Publicado em 22/05/2026 às 14:44 - Atualizado em 22/05/2026 às 15:50
O Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU/HU Brasil) realizou, na última segunda-feira (18/5), a aplicação de polilaminina em um paciente diagnosticado com paraplegia após um acidente grave que afetou a medula espinhal.
O procedimento, inédito na unidade, faz parte de um tratamento ainda em investigação científica que busca a regeneração de lesões medulares agudas. Mateus Barbosa Costa, de 25 anos, recebeu alta médica parcial nesta sexta-feira (22/5) e seguirá para a etapa de reabilitação fisioterápica intensiva.
A polilaminina é uma molécula sintetizada em laboratório, fruto de pesquisas desenvolvidas em parceria entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o laboratório Cristália. Ela é derivada da laminina, uma proteína naturalmente presente no corpo humano. “Ela serve como uma sustentação das células, ajudando a organizá-las. Com o trauma e a lesão dos neurônios, essa estrutura fica desorganizada. A aplicação da substância tenta formar um 'andaime' microscópico, reorganizando os tecidos para que os axônios e os neurônios possam crescer novamente no sentido correto e, possivelmente, voltarem a funcionar", explica Paulo Henrique de Sousa Fernandes, médico e chefe da Divisão Médica do HC-UFU.
O composto ainda não possui comprovação definitiva de eficácia e segurança em larga escala, exigindo que sua aplicação ocorra sob rigorosos protocolos de pesquisa clínica e consentimento informado do paciente. Apesar da inovação, a equipe médica mantém a cautela. "Não é uma resposta rápida. Uma cicatrização pode demorar até um ano. Agora, a fisioterapia é fundamental para estimular esse crescimento dentro do eixo natural", ressalta o médico, reforçando que o paciente assinou um termo de ciência sobre o caráter experimental do procedimento.
No dia 20 de março, um portão de ferro de aproximadamente oito metros caiu sobre Costa durante o trabalho, resultando em um grave trauma na 12ª vértebra torácica (T12). O impacto foi imediato: a perda dos movimentos das pernas. "Eu estava acostumado a me movimentar. Quando recebi a notícia, foi muito difícil. Mas logo na hora do acidente eu já tinha sentido que perdi os movimentos", relembra o paciente.
Dyego Vilela, cirurgião que operou e acompanhou Costa, recorda a gravidade do quadro na chegada ao hospital: "Ele teve uma fratura de luxação gravíssima da coluna, com déficit neurológico completo já no trauma. Toda a equipe se mobilizou rapidamente e conseguimos operá-lo no mesmo dia. Após a estabilização cirúrgica, a família do jovem iniciou a busca por alternativas, foi quando tomaram conhecimento da pesquisa com a polilaminina”.
O processo burocrático não exigiu judicialização. "Foi através de e-mail. Nós conseguimos o contato, enviamos os documentos e eles se interessaram pelo caso", explica Francisco Wanderley de Souza, padrasto de Costa. A equipe do estudo, sediada no Rio de Janeiro, deslocou-se a Uberlândia para a aplicação.
O HC-UFU desempenhou o papel de ponte logística e assistencial. Vilela foi contatado pelo laboratório para validar os dados clínicos do paciente. “Eles queriam conferir a gravidade do quadro. Eu expliquei o caso e aceitei participar, porque vi a possibilidade de melhora. É um jovem de 25 anos com uma lesão completa. Qualquer tentativa que mostre alguma eficácia nos testes e ofereça esperança, nós apoiamos", afirma o cirurgião.
A aplicação abriu um precedente na região, o que naturalmente gera expectativas em outros pacientes na mesma condição. No entanto, o HC-UFU alerta que a inclusão em protocolos de pesquisa obedece a critérios estritos estabelecidos exclusivamente pelo laboratório desenvolvedor da substância, envolvendo tempo de lesão, idade e comorbidades.
"O laboratório se responsabiliza pela avaliação, administração e fornecimento do componente, baseado em seus critérios de pesquisa. O compromisso da UFU é com a assistência integral, o ensino e a pesquisa médica", esclarece Fernandes.
Para Costa, o momento agora é de paciência e foco na reabilitação intensiva. Ansioso, porém realista, ele sabe que seu esforço nas sessões de fisioterapia ditará boa parte do sucesso. "É um pouco pesado, mas estou torcendo para que dê certo. Se encaminhado, isso vai ajudar não só a mim, mas vai abrir caminho para várias outras pessoas", conclui o jovem. Ele continuará sendo acompanhado pelo laboratório e equipe médica para a avaliação dos resultados e da recuperação.
Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.
Palavras-chave: HC-UFU polilaminina paraplegia Ciência
Política de Cookies e Política de Privacidade
REDES SOCIAIS