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Leia Cientistas

Perfil demográfico dos moradores de favelas e comunidades urbanas de Uberlândia

Moradores dessas áreas enfrentam maior vulnerabilidade socioeconômica e limitações no acesso a serviços públicos essenciais

Publicado em 28/01/2026 às 11:16 - Atualizado em 28/01/2026 às 12:44

O IBGE incorporou o termo “Comunidades Urbanas” para abarcar identificações locacionais mais recentes (foto: Marco Cavalcanti/Arquivo)

A partir de informações divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes ao Censo Demográfico 2022 e disponibilizadas via Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA), este texto [publicado originalmente como Nota Informativa 01-2025 pelo Centro de Estudos, Pesquisas e Projetos Econômico-Sociais da Universidade Federal de Uberlândia]  tem o objetivo de apresentar um breve perfil demográfico dos moradores de Favelas e Comunidades Urbanas de Uberlândia. 

O IBGE, que utilizou o termo “Favelas” nos Censos até 1960 e, a partir de 1991, adotou a denominação “Aglomerados Subnormais”, retomou no Censo Demográfico de 2022 o uso de tal denominação. Além disso, incorporou o termo “Comunidades Urbanas” para abarcar identificações locacionais mais recentes. Essa atualização resultou de uma demanda dos próprios moradores e foi construída em diálogo com movimentos sociais, comunidade acadêmica e órgãos do governo.

Os critérios do IBGE para identificar as Favelas e Comunidades Urbanas são os seguintes:

  • Predominância de domicílios com graus diferenciados de insegurança jurídica da posse; e, pelo menos, um dos demais critérios abaixo: 
  • Ausência ou oferta incompleta e/ou precária de serviços públicos (iluminação elétrica pública e domiciliar, abastecimento de água, esgotamento sanitário, sistemas de drenagem e coleta de lixo regular) por parte das instituições competentes; e/ou 
  • Predomínio de edificações, arruamento e infraestrutura que usualmente são autoproduzidos e/ou se orientam por parâmetros urbanísticos e construtivos distintos dos definidos pelos órgãos públicos; e/ou 
  • Localização em áreas com restrição à ocupação definidas pela legislação ambiental ou urbanística, tais como faixas de domínio de rodovias e ferrovias, linhas de transmissão de energia e áreas protegidas, entre outras; ou em sítios urbanos caracterizados como áreas de risco ambiental (geológico, geomorfológico, climático, hidrológico e de contaminação).

Assim sendo, segundo os dados divulgados do IBGE, o município de Uberlândia possui 31.985 moradores em domicílios particulares permanentes ocupados, distribuídos em 24 Favelas e Comunidades Urbanas. A Tabela 1 apresenta informações municipais, bem como do estado de Minas Gerais e do Brasil para fins comparativos, tanto em termos absolutos (total de moradores) quanto a razão entre a população em Favelas e Comunidades Urbanas pelo total da população. Observa-se que 4,48% da população uberlandense reside em Favelas e Comunidades Urbanas, razão que é maior que a do estado de Minas Gerais, mas menor que a razão nacional.

 

Tabela 1: Total e proporção (%) de moradores de Favelas e Comunidades Urbanas – Brasil, Minas Gerais e Uberlândia (2022)

Brasil, Unidade da Federação e Município

Total de moradores de Favelas e Comunidades Urbanas

Proporção de Moradores de Favelas e Comunidades Urbanas

Brasil

16.274.691

8,01%

Minas Gerais

737.825

3,59%

Uberlândia

31.985

4,48%

Fonte: Censo Demográfico de 2022. Elaboração: CEPES/IERI/UFU.

 

Tabela 2: Ranking de Favelas e Comunidades Urbanas de Uberlândia segundo o número de moradores (2022)

Posição

Favela e Comunidade Urbana

Total de moradores

Integração 

13.136

Glória 

5.344

Maná 

3.198

Fidel Castro 

1.649

Santa Clara 

1.630

Irmã Dulce 

1.621

Nova Renovação 

649

Santo Antônio 

574

Zaire Resende 2)

529

10º

Rua Antônio Carlos Martins Ribeiro 

391

11º

Monte Horebe 

385

12º

Rua Seis 

364

13º

Morada Nova 

358

14º

Lagoinha 

355

15º

Bom Jesus 

324

16º

Carlito Cordeiro 

314

17º

Parque Maravilha II 

260

18º

Panorama 

191

19º

São Pedro 

181

20º

Rua Nilo 

134

21º

Rua Marginal 

124

22º

Esperança III 

99

23º

Pampulha 

96

24º

Manain

79

Total de moradores

31.985

Fonte: Censo Demográfico de 2022. Elaboração: CEPES/IERI/UFU.

 

A Tabela 2, por sua vez, apresenta a listagem de todas as Favelas e Comunidades Urbanas de Uberlândia, organizadas em ordem decrescente de acordo com o número de moradores. A mais populosa é a Integração, com 13.136 habitantes, o que corresponde a mais de 41% da população residente nessas áreas no município; em Minas Gerais, é apontada como a quarta maior favela do estado. Na sequência, destacam-se Glória, com 5.344 moradores, e Maná, com 3.198 moradores. 

Considerando os dados de domicílios particulares permanentemente ocupados, é possível estimar a média de moradores por domicílio em cada Favela e Comunidade Urbana de Uberlândia (Tabela 3). Observa-se que a Nova Renovação apresenta a maior média, com 3,42 moradores por domicílio, indicando que, em geral, vivem entre três e quatro pessoas em cada unidade habitacional dessa área. 

 

Tabela 3: Média de moradores por domicílios particulares permanentemente ocupados nas Favelas e Comunidades Urbanas de Uberlândia (2022)

Favelas e Comunidades Urbanas

Pessoas

Domicílios particulares permanentemente ocupados

Média de moradores por domicílio

Nova Renovação 

649

190

3,42

Rua Antônio Carlos Martins Ribeiro 

391

119

3,29

Rua Nilo 

134

42

3,19

Lagoinha 

355

113

3,14

Irmã Dulce 

1621

517

3,14

São Pedro 

181

58

3,12

Santa Clara 

1630

523

3,12

Esperança III 

99

32

3,09

Glória 

5344

1762

3,03

Carlito Cordeiro 

314

105

2,99

Zaire Resende 2

529

177

2,99

Maná 

3198

1071

2,99

Morada Nova 

358

121

2,96

Rua Marginal 

124

42

2,95

Integração 

13136

4473

2,94

Pampulha 

96

33

2,91

Monte Horebe

385

134

2,87

Santo Antônio 

574

204

2,81

Rua Seis

364

134

2,72

Bom Jesus 

324

120

2,70

Parque Maravilha II 

260

98

2,65

Fidel Castro 

1649

626

2,63

Panorama 

191

74

2,58

Manain 

79

32

2,47

Fonte: Censo Demográfico de 2022. Elaboração: CEPES/IERI/UFU.

 

Para fins de comparação, a média de densidade domiciliar do Brasil no mesmo período é de 2,79 moradores por domicílio (considerando a população total, e não apenas a residente em Favelas e Comunidades Urbanas). Isso sugere que a densidade domiciliar nas Favelas e Comunidades Urbanas de Uberlândia é apenas ligeiramente superior à média, sem indicar, em termos gerais, a presença de superlotação domiciliar.

A análise da população residente em Favelas e Comunidades Urbanas de Uberlândia, segundo cor ou raça, mostra que 25,52% dos moradores se declararam brancos, 17,91% pretos e 56,39% pardos. As proporções de pessoas amarelas (0,08%) e indígenas (0,09%) foram residuais. Considerando o critério do IBGE de agrupamento de pretos e pardos para a conformação da categoria de população negra, observa-se que a ampla maioria dos moradores dessas áreas é formada por pessoas negras, conforme ilustrado no Gráfico 1. 

Isso posto, mais de 74% da população residente em Favelas e Comunidades Urbanas de Uberlândia é composta por pessoas negras. Esse percentual é inferior ao observado em Minas Gerais – onde 78,1% dos moradores dessas áreas se declaram negros –, mas supera a média nacional, de 72,95%. No contexto municipal, o Morada Nova é a Favela com a maior proporção de residentes negros, alcançando mais de 83,5% dos moradores, seguida pela Nova Renovação, com 83,21%.

Gráfico

 

Com base nos dados segmentados por sexo (Gráfico 2), observa-se que a distribuição entre homens e mulheres nas Favelas e Comunidades Urbanas de Uberlândia é bastante equilibrada, não havendo predominância expressiva de um sexo específico nessas áreas. Esse equilíbrio indica um padrão demográfico semelhante ao observado na média do país. Já na análise dos dados desagregados por Favela e Comunidade Urbana, é possível observar algumas particularidades. O Manain apresenta a maior proporção de moradores do sexo masculino, com 63,29%, enquanto o Lagoinha registra a maior participação feminina, com 55,49%.

Gráfico

 

As informações divulgadas pelo IBGE sobre o perfil demográfico das populações de Favelas e Comunidades Urbanas permitem, enfim, a realização de análises por grupos etários. Observa-se, no Gráfico 3, que o grupo de 30 a 39 anos é o mais numeroso em Uberlândia, representando 17,35% da população. Além disso, a análise agregada evidencia uma presença significativa de crianças e adolescentes: a soma das faixas etárias de 0 a 19 anos indica que 34,67% da população dessas áreas é jovem. Por outro lado, a proporção de idosos (pessoas com 60 anos ou mais) é relativamente baixa, representando 8% da população, valor inferior tanto à média estadual (11,78%) quanto à média nacional (10,48%).

Na análise desagregada por Favelas e Comunidades Urbanas, destaca-se a Rua Antônio Carlos Martins Ribeiro, onde quase 43% da população é composta por crianças e adolescentes (até 19 anos). Por outro lado, o Monte Horebe se apresenta como um caso atípico, com uma proporção de idosos significativamente acima da média municipal: 21% da população dessa localidade tem 60 anos ou mais.

Gráfico 3
Gráficos 4 e 5

 

Os Gráficos 4 e 5 apresentam informações sobre os moradores de Favelas e Comunidades Urbanas de Uberlândia a partir do cruzamento entre grupos etários e sexo. De forma geral, não se observa diferença significativa na distribuição entre homens e mulheres nas diferentes faixas etárias, indicando um equilíbrio demográfico relativamente homogêneo entre os sexos ao longo das idades e que está de acordo com o Gráfico 3. 

Em conclusão, o presente texto tem como objetivo apresentar e organizar os dados divulgados até o momento pelo IBGE, referentes ao Censo Demográfico de 2022, sobre as características demográficas da população de Favelas e Comunidades Urbanas de Uberlândia. Considerando que os moradores dessas áreas frequentemente enfrentam maior vulnerabilidade socioeconômica e limitações no acesso a serviços públicos essenciais, análises preliminares como esta podem auxiliar o poder público e demais órgãos competentes a compreender melhor as particularidades dessas populações, contribuindo para o planejamento e a implementação de melhorias na infraestrutura e na qualidade de vida dessas comunidades.

 

*Maria Carolina do Amaral Couto é graduada em Ciências Econômicas, mestre e doutora em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua como pesquisadora no Centro de Estudos, Pesquisas e Projetos Econômico-Sociais (Cepes/Ieri/UFU), com foco em estudos sobre mercado de trabalho e desigualdades de gênero.
 

 

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Palavras-chave: IBGE Moradia CEPES

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