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Ciência

Restaurador da UFU reproduz método de produção artesanal de tintas usadas por Rembrandt

Pesquisa amplia as possibilidades para artistas contemporâneos e para a conservação de obras de arte

Publicado em 31/07/2026 às 15:33 - Atualizado em 31/07/2026 às 17:26

Pesquisador e obra “Autorretrato de Rembrandt na idade de 63 anos”, de 1669 (Fotos: Arquivo pessoal de Saul Carvalho/ Galeria Nacional Reino Unido)

Antes do século XIX, pintores produziam as próprias tintas a partir do refinamento artesanal de óleos vegetais. Com o surgimento dos tubos metálicos de tinta, a fabricação industrial passou a incorporar aditivos que aumentam a durabilidade e facilitam o armazenamento. 

Parte desse conhecimento tradicional está sendo recuperada pelo restaurador da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Saul Ferdinando de Oliveira Carvalho. Ele conduziu uma pesquisa que procura reproduzir efeitos semelhantes aos obtidos pelo pintor holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669).

Desenvolvida em vínculo com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a pesquisa reuniu experimentos baseados em receitas históricas de refinamento do óleo de linhaça e comparou o comportamento da tinta produzida artesanalmente com formulações industriais atuais. 

Carvalho explica que o interesse por essas técnicas também está relacionado aos desafios enfrentados na conservação de pinturas modernas: "uma coisa que se nota na área do restauro é que uma grande parcela das pinturas dos últimos dois séculos está em estado de conservação muito pior do que pinturas dos séculos XVI, XVII e XVIII. Teoricamente, por elas serem mais velhas, elas deveriam estar em pior estado”.

Os empastes de Rembrandt

Durante seu mestrado em Artes, Carvalho realizou um intercâmbio na Universidade Complutense de Madri e um estágio no Museu do Prado, na Espanha. Segundo o restaurador, os pesquisadores europeus da área tinham uma grande fascinação pela técnica do pintor holandês. "O Rembrandt, vamos dizer assim, é o nosso Pelé da pintura".

Um dos aspectos que mais chama atenção nas obras de Rembrandt são os empastes, técnica em que a tinta é aplicada em camadas espessas, formando relevos e preservando as marcas deixadas pelo pincel ou pela espátula. Quando retornou ao Brasil, Carvalho decidiu investigar como eram produzidas as tintas que permitiam esse efeito. 

Pesquisador em frente ao outdoor da exposição de Rembrandt
Pesquisador na exposição de Rembrandt no Museu do Prado, em 2008 (Foto: Arquivo pessoal/ Saul Carvalho)

O principal desafio era a falta de registros históricos. Carvalho explica que muitos artistas buscavam preservar suas receitas, e apenas passavam o conhecimento de forma oral a seus aprendizes: “não há como afirmar que qualquer fórmula seja a mesma que foi utilizada pelo pintor".

"Eu também não tinha como comparar amostras de pinturas que custam milhões que estão em museus europeus", explica. O pesquisador recorreu a tratados de pintura escritos há cerca de 400 anos e à literatura científica produzida por conservadores e restauradores.

A primeira etapa do estudo foi o refinamento artesanal do óleo de linhaça. Durante cerca de três meses, o óleo foi misturado com água e areia, agitado repetidas vezes e exposto ao sol até adquirir maior viscosidade e perder impurezas, características importantes para a produção da tinta. "Isso que eu fiz de colocar o óleo no sol, o próprio Leonardo da Vinci fazia. Provavelmente a Mona Lisa foi pintada com óleo assim".

Para avaliar os resultados, Carvalho comparou a tinta produzida na pesquisa com tintas industriais e reproduziu trechos de pinturas de Rembrandt. O resultado foi uma tinta mais densa e elástica, capaz de sustentar relevos e modificar sua consistência durante a aplicação.

Comparação da tinta produzida pelo pesquisador e a obra original
À esquerda está a reprodução do pesquisador, e à direita está o trecho da pintura original de Rembrandt, “Retrato de Hendrickje Stoffels ”, datada entre 1654 e 1656 (Foto: Arquivo pessoal/ Saul Carvalho)

O que faz um restaurador de obras raras da UFU?

Desde março de 2024, Carvalho atua como restaurador do Sistema de Bibliotecas da UFU, trabalhando no acervo de obras raras. O servidor explica que, para uma obra ser considerada rara, deve atender aos critérios estabelecidos pela Biblioteca Nacional: “livros do século XIX, anteriores a 1800, podem ser considerados obras raras. Aqui na universidade a gente tem uma série de livros com essa classificação”. Além do acervo, seu trabalho inclui a restauração de livros utilizados diariamente pela comunidade acadêmica. Em muitos casos, as intervenções decorrem de problemas estruturais, como infiltrações e goteiras que atingem os materiais.

A universidade preserva coleções de interesse para diferentes áreas. "A biblioteca tem um acervo de cartazes do teatro do Rio de Janeiro que, para quem pesquisa essa área, é uma mina de ouro. Talvez um engenheiro veja pouca importância, mas para um pesquisador de teatro esse material é valiosíssimo”. O restaurador defende que a função das universidades públicas é abastecer todas as áreas de conhecimento, sem fazer juízos de valor.

No momento, Carvalho é doutorando em História na UFU, pesquisando os acervos de obras raras do Triângulo Mineiro.

Pesquisador na Biblioteca do campus Santa Mônica
Carvalho em frente à coleção especial da Biblioteca do Campus Santa Mônica (Foto: Arquivo pessoal/ Saul Carvalho)

Acesso à pesquisa

O estudo foi publicado na forma de artigo na revista do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da Unicamp. Carvalho espera que a pesquisa contribua com a comunidade de artistas que têm buscado essa produção artesanal de tintas.

Desde que publicou a pesquisa, o restaurador vem se dedicando a outro projeto de longo prazo que investiga o uso do óleo de chia, empregado na pintura colonial mexicana.


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Palavras-chave: arte pesquisa Rembrandt tinta à óleo restauração Biblioteca

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