Publicado em 19/10/2026 às 08:36 - Atualizado em 19/10/2026 às 13:17
Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em parceria com a Universidade Federal de Lavras (UFLA), que utiliza um modelo computacional para identificar áreas com potencial de produção de energia elétrica a partir da biomassa florestal, recebeu menção honrosa no 10º Prêmio Serviço Florestal Brasileiro em Estudos de Economia e Mercado Florestal, pelo seu potencial de aplicação no Brasil. A premiação, promovida pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI), busca reconhecer pesquisas voltadas ao uso e à gestão sustentável dos recursos florestais.
“Apesar da hidroeletricidade ser renovável nós estamos num momento de crise climática e também de crise hidrelétrica. Nos regimes de pluviosidade atuais nós não temos condições de repor a água das bacias hidrográficas da maneira como era no passado.
A mudança do clima coloca em risco a nossa produção de energia. Isso nos leva a um caminho de possíveis apagões energéticos, como já tivemos no Brasil uma grande crise hidroelétrica, com apagões em São Paulo, Minas Gerais, e em várias outras regiões. Fruto de uma total dependência da hidroeletricidade[...] O que acontece quando os reservatórios caem?”, comenta o professor Vicente Toledo, integrante do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Planejamento e Manejo da Paisagem Florestal da UFU.
De acordo com o pesquisador, o Brasil recorre a usinas termelétricas, movidas a queima de carvão mineral, para suprir a demanda populacional de energia. Uma vez que a oferta das fontes renováveis de energia solar e eólica não são suficientes para suprir a carência deixada pelas hidroelétricas. Apesar de renováveis, as hidrelétricas produzem impactos socioambientais, visto que a construção de suas usinas necessitam a submersão de áreas florestais, afetando fauna, flora e comunidades próximas, que ficam embaixo d'água.
Segundo o Balanço Energético de 2023, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética, as hidrelétricas são responsáveis por cerca de 62% da geração de energia no país, outras fontes renováveis como solar e eólica correspondem, juntas, a apenas 16,2% da oferta interna. É a partir da perspectiva de que a segurança do abastecimento elétrico depende da
diversificarção das matrizes energéticas, que a pesquisa sobre biomassa vegetal surge como recurso viável e menos poluente, a diferenciando de outras fontes de energia, como a por carvão mineral, que contribui na liberação de combustível fóssil na atmosfera,na mudança climática, temperaturas elevadas e desequilíbrio ambiental. “Nossa rota é pensar a produção da energia elétrica a partir de fontes renováveis” , reforça Toledo.
As termelétricas por cana de açúcar, resíduos de milho, florestal, do café e da cultura são os tipos de biomassa mais conhecidos, e já implementados, no Brasil. O trabalho estimula a geração de biomassa vegetal por meio de florestas plantadas, na qual a vegetação e resíduos dos campos, que virariam lixo, são transformados em energia elétrica.
O território brasileiro possuí cerca de 10 milhões de hectares de florestas de eucalipto e pinus, áreas destinadas principalmente à produção comercial de madeira, papel e celulose, entre outros produtos. A proposta da pesquisa é utilizar os materiais remanescentes dessas atividades para a produção de energia renovável.
“Por que é renovável? À medida que eu uso a madeira do eucalipto para produzir energia elétrica, ao mesmo tempo, a floresta que foi colhida, cresce novamente, ou seja, posso plantar mais floresta ou conduzir tudo aquilo que cresce, captura o carbono da atmosfera e estocando mais gases do efeito estufa. Isso é muito bom.” explica o pesquisador.
Os pesquisadores criaram um modelo computacional matemático para produzir mapas de aptidão agrícola das Terras, que avaliam o potencial de regiões para uso agrícola, nesse caso para medir a viabilidade do plantio de florestas e instauração de usinas termelétricas. A área escolhida para o estudo foi a Bacia do Rio Grande, que integra parte do Triângulo Mineiro e Alto do Paranaíba. , A região conta com geração hidrelétrica e áreas destinadas ao cultivo de eucalipto.
Os mapas consideram fatores como a proximidade de estradas e subestações de energia elétrica, a existência de áreas anteriormente utilizadas para florestas plantadas e a aptidão das terras para atividades agrícolas e silviculturais (consiste no cultivo e no manejo de florestas para finalidades ambientais ou comerciais).
O modelo computacional também permite estimar, em reais e dólares, os custos de instalação das usinas em diferentes localidades, além da extensão de área florestal plantada necessária para viabilizar os empreendimentos. Segundo Vicente, a ideia é atrair investidores para a região e contribuir para a diversificação da matriz elétrica, associando a produção energética à sustentabilidade ambiental:
“Contribuir com a questão do clima, porque é uma energia produzida de forma renovável, porque eu planto, eu colho, eu planto, eu colho e gero energia. Isso é renovável, isso nós podemos fazer por muito tempo. Mantém o solo cultivado, tratado, não degrada os solos e a gente consegue ter uma série de produtos gerados a partir disso, dentre eles a própria energia elétrica.”
De acordo com os levantamentos, que consideraram dez diferentes opções na Bacia, para uma instalação de qualidade, e com menor valor possível, a implementação precisa de pelo menos 25 a 27 mil hectares, custando cerca de 512 milhões de reais brasileiro, equivalente a 103 milhões de dólares.
O pesquisador destaca o interesse de continuar o projeto, expandindo as áreas de estudo e aplicação para outras regiões de Minas Gerais e até outros estados. A expectativa do grupo é que o mercado utilize desse modelo para contribuir não só na diversificação da matriz energética, mas também para estimular a pluralidade agrícola. “Isso estimula toda uma cadeia de mercado,estimula os produtores a diversificarem sua produção. Ao invés de plantar só a soja ou só o café, o produtor pode passar a plantar também os eucaliptos, para diversificar a sua matriz, isso é ótimo ambientalmente falando e aumentaria a renda dos
produtores, porque eles passariam a vender para essas grandes usinas termelétricas para que pudessem produzir energia elétrica.”
O curso de Engenharia Florestal da UFU é sediado no campus de Monte Carmelo, na região do Triângulo Mineiro e Alto do Paranaíba, já as atividades de pós-graduação da Universidade Federal de Lavras (UFLA) acontecem no campus-sede em Lavras, Sul de Minas.
Os pesquisadores recebem o prêmio nos dias 25, 26 e 27 de novembro, em Brasília. “Receberemos o certificado de menção honrosa e apresentaremos o projeto para a sociedade civil, os empresários, e os representantes do Serviço Florestal Brasileiro.”, comenta Toledo.
A parceria entre as universidades foi consolidada a partir da tese de doutorado do professor Lucas Gomide, da UFLA, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Florestal. O trabalho foi incorporado às atividades de pesquisa dos professores Vicente Toledo e Luciano França, da UFU, no Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Planejamento e Manejo da Paisagem Florestal (NUPLAMFOR LAB).
A colaboração permitiu o aperfeiçoamento da pesquisa e a integração de conceitos relacionados à agenda climática e à segurança energética. “Então, é um trabalho de conexão, trabalho em rede. Isso mostra a força do trabalho coletivo, a força do trabalho em rede, que as pesquisas entre instituições têm um grande potencial de receber reconhecimento dos órgãos oficiais do governo brasileiro”, reforça Vicente.
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Palavras-chave: Engenharia Florestal Monte Carmelo Premiação Serviço Florestal Brasileiro
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