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Pioneirismo

UFU inclui compositoras na Certificação em Habilidades Específicas exigida para ingresso no curso de Música

Movimento para inclusão de obras compostas por mulheres no exame foi encabeçado por uma estudante da formação específica em Música Popular. Ela formulou um abaixo-assinado que contou com amplo apoio na comunidade acadêmica do Instituto de Artes

Publicado em 30/03/2026 às 15:49 - Atualizado em 30/03/2026 às 16:17

Acima, Rita Lee e Joyce Moreno; abaixo, Chiquinha Gonzaga e Dona Ivone Lara. (Montagem com imagens de domínio público)

 

Estamos em meados de 2026, mas ainda há muito a ser conquistado pelas mulheres na sociedade brasileira. No ambiente universitário esta realidade não é diferente, de modo que os esforços para modificá-la precisam se dar em várias frentes. A Universidade Federal de Uberlândia (UFU) acaba de dar mais um passo em prol da busca de equidade e equiparação de gêneros: a inclusão de obras compostas por mulheres no conteúdo das provas para Certificação em Habilidades Específicas (CHE) que é exigida para ingresso em Música Popular – um dos percursos de formação específica possíveis no curso de graduação em Música da UFU.

Artista, cantora, mãe, empreendedora e acadêmica do 8º período de Música Popular, Adriana Regina Francisco foi a idealizadora da iniciativa, que culminou em um abaixo-assinado entregue ao Colegiado do Curso de Música e por ele aprovado. Ela define esta como “uma grande vitória de todas as mulheres deste curso e desta instituição”. E relata: “O movimento feito por mim teve a aceitação de muitas e muitos da Música, incluindo demais cursos do Instituto de Artes em 2023; em 2024, foi aprovado pelo Colegiado e, em 2025, foram incluídos os nomes das compositoras Rita Lee, Dona Ivone Lara e Joyce Moreno na lista da CHE de Música Popular e de Chiquinha Gonzaga na de Música Erudita.”

Adriana comenta que, neste espaço de poder que é a prova de ingresso para o curso superior de Música, até então havia na lista de exigência musical obras de homens muito admiráveis, porém nenhuma mulher. “Com essa conquista, a UFU se tornou pioneira neste quesito, elevando o nível de exigências capacitivas de todas e todos que se candidatam ao ingresso no curso para além da técnica nos instrumentos musicais; mas, sobretudo, dando visibilidade a mulheres da Música Popular Brasileira que se destacam no cenário sociocultural musical desde o início do século XX, tendo sido elas apagadas pelo sistema patriarcal e machista que empobrece a cidadania e a valorização não só das mulheres, mas do ser humano”, argumenta.

Finalizando, a graduanda ressalta que esta é uma excelente notícia de valorização das mulheres na música brasileira: “Estamos colocando a UFU e o seu curso de Música Popular no lugar de pioneirismo no Brasil entre as universidades federais e estaduais na iniciativa da inclusão dos nomes de mulheres e suas composições musicais na CHE. Em conclusão, estamos muito felizes em saber que, de 2025 em diante, todos os candidatos e candidatas que pretenderem uma vaga neste curso conhecerão a competência de mulheres que engrandecem a cultura popular brasileira.”

 

Palavra das docentes

Professora Titular do Instituto de Artes (Iarte/UFU) desde 1986, atuando nas áreas de Música de Câmara e em disciplinas relacionadas ao instrumento violão, Sandra Mara Alfonso relata que o percurso de Música Popular começou a ser ofertado no curso de Música no segundo semestre letivo de 2018, após uma luta de aproximadamente duas décadas. “Já foi uma grande conquista; e é óbvio que as mulheres musicistas não poderiam ficar de fora. Nós tínhamos o dever de valorizar todo esse trabalho realizado pelas compositoras. Podemos falar que estamos fazendo uma espécie de reparação histórica, ao incluir as obras delas no exame da Certificação de Habilidade Específica”, opina.

Ainda de acordo com ela, a aceitação do movimento encabeçado pela discente Adriana Regina Francisco foi muito positiva na comunidade do Iarte. Tanto docentes, quanto técnicos e estudantes abraçaram a proposta e, inclusive, expandiram-na: “Isso foi muito legal. Nós sempre buscamos o equilíbrio entre compositores e compositoras e a solicitação de incluir compositoras mulheres na CHE para Música Popular influenciou nos outros perfis, de modo que todos os demais perfis também incluíram a opção de obras de mulheres nas suas CHEs.”

Atual coordenadora do curso, Jaqueline Soares Marques diz acreditar que o passo dado pela UFU pode servir como exemplo e expandir esse movimento para outras instituições do país. “A ideia é essa, de lançar a semente aqui e expandi-la, levando essa proposta para que outras mulheres também sejam reconhecidas na música em outras universidades”, resume.

Para reforçar a importância deste tipo de ação, a professora cita uma pesquisa recente lançada pela União Brasileira de Compositores (UBC) e divulgada pelo Billboard Brasil, evidenciando um retrato contundente da desigualdade de gênero na indústria musical. Confira um trecho do texto publicado pelo referido portal: “A edição 2026 do estudo ‘Por Elas Que Fazem a Música’ (...) revela que as mulheres ainda recebem apenas 10% do total distribuído de direitos autorais no país, um dado alarmante que expõe a estagnação na busca por equidade no setor. Além da disparidade financeira, o estudo também aponta a persistência da discriminação e do assédio, desafios que seguem limitando o avanço feminino na música (...) números relativos ao ano de 2025 reforçam essa desigualdade estrutural. Entre os 100 maiores arrecadadores da UBC, apenas 11 são mulheres, evidenciando a baixa representatividade feminina no topo da cadeia de arrecadação. Em contrapartida, a melhor colocação feminina avançou do 21º para o 16º lugar, indicando que, embora a presença ainda seja pequena, as mulheres que chegam ao topo estão melhor posicionadas.”

 

Adriana Francisco e as professoras Sandra Alfonso e Jaqueline Marques
Adriana Francisco e as professoras Sandra Alfonso e Jaqueline Marques. (Foto: Milton Santos)

 

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Palavras-chave: obras compositoras Certificação em Habilidades Específicas ingresso Graduação música IARTE UFU

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