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Crônica

Na primeira vez da prova também teve a primeira vez de um 'veterano'

Confira o relato de um jornalista que está completando 10 anos como corredor amador neste ano, prestes a participar da sua quinta maratona, e que provou em Patos de Minas um doce sabor que ainda desconhecia

Publicado em 23/11/2023 às 11:54 - Atualizado em 29/11/2023 às 08:41

Para entender o quão surpreendente foi esta cena e como ela se tornou possível, você vai ter que ler o 'textão' abaixo. (Foto: Adeonn Souza Amaral)

Sabe aquela história do atleta frustrado? Começa pelo futebol, depois tenta a sorte no vôlei, no basquete, no tênis... Como não consegue se destacar positivamente em nenhuma modalidade com bola, apela até para o xadrez. O que não significa que tenha dom, intelecto e capacidade de concentração e esforço suficientes para se dar bem no tabuleiro.

O parágrafo acima resume bem como foi minha trajetória esportiva até 2013, quando eu já havia passado dos 30 anos e tive a primeira experiência com a corrida de rua. Naquela época, já formado como jornalista e de volta à minha cidade natal, eu trabalhava na Assessoria de Comunicação do Campus Rio Verde do Instituto Federal Goiano e fui escalado para competir em duas provas de atletismo no Intercâmbio Socioesportivo do IF Goiano - uma espécie de olimpíada entre os servidores dos diversos campi da instituição. Topei e, para minha grata surpresa, consegui ficar em terceiro lugar tanto nos 100 metros, quanto nos 800 metros.

Pronto! A partir daquele momento, nunca mais deixei de praticar aquele esporte e, aos poucos, fui me desafiando a conquistar novas distâncias, progressivamente maiores: os ´primeiros 5k, 10k, 16k, 21k, 30k... até chegar aos 42.195 metros que compõem o trajeto da mais nobre e tradicional prova do atletismo, a maratona. Em tempo, aproveito a deixa para uma informação de utilidade pública - e que sempre causa surpresa em muitas pessoas: a famosa Corrida Internacional de São Silvestre, evento realizado na capital paulista sempre no último dia de cada ano, não é uma maratona, possuindo um ´percurso de "apenas" 15 quilômetros.  

Mas, voltando a contar sobre o meu currículo de corredor amador, subi ao pódio em pouquíssimas ocasiões; nenhuma delas, no degrau mais alto. O que nunca foi problema para mim, pois o que mais me seduz neste esporte é justamente a possibilidade de conseguir ter a tal sensação de vitória ao ganhar de mim mesmo, conseguindo melhorar meu tempo numa distância ou simplesmente concluindo uma prova com percurso mais longo e/ou difícil. É isso: o que me atrai e motiva a ponto de topar sair da cama quentinha para treinar antes do sol nascer são os desafios aos quais me proponho, de tempos em tempos.

E foi com este espírito que agora, em 2023, cinco anos após ter completado minha quarta e última maratona - por sinal, em meio a um projeto acadêmico super especial que me rendeu um título de mestrado na Universidade Federal de Uberlândia (onde trabalho desde o final de 2015) e um livro-reportagem narrando a fantástica trajetória do ultramaratonista Nilson Lima - decidi que já era hora de voltar a buscar os 42k. Comecei o processo de recondicionamento f´ísico e mental no dia 18 de março e acabo de completar 50 treinos de corrida ao longo da preparação para a Maratona Monumental de Brasília, que vai ocorrer no próximo domingo, 26 de novembro.

Ok! Mas, afinal, o que teria esta história toda a ver com a UFU, a ponto de justificar a postagem de um texto tão longo neste espaço? As respostas começam no próximo parágrafo.

Registro de momentos antes da largada, com destaque para um corredor vestido com roupa e gorro brancos e um carrinho com um paratleta
Corrida de rua é um dos esportes mais democráticos que conheço; presença de 'atletas especiais' é sempre marcante. (Foto: Hermom Dourado)

O último domingo, dia 19, foi a data escolhida pela universidade para a realização da primeira edição da Corrida UFU 5k e 10K Patos de Minas. Com organização por conta das pró-reitorias de Assistência Estudantil (Proae) e de Extensão e Cultura (Proexc), o evento foi aberto à participação tanto de servidores e estudantes da instituição quanto da comunidade em geral. A expectativa era bastante positiva, pois houve inscrições de pessoas de várias cidades da região - mais tarde, eu viria a saber que 65% dos cerca de 350 atletas presentes não tinham vínculo com a UFU.

Como uma das minhas funções na Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU) é providenciar a divulgação e a cobertura de eventos promovidos pelas Unidades Administrativas, o pedido em relação a este, em Patos de Minas, chegou a mim. E logo pensei: já que ele seria justamente a uma semana da corrida em Brasília, num dia em que eu teria que fazer um treino de menor distância, por que não assumir eu mesmo esta missão, inclusive participando da prova?

Na minha mente estava tudo bem claro: a viagem para Patos seria a trabalho, "unindo o útil ao agradável"; sob hipótese alguma, eu poderia me preocupar com performance, pois isso significaria me colocar em risco de adquirir uma lesão às vésperas do meu grande objetivo esportivo do ano.

 

Pé na estrada (e depois pelas ruas)

A saída de Uberlândia ocorreu no auge da madrugada, pouco após as 4h. Eu e mais uns 10 bravos guerreiros - que também iriam correr ou participar da organização do evento - encaramos os cerca de 220 quilômetros de percurso em uma van, sem nenhuma chance de dormir bem, por conta das constantes e inevitáveis trepidações do veículo. 

Chegando ao destino, cada um com as suas preocupações: enquanto alguns colegas se apressavam em arrumar a disposição dos troféus nas mesas montadas em cima do palco, coloquei os trajes de atleta e comecei a produzir as fotos para a cobertura especial do evento, Como não consegui acesso à internet no celular, logo percebi que a ideia de fazer transmissões ao vivo no perfil oficial da UFU no Instagram precisaria ser abortada. O jeito seria tentar caprichar nas fotos. E isso não seria nenhum problema para quem adora estar num ambiente como aquele.

Nem vi o tempo passar. Quando dei por mim, já era o momento da largada da primeira leva de corredores, a turma dos 10k. Sabia que eu tinha cometido um erro grave: não realizei o alongamento nem o aquecimento adequadamente. Mas tudo bem! Eu não estava ali para desafiar o relógio; o importante seria dosar bem as forças e conseguir captar imagens legais para o trabalho que me foi confiado. Sendo bem sincero, eu me sentia um privilegiado, podendo participar de uma grande festa, em meio àquela pequena multidão de homens e mulheres que ali estavam em busca de mais uma manhã feliz, cuidando do bem mais precioso que uma pessoa pode ter: a saúde!

Selfie de Hermom Dourado, sorrindo, momentos antes da largada de uma corrida
A selfie antes da largada é uma cena super comum no universo dos corredores amadores. (Foto: Hermom Dourado)

Como sei que este relato já está ficando grande demais, vou tentar "atalhar" nas palavras de agora em diante. Afinal, nenhum leitor pode ser obrigado a "maratonar" para conseguir ler a íntegra de um texto aqui no Comunica UFU.

Um "detalhe" que ainda não contei fazia toda a diferença para a minha tranquilidade, Eu já comecei essa corrida sabendo que bastaria finalizá-la para poder levar um trofeuzinho de recordação para casa. Explico: apenas outros quatro servidores se inscreveram na categoria da qual eu estava participando, sendo que o pódio de todas as categorias possuía cinco vagas. Pesquisei os nomes dos "colegas/rivais" e constatei que eu poderia tentar competir com dois deles, que eram mais ou menos do mesmo ritmo que eu. Quanto aos outros dois, sinceramente, tive contato com eles pouquíssimas vezes e não sabia em que nível estavam. 

Pois um dos meus "conhecidos" foi justamente quem mais me motivou ao longo do percurso. O Johnson Gonçalves, técnico de laboratório da Faculdade de Engenharia Mecânica (Femec), também está há um bom tempinho no universo running. Gosta de corridas mais longas, assim como eu, mas também fez questão de viajar de Uberlândia a Patos de Minas para a estreia da prova da UFU naquela cidade. Como o percurso teve trechos em que fazíamos retornos em algumas avenidas, passei em sentido oposto a ele algumas vezes. Em todas, o recado era de incentivo: "Você está indo muito bem e está liderando! Basta manter o ritmo, que a vitória é sua!"

Eu ouvia aquilo, agradecia e ria por dentro. "Imagina! Certeza que os outros dois 'caras' já dispararam na frente. Acho que consigo chegar antes dele e o do Giuliano. Terceiro lugar já ótimo!!!", pensava comigo mesmo. E emendava outro raciocínio: "Será que falta muito para o próximo ponto de hidratação?" 

Selfie de Hermom Dourado bebendo um copo d´água durante a prova
Manter uma boa hidratação é um cuidado fundamental que todos os corredores precisam adotar. (Foto: Hermom Dourado)

O Giuliano que eu citei há pouco tem como sobrenomes Gardolinski Venson. Também é lotado na Femec, porém no cargo de docente. Confesso que dei uma stalkeada no perfil dele no Instagram para pesquisar o ritmo dos seus últimos treinos e corridas e fiquei otimista com as perspectivas de cruzar a linha de chegada antes dele. Ao longo do trajeto, percebi que ele vinha uns 300 a 500 metros atrás do Johnson. Ou seja: meu terceiro lugar estava bem encaminhado e eu podia me concentrar nas selfies e fotos dos demais atletas.

Entre eles, avistei a dupla Cl´óvis Rodrigues Nogueira e João Carlos Amaral Meneses. Testemunhar o Cl´óvis correndo e empurrando a cadeira de rodas com tamanha desenvoltura e o João podendo vivenciar aquela atmosfera de uma modalidade esportiva que normalmente depende dos movimentos das pernas me dá a certeza de que ela é, de fato, especial. Ali é impossível se sentir derrotado. Cada um no seu ritmo, na sua realidade, vencendo os próprios limites e se confraternizando jogando conversa fora com "amigos de infância que acabaram de conhecer". Ao final, todos ganhariam uma medalha idêntica para poder guardar de lembrança daquela manhã.

A temperatura mais amena em relação aos dias anteriores me ajudou a cumprir os 10 quilômetros em pouco mais de 52 minutos. Johnson cruzou a linha de chegada menos de 30 segundos depois. Já posicionado sentado ao chão para registrar o momento mais esperado por tantos que ali estavam, pude acompanhar quando o professor Giuliano também finalizou o percurso.

Será que os meus outros dois concorrentes já tinham chegado há muito tempo? Talvez até já haviam tomado um bom banho e colocado uma roupa limpa e cheirosa... O Johnson se encarregou de checar o resultado no site da empresa de cronometragem e me dar a boa nova: "Parab´éeéééns, campeão! Não falei que você ia ganhar?!". Os docentes Laurence Rodrigues do Amaral (Faculdade de Computação - Campus Patos de Minas) e Nilo Cesar Queiroga Silva (Instituto de Ciências Agrárias - Campus Monte Carmelo) terminaram em quarto e quinto lugares, respectivamente.

 

Futuro promissor

Ainda me acostumando com a ideia de subir ao degrau mais alto do pódio - e não escondendo a satisfação pela conquista inesperada -, segui a empreitada de fotografar a entrega das premiações. Por todos os cantos, sorrisos, aplausos, felicidade.

O envolvimento expressivo da população de Patos de Minas e região com o evento passavam a nítida sensação de que nascia ali uma nova tradição. E já me arrisco a fazer uma previsão: numa das próximas edições, um dos troféus de campeão será entregue a João Miguel B. M. Costa.

Este é o nome do caçulinha da corrida. Aos 9 anos de idade, ele conseguiu a façanha de terminar em 66º lugar entre os 84 atletas do sexo masculino participantes da categoria "5K - Comunidade", fechando o trajeto em 30'48". Se a UFU quiser, já lanço aqui a candidatura para fazer mais esta cobertura. O que este trabalho tem de suado tem de gratificante e prazeroso. E no final de contas, agora tenho até um título a defender... 

Encerro esta crônica parabenizando quem conseguiu fazer a sua leitura na íntegra: se você chegou até aqui, está provado que não é uma pessoa preguiçosa; pelo contrário, é resiliente, não desiste fácil! Já pensou em experimentar participar de uma corridinha? Bora comigo?!

 

 

Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.

 





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