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Relações Internacionais

UFU cria núcleo para estudar extremismos e redes políticas transnacionais

Vinculado ao Instituto de Economia e Relações Internacionais, o NETEX articula pesquisa, formação e extensão; primeiro ciclo do grupo de estudos recebe inscrições até 12 de outubro

Publicado em 18/09/2026 às 09:15 - Atualizado em 18/09/2026 às 10:00

NETEX une pesquisa acadêmica à compreensão de fenômenos contemporâneos (Imagem elaborada com base na identidade visual do portal NETEX)

 

Compreender como ideias, movimentos e organizações políticas ultrapassam fronteiras, estabelecem redes internacionais e assumem características próprias em diferentes países está entre os objetivos do Núcleo de Estudos sobre Transnacionalização e Extremismos (NETEX), criado no âmbito do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (IERI/UFU).

Coordenado pelo professor David Magalhães, o novo núcleo reúne atividades de pesquisa, formação e extensão dedicadas ao estudo dos extremismos e das redes transnacionais da política contemporânea. Entre suas primeiras iniciativas está o Grupo de Estudos sobre Transnacionalismo e Extremismos (GETEX), que está com inscrições abertas para seu primeiro ciclo de formação, “Fascismo em Perspectiva”

Segundo Magalhães, a criação do NETEX resulta da convergência de motivações científicas, acadêmicas e públicas, entre elas a necessidade de compreender a expansão e a articulação internacional de movimentos políticos identificados na literatura especializada como de direita radical e extrema direita. “Não se trata de um fenômeno marginal nem passageiro. É necessário compreender esse fenômeno com rigor científico”, afirma o coordenador.

O Núcleo também parte da experiência acumulada no Observatório da Extrema Direita (OED), rede internacional de pesquisadores da qual Magalhães é coordenador, e de projetos já desenvolvidos por pesquisadores envolvidos na iniciativa.

O que atravessa as fronteiras

Um dos diferenciais do NETEX está na perspectiva adotada para investigar esses fenômenos. Enquanto diferentes centros de pesquisa trabalham com o tema a partir de áreas como História, Sociologia e Criminologia, o novo núcleo propõe acrescentar o instrumental das Relações Internacionais.

Nesse sentido, a própria escolha do nome ajuda a compreender o objeto de pesquisa. “O ‘T’ do nome, de transnacionalização, é central. Entender como ideias, estratégias e símbolos circulam entre o global e o local, e como são traduzidos para a realidade brasileira, é a nossa contribuição específica”, explica Magalhães.

O interesse está, portanto, não apenas nos atores políticos de cada país, mas também nas conexões estabelecidas entre eles. Partidos, centros de pensamento, fundações, conferências e plataformas digitais podem funcionar como espaços de circulação internacional de ideias, estratégias e repertórios políticos. A pesquisa busca observar como esses elementos atravessam fronteiras e são posteriormente apropriados e reconfigurados nos contextos nacionais e locais.

A proposta conecta o NETEX a agendas já desenvolvidas no IERI e a outras estruturas da Universidade. Segundo o coordenador, estão previstas articulações com estudos sobre gênero, direitos humanos, política externa e integração regional, além da colaboração com o Núcleo de Pesquisas e Estudos em Direitos Humanos (NUPEDH) e a Cátedra Sérgio Vieira de Mello. O Núcleo também mantém conexões com redes nacionais e internacionais de pesquisadores.

Pesquisa também terá dimensão aplicada

Outra motivação para a criação do NETEX está relacionada a pesquisas sobre extremismo violento e ambientes escolares. Pesquisadores envolvidos com o Núcleo participam do projeto “Extremismo violento em ambientes escolares: análise, detecção e combate”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). A iniciativa reúne UFU, Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universitat Autònoma de Barcelona.

O projeto, com vigência até 2029, prevê ações como produção de banco de dados de acesso aberto, guia de referência, atividades de capacitação e outros instrumentos de pesquisa e divulgação. O site do NETEX informa ainda a previsão de desenvolvimento de recursos voltados à identificação de simbologias extremistas.

Para Magalhães, projetos dessa natureza reforçaram a necessidade de criar uma estrutura acadêmica permanente para organizar as diferentes atividades. Segundo ele, as iniciativas em andamento precisavam de “um endereço acadêmico estável dentro do IERI”.

Conceitos serão tratados como objetos de pesquisa

Um dos desafios do trabalho está na própria definição dos conceitos empregados. Termos como extremismo, radicalismo e fascismo estão presentes tanto na literatura científica quanto no debate político cotidiano, nem sempre com o mesmo significado.

Magalhães destaca que o primeiro cuidado do NETEX será justamente conceitual. “No debate público, esses termos funcionam muitas vezes como xingamento ou como arma retórica. O olhar acadêmico, contudo, prescinde de definição explícita rigorosa, critérios verificáveis e limites claros de aplicação”, explica.

A proposta é trabalhar com distinções presentes na literatura especializada e explicitar os critérios utilizados nas pesquisas. O coordenador ressalta, por exemplo, que radicalismo e extremismo não são necessariamente sinônimos e que nem todas as manifestações caracterizadas como extremistas estão associadas à violência.

No caso do fascismo, o desafio conceitual é ainda maior. Há diferentes correntes acadêmicas e interpretações construídas ao longo de décadas, sem uma definição única aceita por toda a literatura. Essa diversidade está no centro do primeiro ciclo do GETEX. Em vez de adotar previamente uma única definição, os participantes percorrerão diferentes tradições interpretativas, analisando seus argumentos, contribuições e limites. “A regra é ler cada autor em seus próprios termos, reconstruir fielmente seu argumento e só depois criticá-lo. Ao final, o objetivo não é que o grupo tenha ‘a’ definição, mas um mapa das definições possíveis”, afirma Magalhães.

Além do cuidado conceitual e do pluralismo teórico, o Núcleo pretende utilizar procedimentos como monitoramento de atores e redes, construção e curadoria de bancos de dados, análise de discurso, análise de redes e estudos comparados. “Classificações precisam se apoiar em evidências sistemáticas. Comparar é, aliás, uma das melhores vacinas contra a simplificação”, destaca o coordenador.

GETEX será porta de entrada para estudantes

A formação de novos pesquisadores será uma das principais frentes de atuação do NETEX. O Grupo de Estudos sobre Transnacionalismo e Extremismos foi criado como porta de entrada para estudantes interessados em participar das atividades do Núcleo e desenvolver pesquisas relacionadas às suas linhas de investigação.

O primeiro ciclo, “Fascismo em Perspectiva”, terá 32 sessões quinzenais, entre outubro de 2026 e julho de 2028. Os encontros ocorrerão às terças-feiras, das 19h às 20h30, no Campus Santa Mônica, com carga horária presencial prevista de 48 horas. A sessão de abertura está marcada para 27 de outubro.

 

grupo de estudos netex
Grupo de Estudos sobre Transnacionalismo e Extremismos terá encontros quinzenais (Imagem: Canva)

 

O percurso longo é intencional. Segundo o coordenador, a proposta não é oferecer uma introdução rápida ao assunto, mas proporcionar uma formação teórica que permita aos participantes conhecer diferentes interpretações e construir um repertório acadêmico comum. “A ideia não é oferecer um panorama rápido, mas uma formação teórica sólida, que dificilmente se obtém em uma disciplina regular”, explica Magalhães.

Não é necessário ter formação prévia no tema. O ciclo é aberto a estudantes de graduação e pós-graduação, além de pesquisadores e egressos de diferentes áreas das Ciências Humanas e Sociais. É exigida, entretanto, capacidade de leitura em inglês, devido à bibliografia que será utilizada.

Participação ativa e produção coletiva

A dinâmica do GETEX foi estruturada para que os integrantes não atuem apenas como ouvintes. Cada participante deverá realizar leituras previamente, produzir fichas, assumir relatorias e arguições e participar das discussões promovidas durante as sessões.

Com isso, o grupo pretende desenvolver competências relacionadas à leitura acadêmica, síntese de argumentos, formulação de objeções, debate e produção de textos. “Ninguém fica na posição de ouvinte: cada participante envia uma ficha de leitura antes de cada encontro, assume relatorias e arguições e participa de rodadas em que todos falam”, explica Magalhães.

O próprio desenho das sessões busca incentivar essa participação. De acordo com a apresentação do ciclo, cada encontro contará com relator e debatedor, que produzirão posteriormente uma seção do trabalho resultante da atividade. 

Ao final das 32 sessões, o Ciclo I deverá resultar em um livro coletivo, organizado e revisado pelo coordenador. A proposta é que cada módulo corresponda a um capítulo e que os textos sejam construídos progressivamente ao longo dos encontros, em vez de produzidos somente depois do encerramento das atividades.

Da formação aos projetos de pesquisa

A participação no GETEX também poderá resultar em novos projetos acadêmicos. Entre as possibilidades estão iniciação científica, trabalhos de conclusão de curso e pesquisas de pós-graduação relacionadas às linhas desenvolvidas pelo Núcleo.

Os temas incluem transnacionalização de movimentos e partidos, política externa das direitas radicais, radicalização em ambientes digitais, relações entre gênero e extremismos e políticas de prevenção. O projeto financiado pela Fapemig também prevê participação de bolsistas e interlocução com pesquisadores de outras instituições.

Magalhães destaca, entretanto, uma dimensão menos visível dessa formação: a constituição de uma comunidade de pesquisa. “Muitos estudantes se interessam pelo tema a partir do que veem nas redes e no noticiário. O que o GETEX oferece é a oportunidade de transformar essa inquietação em pergunta de pesquisa”, afirma.

A proposta é que esse interesse inicial passe a ser trabalhado com método, bibliografia especializada e interlocução continuada com colegas e pesquisadores.

Inscrições abertas até 12 de outubro

O Ciclo I — Fascismo em Perspectiva oferece 20 vagas. São 12 destinadas a estudantes de graduação da UFU, seis para estudantes de pós-graduação de qualquer instituição e duas para docentes, pesquisadores e egressos.

As inscrições ficam abertas até 12 de outubro de 2026. O resultado da seleção está previsto para 19 de outubro, e a sessão de abertura será realizada em 27 de outubro.

Saiba mais
  • NETEX — Núcleo de Estudos sobre Transnacionalização e Extremismos: Informações sobre o Núcleo, suas frentes de atuação, pesquisas, publicações, redes e atividades: https://netex-ufu.com.br/
  • Ciclo I — Fascismo em Perspectiva: Cronograma completo das 32 sessões, funcionamento do grupo, bibliografia, distribuição das vagas e formulário de inscrição: https://netex-ufu.com.br/getex


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Palavras-chave: Relações Internacionais Extremismos NETEX IERI

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