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Mercado de Trabalho

Paradoxo da Inovação: Uberlândia cresce como polo tecnológico, mas mulheres ficam de fora das "profissões do futuro"

Estudo inédito do CEPES/UFU revela que áreas de inteligência artificial e desenvolvimento de software na cidade são dominadas por homens, enquanto trabalhadoras se concentram em empregos ameaçados pela automação

Publicado em 16/03/2026 às 12:11 - Atualizado em 16/03/2026 às 12:26

"Mulheres nas profissões do futuro" apresenta dados do mercado de trabalho e analisa a participação feminina (Imagem: Cristiano Alvarenga / Canva)

 

Uberlândia tem consolidado sua posição como um dos principais pólos de inovação e tecnologia do interior do Brasil, atraindo investimentos, startups e gigantes do setor. No entanto, o futuro que está sendo construído na cidade apresenta uma profunda falha de representatividade. É o que aponta o estudo especial "Mulheres nas Profissões do Futuro: Um Desafio para Uberlândia", publicado pelo Observatório do Trabalho do Centro de Estudos, Pesquisas e Projetos Econômico-Sociais (CEPES/UFU).

A pesquisa, elaborada a partir do cruzamento de dados oficiais do Governo Federal (RAIS) com as projeções do Fórum Econômico Mundial (WEF) para 2025, traça um panorama preocupante. Enquanto o município avança na digitalização, as mulheres uberlandenses não estão ocupando as cadeiras que lideram essa transformação.

Porta fechada da tecnologia

As "profissões do futuro" – aquelas que exigem habilidades digitais, analíticas e criativas, com altas taxas de crescimento e remuneração – são espaços onde a presença feminina é exceção. Segundo os dados levantados pelo CEPES/UFU referentes a 2024, as mulheres representam apenas 12,5% dos Analistas e Cientistas de Dados e escassos 6,7% dos Engenheiros de FinTech.

O documento é categórico ao apontar que o crescimento do setor não tem significado maior inclusão. “As profissões ligadas à tecnologia e IA são fortemente dominadas por homens. (...) Isso significa que, em áreas promissoras e com maior potencial de crescimento, as mulheres estão sub-representadas e, em alguns casos, essa lacuna não parece estar se reduzindo, mas ao contrário." 

abismo tecnologico

A situação se mostra ainda mais alarmante quando se observa a linha do tempo de ocupações com alto volume de contratação. Na área de "Desenvolvedores de Software e Aplicações", a participação feminina, que já era baixa em 2022 (18,1%), sofreu uma retração nos anos seguintes, estacionando em 15,7% em 2024.

Na mira da automação

Se as mulheres estão fora das áreas de inovação, onde elas estão concentradas? A força de trabalho feminina local atua, majoritariamente, em atividades administrativas, de atendimento e rotineiras.

Essas são justamente as ocupações classificadas pelo Fórum Econômico Mundial como "em declínio", ou seja, aquelas com maior risco de serem substituídas pela Inteligência Artificial e pela automação a curto prazo. Em Uberlândia, as mulheres compõem 89,4% dos Caixas e Bilheteiros, 71,4% do setor de Telemarketing e 70,4% dos Secretários Jurídicos. "As mulheres em Uberlândia estão fortemente concentradas em ocupações que estão em declínio. Essas profissões envolvem tarefas mais rotineiras e repetitivas e, portanto, estão mais suscetíveis à automação e à digitalização”, cita o documento.

Ameaça Automacao

O levantamento lança um alerta específico para a economia da cidade: por abrigar grandes operações de telemarketing e serviços, o município pode enfrentar uma onda de vulnerabilidade social e desemprego feminino caso medidas de requalificação não sejam adotadas rapidamente.

As raízes do problema e caminhos para solucão

O estudo da UFU também joga luz sobre as causas estruturais dessa desigualdade. O fenômeno da "divisão sexual do trabalho" continua ditando as regras do mercado. Nas ocupações que mais crescem em volume absoluto de vagas, as mulheres seguem dominando os setores historicamente associados à "economia do cuidado", como Serviço Social (93,5%), Enfermagem (82%) e Cuidadores Pessoais (72,7%).

Segundo o estudo, essa dinâmica não é um acaso do mercado, mas o reflexo de uma construção social que se inicia nos primeiros anos de vida. "Desde a infância, meninas e meninos são incentivados a seguir caminhos diferentes. Meninas são direcionadas para áreas consideradas 'femininas' e ligadas ao cuidado de outras pessoas, como enfermagem ou pedagogia, enquanto meninos são encorajados a seguir carreiras mais técnicas em engenharia ou tecnologia. Tais estereótipos limitam as escolhas e perpetuam a desigualdade."

Para reverter esse quadro, os pesquisadores propõem uma força-tarefa que envolve o poder público, a academia e o setor privado. As principais recomendações incluem o incentivo de meninas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) desde o ensino básico, a criação de políticas de incentivo para empresas que contratem mulheres em tecnologia, além de programas urgentes de requalificação profissional para aquelas que ocupam postos de trabalho ameaçados.

Sobre a pesquisa

O documento "Mulheres nas Profissões do Futuro: Um Desafio para Uberlândia" é uma elaboração do Observatório do Trabalho, vinculado ao CEPES e ao Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (IERI/UFU).

Os dados baseados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS/MTE) e projeções do The Future of Jobs Report 2025 (Fórum Econômico Mundial).

 

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Palavras-chave: Mulheres mercado de trabalho inteligência artificial automação CEPES

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