Pular para o conteúdo principal
Extensão

Um pedaço do Cerrado dentro da escola

Museu de Biodiversidade do Cerrado da UFU aproxima estudantes da fauna e flora do bioma por meio de atividades que unem ciência, contato direto e educação ambiental

Publicado em 11/09/2026 às 10:26 - Atualizado em 11/09/2026 às 14:18

A universidade tem um acervo com vários animais e insetos do bioma para exposição (Foto: Milton Santos)

Um tatu, uma coruja, uma cobra e uma coleção de insetos podem parecer distantes da rotina de uma sala de aula. No Museu de Biodiversidade do Cerrado (MBC), no entanto, esses animais se transformam em instrumentos para uma experiência diferente. É a partir das atividades promovidas pelo MBC que os alunos podem conhecer o bioma a partir do contato direto com aquilo que, muitas vezes, permanece restrito aos livros.

Ligado ao Instituto de Biologia (Inbio) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o Museu de Biodiversidade do Cerrado é considerado o único museu brasileiro dedicado especialmente à biodiversidade do bioma em questão. Atualmente, ele mantém coleções científicas, didáticas e expositivas, que incluem animais taxidermizados, insetos, esqueletos, ninhos, peles de répteis e outros materiais relacionados à biodiversidade. O acervo didático reúne exemplares de mamíferos, aves, répteis e outros grupos, além de materiais relacionados à flora do bioma. 

Hoje o museu não possui uma sede própria, mas transformou a itinerância em uma forma de manter o acervo em contato com a comunidade e continuar aproximando o conhecimento produzido na universidade da sociedade. Segundo o coordenador, Victor Tagliacollo, “ao longo de mais de 25 anos, o museu cresceu, se estruturou e se modernizou. O que começou associado à exposição de animais transformou-se em uma estrutura muito mais ampla de formação, pesquisa, conservação e divulgação científica.

A ausência de um espaço fixo, porém, não interrompeu as atividades do museu. Ao contrário, levou a equipe a ampliar uma proposta que coloca o público no centro da experiência, levando o acervo até as escolas de Uberlândia e região.

 

Do acervo científico à sala de aula

 

O MBC surgiu a partir da iniciativa de pesquisadores do Inbio/UFU interessados em aproximar a população da diversidade de animais e plantas presentes no bioma. Parte desse acervo é formada por animais que chegaram à universidade após morrerem, principalmente em decorrência de atropelamentos, e, posteriormente, foram doados ao museu.

Os exemplares foram submetidos ao processo de taxidermia, técnica de preparação e preservação de animais para fins científicos, didáticos e expositivos. Atualmente, no entanto, o MBC não recebe novos animais para esse tipo de preparação, devido a dificuldades orçamentárias e estruturais. 

Hoje, o acervo reúne coleções científicas, didáticas e expositivas, com animais taxidermizados, insetos, esqueletos, ninhos, peles de répteis e outros materiais relacionados à biodiversidade. Entre os exemplares utilizados nas atividades estão mamíferos, aves, répteis e diferentes grupos de invertebrados, além de materiais relacionados à flora do Cerrado.

 

Animais taxidermizados foram doados a UFU. (Foto: Milton Santos)
Animais taxidermizados foram doados a UFU (Foto: Milton Santos)

Mais do que apresentar espécies, a proposta é utilizar esses materiais como ponto de partida para despertar perguntas. Como esse animal vive? De que se alimenta? Qual é sua relação com o ambiente? O que acontece quando seu habitat é destruído?

Nas escolas, essas perguntas ganham uma dimensão diferente porque os estudantes podem observar de perto os exemplares e, em algumas atividades, tocá-los.

A integrante da equipe do museu, Jenyffer Martins, explica que o contato direto contribui para criar uma relação mais próxima entre as crianças e os animais. “A ideia agora é diferente: as crianças podem tocar. Elas sentem, pegam os animais no colo, tiram fotos e acabam criando um vínculo maior com eles. É um contexto diferente de um museu tradicional, mas é importante para que elas se sintam mais próximas do lugar onde elas vivem.” 

Além das atividades com os animais taxidermizados, o MBC também desenvolve ações culturais e artísticas com os estudantes. Entre as iniciativas estão as contações de histórias a partir do livro  "Os Animais do Cerrado e seus Infinitos", produzido pelos membros do museu, e a produção de máscaras de animais do bioma, utilizadas posteriormente em atividades teatrais e apresentações. As ações são planejadas para integrar diferentes formas de aprendizagem e estimular, de maneira lúdica, a conscientização dos alunos sobre a biodiversidade e a importância da preservação do Cerrado. 

Livro produzido pelo MBC. (Foto: Laís Espósito)
Livro produzido pelo MBC. (Foto: Laís Espósito)
O Cerrado como parte da nossa vida

 

Uberlândia está inserida em uma região de Cerrado, mas a presença do bioma nem sempre é percebida no cotidiano da população. Entre áreas urbanizadas, propriedades rurais e espaços modificados pela ação humana, a paisagem original pode parecer cada vez mais distante.

É justamente por isso que o trabalho de educação ambiental ganha importância. Ao apresentar espécies e discutir suas relações com o ambiente, o MBC procura mostrar que o Cerrado não é uma paisagem abstrata ou distante.

O coordenador Victor Tagliacollo, comenta sobre essa aproximação: “ O papel de um museu de biodiversidade é ajudar a transformar conhecimento em consciência, e consciência em ação. Nós tendemos a proteger aquilo que conhecemos, que compreendemos e com que estabelecemos algum tipo de vínculo. Por isso, acredito que uma das formas mais poderosas de promover a conservação seja proporcionar experiências”. 

 

O Museu de Biodiversidade do Cerrado leva os animais até as escolas. (Foto: Acervo do MBC)
O Museu de Biodiversidade do Cerrado leva os animais até as escolas. (Foto: Acervo do MBC)

A partir dos animais e das plantas apresentados, a intenção é ampliar a percepção ecológica e mostrar que o Cerrado é um ambiente diverso, complexo e diretamente relacionado ao território onde os estudantes vivem. As discussões passam pelas características das espécies, pelas relações entre os organismos e pelo impacto das transformações provocadas pela ação humana.

O bioma também possui uma relação fundamental com a água. Sua vegetação, marcada por raízes que podem alcançar grandes profundidades, participa dos processos de infiltração da água no solo e contribui para a recarga dos lençois freáticos. 

É nesse ponto que a educação ambiental deixa de ser apenas uma conversa sobre animais ameaçados ou preservação de espécies. Ela passa a discutir a relação entre biodiversidade, água, território e vida cotidiana. E é justamente essa dimensão que o MBC procura levar para as escolas.

Para Tagliacollo, o museu transforma animais, plantas e coleções em uma porta de entrada para uma discussão maior sobre o território. “O objetivo não é apenas fazer com que uma criança reconheça uma espécie, mas ajudar ela a compreender que aquela espécie faz parte de uma rede de relações da qual ela também participa.”

 

Universidade e comunidade em movimento

 

A trajetória do MBC evidencia uma das funções da universidade pública que acontece para além dos laboratórios. Levar atividades, conhecimento, e realizar esse tipo de troca é essencial para a extensão universitária. 

O museu articula o tripé: ensino, pesquisa e extensão, ao preservar coleções, produzir conhecimento sobre a biodiversidade e criar formas de compartilhar esse conhecimento com a sociedade.

O estudante que observa um animal taxidermizado não está apenas conhecendo uma espécie. Ele entra em contato com uma parte do trabalho científico desenvolvido na universidade e pode começar a reconhecer a biodiversidade como algo presente no próprio território. 

 

As atividades com as crianças são chamadas de "Museu do Toque". (Foto: Acervo do MBC)
As atividades com as crianças são chamadas de "Museu do Toque". (Foto: Acervo do MBC)

O coordenador ainda comenta sobre o trabalho realizado no MBC: “Se conseguirmos fazer alguém sair de uma atividade do museu olhando para uma árvore, um rio ou um animal do Cerrado com um pouco mais de curiosidade e dizendo “eu não sabia que isso existia”, já teremos criado uma mudança importante. Porque a conservação começa muito antes de uma decisão. Começa quando algo deixa de ser indiferente para nós.”

É uma relação que funciona nos dois sentidos: a universidade compartilha aquilo que produz, mas também encontra na comunidade novas demandas, curiosidades e maneiras de pensar. 

 

Como levar o MBC para sua escola?

 

As escolas interessadas em receber as atividades do Museu de Biodiversidade do Cerrado podem entrar em contato com a equipe por meio do formulário. Para mais informações, acesse o Instagram, ou o Site do museu

As visitas precisam ser agendadas previamente. O transporte utilizado para levar o acervo às instituições é viabilizado pelo Instituto de Biologia da UFU, permitindo que as atividades sejam realizadas em diferentes escolas de Uberlândia e região.

A agenda de setembro já está preenchida e novos atendimentos são organizados para os meses seguintes.

Mais do que transportar um conjunto de animais taxidermizados de um lugar para outro, o MBC transporta perguntas. E, ao entrar em uma sala de aula, transforma aquilo que muitas vezes parece distante em algo que pode ser observado, tocado e, principalmente, compreendido.

 

Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.  

 

Palavras-chave: Museu cerrado Museu de Biodiversidade do Cerrado biodiversidade

A11y