Pular para o conteúdo principal
Saúde

Pressão Alta: cuidados necessários além do físico

Novos diretrizes sobre o tratamento da hipertensão arterial sistêmica estimulam a interdisciplinaridade dentro da área da saúde

Publicado em 11/06/2026 às 09:23 - Atualizado em 11/06/2026 às 09:31

Foto: Magnific

A hipertensão arterial sistêmica, conhecida popularmente como pressão alta, é uma das doenças mais comuns entre os brasileiros. De acordo com dados da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, cerca de 27,9% da população brasileira possui pressão alta, um número que representa algo em torno de 30 milhões de pessoas. 

A doença é caracterizada pela elevação persistente dos níveis de pressão nas artérias (≥ 140 mmHg e/ou ≥ 90 mmHg) aumentando a sobrecarga sobre órgãos como coração, rins, cérebro e vasos sanguíneos. A hipertensão arterial sistêmica  é considerada um dos fatores de risco metabólico que mais contribuem para todas as causas de óbito e para a morbidade e mortalidade por doenças cardiovasculares (DCV). 

Porém, geralmente a doença não é associada a sintomas, por isso é nomeada como uma doença silenciosa, como explica o professor e coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (Famed/UFU), Marcus Vinícius de Pádua, sendo diagnosticada por meio da aferição adequada e repetida da pressão arterial. O docente afirma que, por conta dessa característica, a pressão alta é considerada uma das doenças crônicas mais perigosas da atualidade.

A professora Izabela Lima Perissato, do Departamento de Saúde Coletiva da Famed, explica que o maior problema dessa silenciosidade é que muitas pessoas vivem por anos com a condição sem saber: “O grande risco é que muitas pessoas só descobrem a doença quando já apresentam alguma complicação, como acidente vascular cerebral (AVC), infarto, insuficiência cardíaca ou comprometimento renal. Essas condições podem resultar em limitações físicas, perda da autonomia, redução da qualidade de vida, incapacidade e até morte precoce”.

A hipertensão não é resultado apenas de escolhas individuais, ela também reflete as condições em que as pessoas vivem, ou seja, o contexto no qual estão inseridas. Perissato detalha que fatores como renda, escolaridade, condições de moradia, acesso aos serviços de saúde, disponibilidade de alimentos saudáveis e oportunidades para a prática de atividade física influenciam diretamente o risco de adoecimento. Além disso, hábitos como o consumo excessivo de sódio e de alimentos ultraprocessados, o sedentarismo, o tabagismo, o consumo abusivo de álcool e o estresse crônico contribuem para o aumento dos casos de hipertensão. 

Por isso o tratamento da hipertensão exige uma abordagem multidisciplinar envolvendo múltiplos fatores como hábitos de vida, alimentação, atividade física, fatores emocionais, adesão medicamentosa e acompanhamento clínico contínuo, abrangendo médicos, enfermeiros, nutricionistas, educadores físicos, psicólogos e outros profissionais da saúde que possuem papel fundamental no controle adequado da pressão arterial.  

 

Sessão de Integração dos Eixos do Curso de Medicina (SIET)

 

Para cumprir com os requisitos da reforma curricular do curso de Medicina da UFU, feito em 2013, e abranger as Atividades Sensoriais, Reflexivas e Formativas (ASRF), Eixo de Atividades Profissionais de Saúde Individual e Coletiva (APSIC), Eixo de Atividades Discursivas e de Práticas Laboratoriais (ADPL) e Eixo de Atividades Complementares e de Apoio (ACA), o Programa de Educação Tutorial (PET) Medicina UFU criou em 2023 a Sessão de Integração dos Eixos do Curso de Medicina (SIET). 

De acordo com o professor e coordenador do PET, Danilo Borges, o foco da SIET é fazer com que os estudantes sejam capazes de reconhecer as diferentes abordagens de uma mesma temática com base na integração entre os conhecimentos adquiridos ao longo do curso nos diferentes eixos, além de promover o diálogo e a interação entre os professores de cada eixo, possibilitando que essa integração transcenda o momento da SIET. “Um dos aspectos mais apontados entre estudantes e professores para o aprimoramento do processo de ensino-aprendizagem neste modelo curricular é o desafio da integração entre os eixos, em termos de diálogos e integração dos saberes compartilhados”, aponta o coordenador.

Em 2026, o tema do evento foi a atualização das diretrizes da hipertensão arterial sistêmica. De acordo com Pádua, as principais atualizações feitas foram em relação ao diagnóstico mais rápido, da monitorização fora do consultório, como Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial e Monitorização Residencial da Pressão Arterial, e do controle mais rigoroso da pressão arterial, uso de medicamentos e integração no tratamento de doenças: “Essas mudanças ajudam a reduzir eventos cardiovasculares, hospitalizações e mortalidade, além de melhorar a proteção dos órgãos-alvo”.

Borges explica que a complexidade da doença, integrando diferentes áreas da saúde e as novas diretrizes, foram  os motivos para que o PET decidisse discutir o assunto no ano de 2026: “Nós identificamos ser um tema relevante para a SIET, um evento que permite a discussão integrada de um tema relevante para a formação médica, viabilizando que os participantes pudessem conhecer as atualizações e seus impactos, bem como os aspectos mais relevantes para a promoção do cuidado integral em saúde das pessoas”.

O evento contou com a participação dos professores Marcus Vinícius de Pádua Netto, Carlos Henrique Martins da Silva e Izabela Perissato, todos da Famed/UFU. Foram discutidas assuntos como narrativa médica, sabedoria prática, necessidade da integração de tratamentos, atendimento personalizado, entre outros temas. Carlos Henrique Martins tratou dos determinantes sociais de saúde relacionados à hipertensão arterial sistêmica. 

A Medicina Narrativa convoca o profissional médico a ouvir as histórias das pessoas, suas percepções sobre os impactos da sua situação clínica nos seus corpos e mentes. Procura também identificar fenômenos familiares, sociais e ecológicos, ou seja, fatores que podem contribuir para a causa e afetar o tratamento da pressão arterial sistêmica: “Infelizmente ainda vivenciamos práticas profissionais em saúde que priorizam a dimensão biomédica do cuidado e dão pouca atenção aos aspectos subjetivos, sociais e ambientais. No entanto, há o imperativo ético de considerar o cuidado em saúde que leve em conta a autonomia das pessoas, ou seja, o respeito às escolhas autônomas e responsáveis, bem como a justiça social, ou seja, a redução das iniquidades de acesso e cuidado em saúde”, explica Martins.

Por isso, o coordenador do curso diz que eventos científicos sobre hipertensão são fundamentais para aproximar os estudantes das atualizações médicas e da realidade prática do cuidado ao paciente. “Estes [eventos] estimulam pensamento crítico, integração multiprofissional e contato com evidências científicas recentes. Além disso, permitem que os alunos compreendam a importância da prevenção, do acompanhamento longitudinal e do impacto social das doenças crônicas, contribuindo para formação médica mais humanizada, atualizada e conectada às necessidades do sistema de saúde”.

Borges explica que para essa integração são necessárias inicialmente ações de Educação em Saúde, para profissionais de saúde e, também, para a comunidade, sendo que essas devem ser capazes de contextualizar a hipertensão na realidade de cada pessoa que viva a doença, empoderando cada um para atuar na melhoria da qualidade de vida e saúde, com maior participação no controle desse processo e na tomada de decisões a partir das evidências científicas. Por isso, eventos como a SIET são tão necessários para a formação médica atualmente. 




Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.

Palavras-chave: saúde Famed hipertensão pressão alta cuidados

A11y