Publicado em 23/02/2026 às 11:34 - Atualizado em 03/03/2026 às 13:10
A contação de histórias sempre esteve presente na vida de Maria Cristina Sagário, hoje com 59 anos e técnica-administrativa da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) desde 2008. Ela é a terceira entrevistada, neste ano, para série Mulheres e Meninas na Ciência, produzida anualmente pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social, a partir do Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, 11 de fevereiro, até março, mês das mulheres.
Enquanto criança, guardava as histórias das cidades onde morava com a família que, pelo trabalho do pai, a cada dois anos estava em um lugar diferente. Já adulta, contava para os filhos as histórias que conhecia quando a luz acabava. No trabalho de antes da UFU, formada em Pedagogia, contava para os alunos da escola da Prefeitura Municipal de Uberlândia, onde atuou na biblioteca escolar e tinha um projeto de contação de histórias.
Doutora em Educação pela Universidade Interamericana do Paraguai (2022), com ênfase em Contações de Histórias, Educação e Cultura, e atualmente fazendo pós-doutorado no Instituto de História (INHIS) da UFU, com o professor Sérgio Paulo Morais como orientador, ela pesquisa a contação de histórias em tempos de inteligência artificial. A pesquisa busca investigar até que ponto a máquina pode substituir a emoção humana. “A narrativa dita por um algoritmo terá o mesmo efeito que a oralidade produz, como, por exemplo, na voz que vibra, pausa, respira?”, problematiza.
Para Sagário, contar histórias nunca foi apenas narrativa, é método, é epistemologia, é forma de compreender o mundo. A contação de histórias, quando entrelaçada pela pesquisa, torna-se ferramenta de análise social, instrumento de memória e construção de identidade. Sagário explica: “A contação de história dentro do curso de História vem como uma proposta de se pesquisar a memória, o que está sendo produzido socialmente enquanto memória, enquanto preservação, nesse diálogo, enquanto oralidade, o que tem passado, as mudanças. É a memória que deve ser preservada. Um povo que não tem memória não tem história e perde seus conhecimentos, perde todo o seu saber, sua cultura.”
Veja a entrevista completa.
Quem foi você antes do Lattes?
Antes de entrar para a universidade, eu trabalhava na Prefeitura, na biblioteca, com crianças. E dentro da biblioteca eu desempenhei também a função de contadora de histórias, para estimular as crianças a buscarem os livros. Tinha um projeto em que cada criança levava um livro para casa e, no final de semana, trazia de volta com um desenho da parte de que mais gostava. Elas contavam a história, distribuíam uma lembrancinha para os colegas. E nesse dia eu contava uma história para elas. Então, eu percebi que contar histórias é importante para as crianças. E eu percebi também que, contando uma história, você consegue trabalhar o cognitivo da criança, pois ali você coloca coisas boas, você coloca até coisas ruins, né? Eu acredito no poder das histórias.
Você gostava de contar história?
Gosto. Eu sou contadora de histórias. Tenho contado no meu Facebook. Eu tenho também, no YouTube, um canal de contação de histórias. Mas não são histórias para criança, são histórias para adulto. Tipo aquela história do vagalume e da cobra, conhece?
[E foi nesse momento que os olhos dela se iluminaram; ela chegou com o corpo para frente para poder me contar.]
Vagalume e a cobra é assim: um dia, o vagalume, acendendo a luz, chamou a atenção da cobra. A cobra começou a correr atrás dele; aonde ele ia, a cobra ia atrás. Até que ele cansou, parou e falou assim: “Não, não! Para aí. Me diz uma coisa, por que você está me perseguindo? Eu não faço parte da sua cadeia alimentar. Eu não estou provocando você, mas você tem uma raiva de mim, você tem um ódio de mim, você quer me pegar, por quê?” Aí a cobra fala assim: “É porque o seu brilho me incomoda”.
Aí esse tipo de história é que eu conto, para refletir, que tem uma moral. Porque a história também tem isso. Cada um pode interpretar a sua versão.
Como era a sua relação com a ciência quando você era criança?
Eu não tive muito contato com a ciência, para ser exata com você. Porque o meu pai trabalhava na Construtora Centro-Oeste (CCO), fazia asfalto, e a cada dois anos a gente estava numa cidade diferente, eu estava numa escola diferente. E era bem pouco estimulado. Consegui me formar no magistério, casei, aí fui ter filho, então não foi muito.
O meu incentivo a querer fazer pesquisa, dar sequência no estudo, foi quando eu entrei para trabalhar na universidade. Eu fiz Pedagogia, mas eu gosto muito do curso de História. Vi no curso de História uma oportunidade de estudar aquilo que eu percebia enquanto estava dentro da biblioteca escolar. Que importância têm as histórias ainda? Será que só eu percebi essa importância? Como é a história no social? Elas ainda têm valor? O que está acontecendo? Tem transformações? Foi só depois que eu entrei, depois de 2008, que eu passei a ter esse interesse.
Quem é você na plataforma Lattes?
Quando eu fui fazer a especialização em Supervisão Escolar na universidade, fiz um artigo sobre contação de histórias. Aí gostei. Fui fazer o mestrado no curso de História e ali trabalhei com contadores de histórias profissionais aqui na cidade de Uberlândia. Encontrei alguns grupos que trabalhavam com contações de histórias e pessoas que desenvolviam esse trabalho e que estavam se profissionalizando nisso. E aí, qual foi a conclusão? Contar histórias é prática cultural, pedagógica e cognitiva e tem passado por algumas transformações. Então, ao se profissionalizar, passou a incorporar recursos teatrais, figurinos, colocam ali um instrumento, uma fantasia… E também a contar com políticas de financiamento, como a Lei Rouanet.
Chegando ao doutorado, pesquisei as contações de histórias enquanto recurso didático no século XXI. Se, para as crianças de hoje, ouvir uma história ainda faz sentido. Elas têm contato com computadores, celulares, tudo aquilo que prende a atenção delas. E, com essa mudança, com a interferência desses meios de comunicação, a contação de histórias – que é uma tradição ancestral – teria o mesmo sentido para as crianças? E aí o que eu concluí, na tese, é que ainda tem muita gente direcionando as contações históricas à educação. Ela ainda é um recurso didático. Não se perdeu, adaptou-se.
E agora, no pós-doutorado, comecei em janeiro, estou no início da pesquisa, são as contações de histórias em tempo de inteligência artificial. Como as pessoas recebem essas histórias? Para você contar uma história, tem que ter uma emoção. A máquina vai conseguir reproduzir essa indução? A máquina vai conseguir substituir uma pessoa em uma contação de história? Vai ter o mesmo efeito?
Enfim, minha vida no Lattes está nas produções realizadas durante as pós-graduações.
Como foi sua experiência sendo técnica-administrativa e pesquisadora na UFU, conciliando as funções?
Sempre tive o apoio da Biblioteca, eles sempre me apoiaram. Peguei as licenças que tinha que pegar. Sempre tive liberação, não tenho o que reclamar. Em outros setores talvez não tivesse tanta liberação quanto tive aqui. Atualmente, o pós-doc não está sendo difícil, porque os filhos estão todos casados. Então, só estou eu e meu marido em casa.
Mas nem sempre foi assim. E é engraçado, porque fui uma mulher separada e criei meus três filhos. E teve uma época em que a gente passou muita dificuldade, muita. Eu ganhava pouco, trabalhava na Prefeitura, era professora, e teve dias de cortarem a nossa luz. E os meus filhos sentavam assim e, na hora que cortava a luz, eu ligava a vela e ia contar a história para eles e contava até a hora de dormir.
Um dia a gente viajou para Nova Viçosa (BA) e a luz acabou. Os meus tios estavam e começaram a contar histórias. E nós acendemos uma vela, ficou todo mundo sentado ali, ouvindo. Aí, de repente, a luz voltou, alguém ligou a luz. Quando ligou a luz, o meu filho (ela sorri em um misto de saudade e afetividade) falou assim: “Não, não, não acende a luz. Eu tô achando tão bom aqui, eu estou lembrando de quando cortava a luz da gente”. Não é de rir, lembrar de uma coisa ruim dessa. Mas para criança era uma coisa boa. Eu achei graça, sabe?
Como sua história se encontrou com a do Sindicato dos Trabalhadores Técnico – Administrativos em Instituições Federais de Ensino Superior de Uberlândia (SINTET-UFU)?
Minha história com o sindicato é outra história. Porque eu fui criada como Testemunha de Jeová. Testemunhas de Jeová não mexem com política, nada, nada de política. Mas eu fui morar em Ituiutaba (MG); minha posse, quando aconteceu, eu tive que morar em Ituiutaba. Trabalhar como secretária do curso de História. Antes disso, eu trabalhei no Controle Acadêmico. Na minha frente sentava o Mário Júnior, que hoje em dia está no sindicato. Nós trocávamos muita ideia sobre coisas do sindicato. Quando eu mudei para cá, para Uberlândia, o Mário me chamou para compor chapa junto com ele e eu aceitei. Em 2016 comecei a participar também dos congressos da Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil (Fasubra); era uma movimentação, era bandeira, era batuque… Eu gostava daquilo, me chamava a atenção. Com incentivo dele, eu entrei para representar os técnicos administrativos nos Conselhos Superiores da UFU. Eu já passei por todos os conselhos, já estou voltando.
Quais barreiras você percebe que as mulheres enfrentam no mundo da ciência e sindical?
Sendo muito sincera com você, eu acho que ainda tem que ter muita evolução. Ainda é um campo que tem muito preconceito com mulheres. Você começa a falar, um homem toma a sua fala ou desconsidera as coisas que você está falando e depois reproduz como se a ideia fosse dele. Tem tudo isso, sabe? Precisamos de incentivo. Incentivo institucional para que mais pesquisadoras e mulheres ocupem os espaços.
Falta. Falta. Eu tenho essas pesquisas e sou pouco reconhecida enquanto pesquisadora; até por isso você acaba voltando para o seu mundinho. Você termina ali e aquilo é uma pesquisa que você fez, que vai ficar registrada dentro de um Lattes… Mas, com relação a esse conhecimento, não vejo que teve espaço para divulgar. Parece que a mulher e o conhecimento que ela produz não têm tanto valor.
Quem é você além do Lattes?
Amo minha família, meus netos, meu esposo, meus filhos. Eu gosto de contar história, de fotografia, de ouvir músicas, gosto muito de música. Vejo história nas músicas. Amo viajar, registro as viagens que eu faço, compartilho as viagens, eu estou sempre viajando. Chegando lá, você vê outra cultura, você vê outras pessoas, você vê outros lugares, outro tipo de comida. E eu vou daqui até lá ouvindo música.
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Palavras-chave: Série Mulheres e Meninas na Ciência Mulheres e Meninas na Ciência Série Mulheres e Meninas na Ciência
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