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Institucional

‘A Eva atleta aprende muitas lições com a Eva professora. E vice-versa!’

No ‘Mês da Mulher’, a série ‘UFU em Pessoas’ apresenta uma das primeiras docentes do Campus Pontal. Conciliando a vida acadêmica com a rotina pesada de treinamentos de uma corredora amadora de sucesso, ela está prestes a estrear na Maratona de Boston 

Publicado em 25/03/2026 às 15:16 - Atualizado em 26/03/2026 às 16:02

Foto: Milton Santos / Arte: Divisão de Design e Publicidade da Diretoria de Comunicação Social da UFU

 

Ituiutaba (MG), quatro horas da madrugada de algum dia qualquer. O sol ainda nem despontou no horizonte e lá está ela, acompanhada pelo marido/treinador/fiel escudeiro, Neirom Figueiredo, dando início a mais uma sessão de treinamento de corrida. São 15, 22, 30 ou até mesmo algo próximo aos 40 quilômetros de percurso para cumprir à risca a programação de uma planilha elaborada visando conseguir concluir no tempo almejado a prova-alvo da vez. Fazer contas mentais durante o trajeto, por sinal, não é nenhum sacrifício para alguém que possui graduação (com licenciatura e bacharelado), mestrado e doutorado em Matemática.

“Sonhar”, “planejar”, “batalhar” e “conquistar” são verbos que Evaneide Alves Carneiro sempre busca conjugar na primeira pessoa do singular. Como singular é a sua jornada de vida, iniciada em 19 de junho de 1981, em Jaguaribe (CE).  Foi a sétima dos nove filhos do casal formado pelo pedreiro e fabricador de pré-moldados Edmundo Carneiro Silva e a merendeira Raimunda Alves da Silva. “Minha mãe faleceu em 2023, aos 77 anos, e meu pai está com 80 anos e ainda mora em Jaguaribe. Quanto aos irmãos, perdi uma irmã em 2017, a Maria Evanúbia, vítima de câncer. Curiosidade: meus pais eram católicos e colocaram ‘Maria’ e ‘José’ como prenome de todos os meus irmãos mais velhos; antes do meu nascimento, eles se tornaram evangélicos e, então, abandonaram essa tradição”, conta Evaneide. A propósito, a personagem desta reportagem especial será citada pelo apelido, que é como ela é mais conhecida: “Eva”.

Da infância simples, guarda muitas recordações de vivências com os pais. A mãe se tornou uma grande inspiração, provando toda força que uma mulher pode ter: “Uma lembrança muito marcante que tenho é que a minha mãe sempre trabalhou fora, o que na época (começo dos anos 80) não era comum no interior do Ceará. Falo que ela foi a primeira feminista que encontrei na vida, apesar de provavelmente nem ter conhecido essa palavra.” Já o genitor acabou sendo fundamental no desabrochar do encanto dela pelo mundo dos números: “Outra memória forte é a do meu pai fazendo contas em uma pequena caderneta que carregava no bolso, por causa da profissão. Eu era muito curiosa em relação àquilo. Em determinado momento, pedi que ele me ensinasse, e achava fascinante conseguir fazer aquelas somas.”

 

Foto de Eva, ao lado dos pais, Raimunda e Edmundo
Registro do último encontro com a mãe, no Ceará, em julho de 2023. Ela faleceu poucos meses depois, aos 77 anos de idade. (Foto: arquivo pessoal)

 

Sempre gostou de números; e com as letras não foi diferente. A vocação para a carreira docente se mostrava cada vez mais, até mesmo nas brincadeiras favoritas de Eva. “Aprendi a ler muito cedo. As pessoas na rua pediam que eu lesse placas e pequenos textos e ficavam impressionadas ao ver uma criança tão pequena já alfabetizada. Minha mãe contava que eu gostava de brincar de dar aula desde muito cedo. Eu montava a sala de aula com as cadeiras e, por vezes, ficava sozinha brincando de ser a professora. Já um pouco crescida, sempre fui a aluna que, fora da sala de aula, ‘explicava’ a matéria para os colegas que não prestavam tanta atenção no conteúdo ministrado. Meus primeiros troféus foram de ‘aluna destaque’ na escola!”, revela, com orgulho.

Concluiu o ensino médio na cidade natal, aos 16 anos, e mudou-se para São Paulo, onde trabalhou por dois anos como auxiliar de escritório. A próxima troca de cidade foi para o interior paulista, onde teve início a trajetória acadêmica. “Cursei a graduação em Matemática na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), de 2000 a 2003. No começo de 2004, fui morar em Recife, para fazer mestrado e trabalhar como docente substituta na UFPE. Foi lá que comecei o doutorado, em 2006, porém interrompi o curso para prestar o concurso de ‘uma certa universidade’ em Minas Gerais...”, brinca.

 

Uma das pioneiras

O próximo mês de setembro vai marcar o vigésimo aniversário da chegada de Eva Carneiro ao então longínquo e desconhecido município de Ituiutaba. “Fui da primeira turma de professores do Campus Pontal da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Brinco com os meus alunos que tenho plaquinha de rua com meu nome no campus”, comenta.

Dentre estes quase 20 anos de serviços prestados à instituição, obteve a licença para recomeçar o doutorado na UFSCar, entre os anos de 2010 e 2014, tendo defendido a tese em 2015. Estima já ter orientado mais de 25 estudantes da UFU, nas atividades de Trabalho de Conclusão de Curso, Iniciação Científica, Iniciação Científica Júnior e no Programa de Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT)

Desde o final de 2022, atua como tutora do Programa de Educação Tutorial do Curso de Matemática do Campus Pontal (PET Matemática Pontal). “A tutoria demanda diversas atividades semanais, que concilio com as disciplinas que ministro e com projetos de pesquisa”, explica.

 

Montagem com três fotos de atividades com estudantes do PET Matemática Pontal
Atividades com os membros do PET Matemática Pontal complementam o aprendizado de sala de aula. / Fotos: reprodução Instagram (@petmatpontal)
 
Correria paralela

Mesmo com uma rotina intensa de trabalho no Campus Pontal, Eva ainda consegue dedicar várias horas do dia cuidando da saúde do corpo e da mente com uma atividade física que se transformou num verdadeiro estilo de vida: a corrida de rua. É atleta amadora, porém com resultados expressivos e que renderam a ela uma conquista para poucos: o índice para participação na mais icônica e antiga prova anual de 42 quilômetros do mundo, a Maratona de Boston (Estados Unidos) – evento cuja edição de estreia ocorreu em 1897, apenas um ano após a primeira maratona olímpica da história, em Atenas (Grécia).

Segundo a professora, tirando as aulas de Educação Física, antes de começar a correr, ela nunca havia praticado nenhum esporte regularmente, mas sempre foi uma pessoa ativa. “Eu pedalava, fazia musculação, caminhadas, aproveitava as aulas gratuitas oferecidas pelo pessoal do curso de Educação Física durante a graduação, etc.” Em 2015, veio a participação na primeira prova de 5km, com tempo de 33m24s. Desde então, nunca mais parou e as conquistas começaram. “Na versão 2016 daquela mesma prova, conquistei o primeiro troféu: correndo os 5km em 30m44s, obtive o terceiro lugar na categoria, o que muito me motivou a continuar. Corri várias provas de 5 km (que era a quilometragem da maioria das provas em Ituiutaba e região) e algumas de 10 km”, conta.

A coragem para enfrentar o medo das longas distâncias veio em 2023, o ano do 42º aniversário. Entretanto, por questões pessoais – como a perda da mãe –, o projeto de correr pela primeira vez uma maratona teve que ser adiado para o ano seguinte. “Consegui concretizá-lo na Maratona de Buenos Aires, terminando os 42.195 metros com o tempo de 3h34m54s”, informa. Isso significa que o percurso foi cumprido com uma velocidade média de 11,77 km/h. Passando para o “corridês”, fez um pace médio aproximado de 5’06’’/km.

Tantos números, em meio à sensação de realização pessoal que só entende quem cruza a linha de chegada de um desafio tão longo e difícil, fizeram com que a docente do Campus Pontal resumisse assim o que aconteceu com ela: “Eu me apaixonei perdidamente por tudo que envolve o ciclo de maratona”.

E haja disposição e transpiração! A rotina de treinamentos para a uma prova com percurso tão extenso é pesada. Elaborada pela treinadora e atleta de alto rendimento Dione D'Agostini Chillemi, a planilha estipula a necessidade de corridas em seis dos sete dias da semana. Não raro, a distância acumulada em uma semana é superior a 100 km. Além disso, faz trabalho em academia para fortalecimento muscular cinco vezes na semana e pilates de duas a três vezes.

A estratégia muda conforme o próximo objetivo almejado. “Quanto às provas, costumamos escolher uma prova alvo por semestre e, caso seja possível, incluímos provas de distâncias menores na preparação. A prova alvo é escolhida para ser em período de férias, de modo a possibilitar que aproveitemos um pouco do lugar após a linha de chegada. Afinal, depois de vários meses de renúncias e sacrifícios e, após correr 42km, merecemos uma recompensa das boas!”, argumenta Eva.

 

Eva exibe o troféu conquistado na Maratona Monumental de Brasília
Professora do Campus Pontal exibe o troféu conquistado na Maratona Monumental de Brasília, em novembro de 2025. (Foto: arquivo pessoal)

 

E as recompensas também estão chegando em forma de troféus. Nas três maratonas de que a docente/atleta participou no ano passado, ela terminou subindo ao pódio:

  • 04/05/2025 – Maratón de Montevideo, no Uruguai: tempo final de 3h18m43s, ficando no 2º lugar na categoria “Feminino – 40 a 44 anos” e em 9º lugar na classificação geral feminina;
  • 31/08/2025 – Maratón Internacional de Assunción, no Paraguai: tempo final de 3h12m43s (recorde pessoal), ficando no 5º lugar na classificação geral feminina;
  • 23/11/2025 – Maratona Monumental de Brasília: tempo final de 3h17m, ficando em 5º lugar na classificação geral.

O “Top 5” na capital federal teve um sabor ainda mais especial, devido ao fato de que Eva foi a única ocupante do pódio a não ter largado no pelotão de elite. Motivação extra para encarar um desafio ainda maior em breve: a Maratona de Boston – já citada nesta reportagem – vai ocorrer daqui a menos de um mês, no próximo dia 20 de abril. “A realização desse sonho está se aproximando; e o frio na barriga, aumentando. É uma corrida que todo maratonista quer ter no ‘currículo’, mas o direito à inscrição depende da obtenção de um índice que varia conforme o sexo e a faixa etária. No meu caso, era necessário já ter concluído uma prova oficial de 42km em cerca de 3h30m – considerando o índice normal da categoria para mulheres de 40 a 44 anos (3h35m) e um corte de mais 4´'34” ocorrido por conta das marcas da quantidade máxima de inscritas permitida nessa categoria”, explica, já de olho nas próximas metas a buscar: “Uma das coisas mais bonitas da maratona é que ‘sempre há um novo sonho a ser sonhado’.

Quem também embarca para os Estados Unidos é o maridão orgulhoso, a quem a professora do Campus Pontal faz questão de registrar toda sua gratidão. E de compartilhar os méritos pelo desempenho como atleta: “O Neirom é meu principal parceiro e incentivador. Ele é meu treinador na academia e também me acompanha em praticamente todos os treinos de corrida, levando água, suplementos, fotografando, trazendo segurança etc. Seria muito difícil manter o meu atual nível de treinamento sem esse apoio.”

 

Montagem com duas fotos de Eva e o marido, Neirom Figueiredo; à esquerda, ele a auxilia em um exercício de academia; à direita, eles posam, abraçados e sorrindo
Eva e Neirom: parceria de sucesso no esporte e no amor. (Fotos: Milton Santos)

Perguntada sobre de que forma consegue conciliar as atividades esportivas com as demais – na universidade, domésticas etc –, as palavras que resumem a resposta são “planejamento” e “renúncia”. Ela comenta que precisa planejar com boa antecedência a programação de cada dia, além de abrir mão de várias coisas “normais”, como eventos sociais e saídas para jantares ou outras opções de lazer, por exemplo. Nos dias em que não leciona no período noturno, muitas vezes dorme bastante cedo (por volta das 20h30). Uma ótima pedida para quem vai começar o dia seguinte às 4 da madrugada, cumprindo uma nova sessão de treinamento.

 

Aprendizados contantes

“O foco que a preparação para uma maratona desenvolve na pessoa é algo surreal. Quando tenho a oportunidade, sempre falo que ‘o ciclo de maratona muda o seu corpo, mas o que ele faz na sua mente é incrível’. Nós nos tornamos mais fortes, resilientes e estratégicos, habilidades que impactam diretamente a vida profissional”, relata Eva.

Mas, afinal, o que a atleta tem a ver com a docente? O que “estas pessoas” têm em comum? Como e/ou em quê uma das facetas “ajuda” a outra?

A resposta vem no sentido de que a operação matemática em questão é a soma: “Ambas aprenderam lições com a outra. A Eva atleta aprendeu com a professora a estudar percursos, clima, possibilidades, fazer várias contas durante o treino e, principalmente, durante as provas. Já a Eva professora aprendeu com a atleta a ser mais organizada, resiliente e a se preocupar menos com aquilo que não pode ser controlado.”

Os músculos e o condicionamento cardiorrespiratório precisam estar 100% para o bom desempenho nas corridas. Entretanto, a força mais importante, na opinião da maratonista, é a mental. Por conta disso, uma estratégia da qual ela nunca abre mão durante as provas é a conversa constante consigo própria, repetindo alguns lemas e mantras. “Na linha de largada da maratona, sempre repito para mim mesma que ali é apenas a cereja do bolo, que o principal já foi feito e que devo confiar no treinamento. Costumo relembrar os treinos mais difíceis do ciclo para me convencer do quanto sou forte! Também brinco comigo, naquela hora que começa a doer tudo (após o km 30) que o sofrimento é passageiro, mas as fotos na rede social são para sempre!!!”, narra.

O fascínio por este esporte tomou tamanha proporção, que agora até algumas das leituras escolhidas para os momentos em que as pernas ganham o merecido descanso possuem como temática central o universo da corrida. “Tenho lido alguns destes livros, intercalando com os clássicos, que eu amo, e alguns livros de autoras contemporâneas. Os últimos livros lidos foram ‘Boston: a mais longa das maratonas’, de Sérgio Xavier Filho; ‘Correr’, de Drauzio Varela; ‘Carta ao pai’, de Franz Kafka; ‘O dia escuro’, de Fabiane Secches; ‘A morte de Ilan Ilitch’, de Liev Tolstói; ‘O médico e o monstro’, de Robert Louis Stevenson. As leituras atuais são: ‘Anna Karênina’, de Liev Tolstói; ‘Montevideanos’, de Mario Benedetti; e ‘No caminho eu conto – a trajetória que transformou Nilson Lima em homem-maratona’, de Hermom Dourado.” (Nota do autor: aproveito a deixa/referência para esclarecer que eu também sou corredor de longas distâncias, mas nunca consegui fazer uma maratona em menos de 4 horas; o livro-reportagem sobre o corredor amador mais conhecido de Uberlândia – e que é homenageado emprestando seu nome à maratona da cidade – foi publicado em 2019, como fruto do meu projeto de mestrado pela UFU)

 

Sexo forte

Para finalizar este texto, pegando carona no “Mês das Mulheres” foi solicitado que Eva Carneiro falasse um pouco sobre os desafios que ser do sexo feminino a impõem no dia a dia profissional e também como corredora de rua. Confira a íntegra do depoimento:

“A questão de gênero atravessa tanto minha atuação como docente, quanto como atleta. Na Matemática, desenvolvemos projetos que incentivam meninas a ingressarem nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), ainda muitas vezes vistas como masculinas. Atualmente, no Campus Pontal, um grupo de oito professoras de Matemática e Física colabora em iniciativas nessa direção.

Como atleta, percebo que ser mulher adiciona desafios à rotina de treinos, especialmente quando é necessário treinar na madrugada ou em locais pouco seguros. Sem apoio, isso se torna quase inviável.

Felizmente, cada vez mais mulheres ocupam esses espaços. Espero que caminhemos para uma sociedade em que meninas e mulheres possam escolher livremente sua profissão, seus esportes e seus horários, com segurança e apoio.

Todos somos responsáveis pelas mudanças que desejamos ver. Apoiar mulheres e meninas em seus sonhos é parte fundamental desse processo!”

 

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Palavras-chave: UFU em Pessoas Campus Pontal Corrida de Rua Maratona Matemática docente professora Eva Carneiro

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