Publicado em 30/07/2026 às 14:56 - Atualizado em 30/07/2026 às 15:16
Todo mês de agosto, uma pequena cidade no interior de Minas Gerais se transforma. Romaria, localizada na mesorregião do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, tem pouco mais de 3 mil habitantes, mas recebe centenas de milhares de pessoas de várias partes do Brasil, no intervalo de um mês, na Festa de Nossa Senhora da Abadia.
Um fenômeno como esse é do interesse da ciência e virou tema de tese de doutorado na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Quem está conduzindo o estudo é a pesquisadora Mayara Abadia Delfino dos Anjos, que nasceu e vive em Romaria. Ela é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Administração, da Faculdade de Gestão e Negócios (Fagen/UFU), e está sob orientação do professor José Eduardo Ferreira Lopes.
Anjos vai desenvolver um modelo de governança colaborativa para festas religiosas de grande porte. Além da sustentabilidade econômica, social e ambiental, a pesquisa inova ao propor uma quarta dimensão: a sustentabilidade simbólico-religiosa. Os resultados poderão subsidiar gestores públicos, Igreja, comerciantes e comunidade na organização futura da festa.
A pesquisadora está ouvindo todas as partes interessadas que afetam ou são afetadas pela festa. Na área da Administração, eles são chamados de stakeholders. São 30 entrevistas em profundidade e 500 questionários aplicados para mensurar padrões de percepção entre diferentes grupos: romeiros, moradores, comerciantes e gestores.
As aplicações estão acontecendo em Romaria e o formulário também está disponível online para qualquer pessoa que já tenha participado da Festa de Nossa Senhora da Abadia, independentemente do ano, e queira participar da pesquisa (acesse aqui). As respostas podem ser enviadas até 15 de agosto. Todo o trabalho já foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/UFU).
Além disso, Anjos pretende incluir grupos sub-representados, chamados de stakeholders invisíveis, por exemplo, os pedintes que ficam ao redor da igreja e o acampamento de pessoas com hanseníase, autodenominado de “leprosos”, que se instalam nos arredores da cidade e mantêm rituais próprios de oração e recebimento de doações.
A festa de Romaria
A festa em louvor a Nossa Senhora da Abadia acontece em Romaria há 156 anos. É reconhecida como de relevante interesse cultural do Estado de Minas Gerais, por meio da Lei Estadual nº 22.898/2018, e é registrada como patrimônio cultural imaterial pelo município de Romaria.
Há celebrações no Santuário Basílica, na praça e em outros espaços da pequena cidade durante todo o mês que antecede a procissão e coroação de Nossa Senhora, em 15 de agosto. Nesse período também acontecem as caminhadas de milhares de romeiros, que vão a pé desde cidades como Uberlândia e Uberaba até Romaria, em sinal de penitência e pagamento de promessas.
A parte social da festa envolve centenas de barraquinhas de comércio. São itens religiosos, alimentos, roupas, eletrônicos, artesanatos e novidades que surgem a cada ano. E não são apenas a Igreja e os moradores que comercializam nesse período, mas centenas de comerciantes, inclusive de outros estados, que vão para Romaria na época da festa.
Os moradores alugam as calçadas para os comerciantes de fora. Há quem também alugue a própria casa temporariamente para turistas que passam mais tempo na cidade. De acordo com Anjos, a renda arrecadada durante um mês de festa movimenta a economia do município no restante do ano todo.
Como a ciência pode ajudar
A partir da articulação de três teorias da Administração, as análises preliminares apontam problemas estruturais, sociais e de gestão na Festa de Romaria que demandam soluções inovadoras. Uma das teorias é sobre a estrutura de sustentabilidade, que avalia o sucesso de forma integrada em três dimensões: econômica, social e ambiental, além da simbólico-religiosa proposta por Anjos.
As outras são a teoria dos stakeholders, a partir da identificação e do mapeamento de todos os atores envolvidos e suas relações de poder, e a de governança colaborativa, com criação de espaços de decisão conjunta entre o poder público e a sociedade civil.
Articulando essas teorias com a observação participante e análise documental, além das entrevistas e a aplicação de questionários que estão acontecendo na fase atual da pesquisa, Anjos já identificou deficiências em infraestrutura e logística, como a capacidade de suporte local. A estrutura urbana de Romaria não comporta o volume massivo de visitantes, o que gera uma dependência de serviços de hospedagem, alimentação e sistemas bancários em cidades vizinhas.
Outro ponto a ser melhorado é o saneamento básico, pois os banheiros públicos são insuficientes para atender à demanda, levando moradores a alugarem seus próprios banheiros para uso dos romeiros. O impacto nas rodovias é sentido em toda a região, quando o fluxo intenso de romeiros a pé e de veículos altera significativamente o tráfego e a segurança nas principais rodovias de acesso, como a BR-365 e a MG-190.
Os conflitos socioeconômicos também precisam de soluções de gestão. Observa-se um desequilíbrio financeiro municipal, pois o gasto da Prefeitura Municipal para realizar o evento é maior do que o arrecadado com as taxas dos comerciantes ambulantes. Além disso, após o encerramento da festa, a cidade sofre com grandes volumes de lixo espalhados pelas ruas, superando a capacidade operacional de limpeza do município.
Também é preciso ampliar a participação comunitária, com mecanismos formais para que moradores e pequenos comerciantes participem ativamente do planejamento da festa, além de ouvir as demandas dos stakeholders invisíveis, como pessoas doentes e em situação de rua.
Outro cuidado da pesquisa se refere aos riscos à identidade e à sacralidade. Existe um paradoxo do crescimento da festa, quando a pressão turística e a comercialização excessiva podem ameaçar apagar as características espirituais e culturais e a autenticidade dos rituais seculares. Anjos identifica que os modelos comuns de gestão turística falham por omitirem os valores sagrados e as dinâmicas comunitárias específicas do contexto religioso.
A pesquisadora aponta uma falta de governança colaborativa e a necessidade de sair de uma gestão de interesses isolados para uma coprodução de políticas públicas, em que a Igreja, o Estado e a comunidade tomem decisões juntos.
Em resposta a esses problemas, a doutoranda propõe a criação de um produto técnico, como um site ou aplicativo, que ofereça ferramentas práticas de governança e indicadores de sustentabilidade para auxiliar gestores públicos e líderes religiosos na tomada de decisão.
Após a conclusão do estudo, que precisa da participação da comunidade para responder aos questionários, os resultados serão divulgados na tese, a ser defendida em 2027, e também aqui, no portal Comunica UFU.
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Palavras-chave: Romaria gestão sustentabilidade religião administração Fagen
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