Publicado em 01/06/2026 às 08:50 - Atualizado em 01/06/2026 às 09:38
Em meio às discussões no Congresso Nacional sobre propostas de redução da jornada de trabalho, pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) publicaram um levantamento detalhado sobre como o tempo de trabalho se distribui na realidade do país e do município. O Boletim de Informações sobre a jornada de trabalho no Brasil e em Uberlândia, divulgado pelo Observatório do Trabalho — vinculado ao Centro de Estudos, Pesquisas e Projetos Econômico-Sociais (Cepes) —, apresenta dados que qualificam o debate público.
A equipe técnica analisou os microdados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) referentes a dezembro de 2025. O recorte metodológico considerou exclusivamente os vínculos ativos do setor privado regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), excluindo servidores estatutários, trabalhadores temporários, intermitentes e em regime parcial.
De acordo com o economista Welber Tomás de Oliveira, integrante da equipe técnica do Cepes responsável pelo estudo, a publicação não ocorre neste momento por acaso. "O levantamento é motivado pela discussão de redução da jornada de trabalho que está tramitando no congresso", explica. Sobre a decisão de focar também nos dados locais, Oliveira pontua: "O interesse por olhar Uberlândia é observar se há alguma especificidade em relação ao Brasil. Mas o município tem distribuição e características similares".
Os dados processados pelo CEPES evidenciam que a maioria da força de trabalho formal no Brasil ainda está submetida às jornadas mais longas previstas em lei.
Tanto no cenário nacional quanto no âmbito municipal, quase oito em cada dez trabalhadores cumprem entre 41 e 44 horas semanais:
Em contrapartida, vínculos que preveem de 31 a 40 horas semanais contemplam apenas 15,64% dos brasileiros e 17,57% dos uberlandenses. As jornadas extremas (acima de 44 horas) representam uma minoria de 2,54% no Brasil e 1,52% em Uberlândia.
Um dos principais apontamentos do documento é a relação inversamente proporcional entre a extensão da jornada e a média salarial. O cruzamento de dados demonstra que trabalhadores com vínculos acima de 40 horas semanais recebem, em média, valores consideravelmente menores do que aqueles com jornadas de até 40 horas.
Para Welber Tomás de Oliveira, esse é o grande destaque da pesquisa. "O mais interessante é o gráfico de percentual de trabalhadores com vínculos até 40 horas e percentual com vínculos entre 41 e 44 horas para cada faixa de renda medida em salários mínimos. É possível notar claramente que trabalhar 40 horas é uma característica predominante entre trabalhadores com maiores salários, enquanto aqueles com menores trabalham 44 horas semanais", analisa o economista. "Desta forma, os trabalhadores mais bem pagos têm também jornadas menores."
No contexto nacional, a média salarial de quem trabalha de 31 a 40 horas (R$ 5.362) chega a ser cerca de 80% superior à remuneração média de quem cumpre a jornada padrão de 41 a 44 horas semanais (R$ 2.963).
Apesar de acompanhar a tendência nacional na maior parte dos indicadores, Uberlândia apresentou uma especificidade estatística intrigante nas faixas de remuneração mais elevadas.
Segundo o boletim, no grupo de profissionais do município que recebe mais de 20 salários mínimos, é mais comum a incidência de vínculos com mais de 40 horas semanais — indo na contramão da média do país para essa mesma elite salarial, onde predominam jornadas menores.
Para aprofundar a análise qualitativa, a equipe do CEPES analisou os dados da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). Essa taxonomia divide os setores econômicos conforme sua capacidade de gerar e absorver tecnologia e inovação.
Os resultados mostram que a jornada reduzida já é uma realidade prática, mas restrita a áreas específicas da economia:
Vinculado ao Instituto de Economia e Relações Internacionais (IERI/UFU), o Cepes fornece suporte técnico e institucional por meio de pesquisas econômicas. Seus estudos contribuem ativamente para a formulação de políticas públicas e programas de desenvolvimento socioeconômico.
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Palavras-chave: Jornada de Trabalho CEPES mercado de trabalho
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