram acompanhadas 45 plantas, sendo 15 indivíduos de cada espécie. Silingardi explica que as espécies foram escolhidas porque dependem dos polinizadores para se reproduzir e são comuns no Cerrado brasileiro. Durante a pesquisa, os cientistas observaram como abelhas, borboletas, beija-flores e outros animais interagiam com as flores antes e depois de um incêndio, avaliando mudanças na quantidade de visitas, na produção de sementes e na relação entre esses indivíduos.
Antes do incêndio, os estudiosos perceberam que as interações ecológicas eram mais intensas e equilibradas. Indivíduos com maior quantidade de flores e botões florais recebiam mais visitas de animais como abelhas, borboletas e beija-flores. Além disso, exemplares que estavam próximos uns dos outros também eram beneficiados, porque a maior concentração de flores atraía mais visitantes para a região. A orientadora do projeto explicou que esse processo criava uma espécie de “cooperação” natural entre as espécies estudadas, chamada de facilitação. Os pesquisadores também observaram que indivíduos que compartilhavam mais desses visitantes com outros da mesma espécie apresentavam maior formação de frutos e sementes.
Após o incêndio, os pesquisadores perceberam uma grande redução nas interações ecológicas. O número de visitas às flores caiu drasticamente e a relação de cooperação deu lugar a um cenário mais competitivo. Além disso, quando muitos indivíduos floresciam ao mesmo tempo, eles passaram a disputar mais intensamente a atenção desses animais, provavelmente porque havia menos recursos disponíveis. O estudo também mostrou mudanças nos grupos de polinizadores: os beija-flores passaram a aparecer com mais frequência, enquanto outros grupos, como algumas abelhas, borboletas e mariposas, foram mais afetados pelo fogo. Além disso, a posição das plantas na rede ecológica deixou de ter tanta importância para o sucesso reprodutivo, indicando que o incêndio alterou profundamente a dinâmica de polinização e reprodução das espécies estudadas.
Como essa relação impacta o ser humano?
Os animais responsáveis pela polinização são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas e para a obtenção de diversos recursos utilizados pelos seres humanos no cotidiano. Quando o fogo reduz as interações entre flores e seus visitantes, muitas espécies vegetais encontram dificuldades para se reproduzir, comprometendo a formação de frutos, sementes e novos indivíduos. Esse impacto também alcança a agricultura, já que inúmeras culturas dependem desse processo para se desenvolver. Como consequência, frutas, legumes, castanhas, café e outros alimentos podem ter sua oferta reduzida quando ocorre a diminuição dessas populações.
Além da alimentação, o impacto também atinge recursos naturais importantes para a sociedade, como madeira, óleos vegetais, fibras e substâncias utilizadas na produção de medicamentos. Muitas plantas possuem compostos bioativos que ainda nem foram estudados pela ciência. “Se essas espécies desaparecerem antes de serem pesquisadas, a humanidade pode perder potenciais tratamentos e descobertas médicas”, afirma Silingardi.
O estudo também mostra que incêndios alteram o equilíbrio ecológico do Cerrado, comprometendo a biodiversidade e a capacidade de recuperação do ambiente. Como consequência, isso pode afetar o clima, a qualidade da água, a fertilidade do solo e até mesmo a economia ligada à agricultura e aos recursos naturais.
Publicação
O reconhecimento da pesquisa também veio no meio científico: o trabalho foi aceito pela Journal of Ecology, uma das mais prestigiadas revistas da área, vinculada à British Ecological Society. “Foi a realização de um sonho, porque publicar na Journal of Ecology, uma das maiores e mais prestigiadas revistas de ecologia do mundo, representa um reconhecimento muito importante do trabalho e da pesquisa desenvolvida”, finaliza Lima.
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Palavras-chave: ecologia polinização plantas fogo
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