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LANÇAMENTO

Docente da UFU publica livro com questionamentos e reflexões acerca das teorias sobre evasão universitária

Escrito por Leonardo Barbosa e Silva, ‘Teorias do Abandono na Educação Superior: fundamentos, natureza e limites’ será lançado no Campus Santa Mônica na noite da próxima quinta-feira, 2 de julho

Publicado em 26/06/2026 às 20:47 - Atualizado em 26/06/2026 às 21:46

Obra possui mais de 300 páginas e foi impressa pela editora Dialética. (Foto: arquivo pessoal)

 

Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) em 1999, Leonardo Barbosa e Silva retornou à instituição em 2006, como professor substituto do Departamento de Ciências Sociais da então Faculdade de Filosofia, Artes e Ciências Sociais (FAFCS). Os títulos de mestre e doutor em Ciências Sociais foram obtidos na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) – respectivamente, nos anos de 2003 e 2008. Em 2009, passou a professor titular da FAFCS, formalmente transformada em Instituto de Ciências Sociais (Incis) no dia 17/12/2010.

Ao longo da trajetória na UFU, o docente desempenhou, de dezembro de 2012 a maio de 2016, o cargo de diretor de Assuntos Estudantis. Na sequência, assumiu o comando da Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (Proae), na qual permaneceu até janeiro de 2017. Paralelamente, entre 2014 e 2019, exerceu atividades como secretário e coordenador no Fórum de Pró-Reitores de Assistência Estudantil (Fonaprace), vinculado à Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

A experiência como gestor na área responsável pela implementação de políticas e projetos que viabilizem a permanência dos estudantes do início à conclusão de um curso superior despertou em Barbosa e Silva o interesse por se aprofundar nos estudos e teorias sobre as causas do abandono universitário tanto no Brasil como no exterior. É nesse contexto que nasce Teorias do Abandono na Educação Superior: fundamentos, natureza e limites, livro com 324 páginas e cujo evento de lançamento está agendado para a próxima quinta-feira, 2 de julho, às 19h, no Anfiteatro 5O-D do Campus Santa Mônica.

Conversamos com o professor do Incis sobre as propostas, os objetivos e a quem se destina esta obra de sua autoria. Confira, na entrevista abaixo:

 

Comunica UFU: Como surgiu a ideia deste trabalho? O que mais o motivou a produzi-lo?

Leonardo Barbosa e Silva: Este livro tem sido produzido há, mais ou menos, uns 10 anos. Tudo começou com uma experiência profissional administrativa, quando fui chamado para fazer parte da Pró-Reitoria de Assistência Estudantil, pelo Prof. Elmiro [Santos Resende, reitor da UFU na gestão 2012/2016]. Nesse período, tive que vivenciar a gestão da assistência estudantil, que se dá fundamentalmente com a preocupação de manter os estudantes presentes na universidade, a despeito das desigualdades sociais, das vulnerabilidades socioeconômicas, dos problemas afetivos, emocionais, psicológicos, daqueles vinculados à saúde. Então, o desafio era este. E eu notava que era um desafio gigantesco porque, de maneira geral, nosso recurso era escasso; tínhamos uma dinâmica de dificuldades que os estudantes apresentavam e, além de não termos o dinheiro suficiente, também não tínhamos nem estrutura física nem estrutura de pessoal suficientes. Como venho do universo da Academia, ao me defrontar com essa situação, a primeira coisa que imaginei ser o caminho mais lógico seria levantar a bibliografia, começar a estudar, a conhecer um pouco do que tem sido escrito [sobre a temática da evasão universitária]. Ali tive o primeiro choque: ter visto que boa parte da produção bibliográfica brasileira está assentada em estudos de casos/universidades/cursos, de relatos de experiência; não havia no Brasil uma produção bibliográfica verticalizada, teorizada, algo que visse o fenômeno como uma questão nacional. Eram sempre questões de universidades, variando muito de contexto para contexto.

 

O sr. contou com apoio de outros docentes da UFU nos estudos e pesquisas sobre a temática?

Com certeza! E isso foi fundamental. Logo que saí da pró-reitoria, eu e vários colegas, professores e professoras, montamos um grupo de pesquisa chamado Observatório de Políticas Públicas. Começamos a fazer estudo sobre a permanência, sobre educação superior e também sobre a evasão. Numa dessas situações e coincidências da vida, a Prograd [Pró-Reitoria de Graduação] lançou um edital propondo que grupos de estudo na UFU fizessem um estudo sobre a evasão, um levantamento sobre a evasão nas áreas de Humanas, Exatas e da Saúde. Nosso grupo de pesquisa disputou este edital e o venceu, junto com um grupo da Física. Ao começarmos a fazer o estudo, veio o segundo choque: percebemos que os dados que a UFU dispunha – e que, provavelmente, são muito semelhantes àqueles de que todas as universidades dispõem –, eram dados muito precários e insuficientes para fazer a análise do objeto.

 

Quais eram os principais problemas deles?

Primeiro, os registros não eram bons, né? Você via que havia várias falhas no banco de dados. Segundo, que algumas variáveis não estavam lá dispostas. Era o caso, por exemplo, da renda. Como fazer um estudo sobre a permanência estudantil na UFU, se a instituição não sabe qual é a renda do seu estudante? Também não encontramos dados sobre estado civil; informações se os estudantes tinham ou não filhos (maternagem, paternagem); não localizamos dados sobre o nível de escolaridade do pai e da mãe, o que é uma variável fundamental para entender um pouco da facilidade ou da dificuldade para o estudante permanecer em uma universidade. Vivíamos naquele período a sensação de que era preciso desenvolver uma pesquisa que tivesse bons dados, bons números, bons indicadores. Por outro lado, percebemos também que, mesmo se tivéssemos bons números, ainda não tínhamos acesso ao estudante, pois não conseguimos pela UFU acessar nenhum estudante que tenha evadido para conversar com ele. Entendemos que, para descobrirmos as causas do abandono, da evasão, seria necessário que fôssemos além dos números; tínhamos que fazer um trabalho com uma abordagem que não fosse somente quantitativa, mas também qualitativa. Todo esse processo de levantamento dos dados da UFU demorou até 2019. O Observatório de Políticas Públicas continuou funcionando; fomos desenvolvendo mais estudos, publicando livros. Até que eu tive a oportunidade de fazer meu estágio pós-doutoral na Universidade de Coimbra, em Portugal, e isso me deu um ano de liberdade para poder estudar.

 

E quais foram as suas novas descobertas?

O que eu fiz nesse período foi resolver aquela dúvida, a insatisfação que eu tinha quando era pró-reitor. Ou seja, eu queria descobrir na bibliografia o que havia de teoria [na temática da evasão do ensino superior]. Como vi que realmente o Brasil não tem uma bibliografia específica, aproveitei a ocasião para ler tudo que podia sobre isso, vindo lá de fora. Daí fui voltando no tempo, entende? Lia uma bibliografia recente que citava mais antigas; buscava estas fontes, as anteriores e assim por diante. Fiz esse processo até chegar nas primeiras obras, escritas nos anos de 1930. Consegui fazer um bom levantamento bibliográfico do que tinha sido produzido sobre o abandono universitário, principalmente em língua inglesa e língua espanhola. Percebi que o estado de coisas no mundo era um pouco melhor do que o estado brasileiro, mas não muito melhor. E que as teorias que estavam de pé até hoje tinham nascido em 1975. Eram teorias de uma abordagem positivista, teorias que reforçavam uma lógica de análise do abandono a partir de dados quantitativos; ou seja, a partir de uma abordagem que não ouvia o estudante, de uma perspectiva que entendia que toda forma de abandono é uma manifestação do fracasso do indivíduo num primeiro momento e da instituição, num segundo momento.

 

Mais um “choque”?

Exatamente! Ao levantar essa biografia, tive meu terceiro choque: percebi que, do ponto de vista teórico, temos uma teoria muito defasada, pois, de 75 para cá, o mundo mudou muito. Essa teoria foi renovada, foi atualizada, porém ela continuou com alguns defeitos que eu diria que, por enquanto, são incorrigíveis. Ela teria como um primeiro grande defeito a origem da reflexão, que foi um estudo sobre o suicídio. Importaram uma teoria do suicídio para dentro da noção de educação, de formação. Esses assuntos são incompatíveis! Esse foi o primeiro grande problema que eu percebi na teoria. E dele também derivam problemas metodológicos que passam por alguns aspectos. Por exemplo: boa parte da bibliografia faz uso somente de dados quantitativos. Dados estes que são retirados de registros de universidades. Então, se a universidade registra mal, o teórico também vai interpretar os dados a partir desse registro. É uma abordagem focada em instituições dos Estados Unidos e que o resto do mundo copia, sendo que elas são muito diferentes das instituições dos outros países. São diferenças na forma de ingresso, na forma de acesso, no preço das mensalidades, no perfil de instituição – algumas de 2 anos, outras, de 4 anos –, os colleges... Enfim, é uma estrutura de ensino superior muito diferente, muito particular. A estrutura de ensino brasileira não tem nada a ver com a estadunidense. E a brasileira tem muita diferença em relação à argentina, que tem muita diferença em relação à peruana, que tem muita diferença em relação à alemã. Então, se nós universalizarmos uma teoria para interpretar toda a educação superior à luz de uma visão estadunidense, temos muita chance de fracassar. Esse foi mais um problema que eu encontrei dentro da teoria. E tem uma série de outros detalhes, aspectos mais técnicos que eu cito no livro.

 

Quais foram as matrizes teóricas que o sr. utilizou na produção dele?

Sobre isso, eu percebi que as matrizes que utilizei na minha formação de interpretação sobre o Estado, sobre políticas públicas, não davam conta de abordar esse tema. Então, comecei a flertar com algumas outras matrizes teóricas para me ajudar; sobretudo aquelas que envolvem uma sociologia da educação. Busquei bases em [Pierre] Bourdieu, uma sociologia do desvio, da “delinquência” – se a gente pode chamar assim – uma sociologia da rotulação, do estigma, para tentar entender como é que estigmatizam, como é que adotam rótulos para o abandono, para a evasão. Também utilizei um pouco de sociologia da juventude, para tentar interpretar os fluxos típicos da juventude, comportamentos típicos da juventude e como a noção de abandono, de evasão, não se encaixa perfeitamente naqueles comportamentos típicos. Usei alguns autores brasileiros e internacionais para me ajudar a pensar em educação superior como direito: [José] Dias Sobrinho e Dilvo Ristoff aqui no Brasil;Tristan McCowan, na Inglaterra. Estas foram algumas referências, algumas matrizes teóricas que eu utilizei. E, ao final do livro, o que eu tento fazer é uma forte crítica à matriz teórica vigente, ao uso dessa matriz para fazer análise do abandono no Brasil e no mundo. Tento sugerir uma outra abordagem, uma alternativa, uma forma diferente.

 

Em linhas gerais, quais são os principais objetivos e quem faz parte do público-alvo deste livro que será lançado oficialmente na UFU, na noite da próxima quinta-feira?

Conforme cito na sinopse, ele convida o leitor a repensar uma ideia muito difundida no ensino superior: a de que sair da universidade sem concluir o curso é sempre sinônimo de fracasso. O trabalho propõe uma nova definição de abandono centrada na saída sem diploma, a partir da privação do direito à educação; ou seja, quando o estudante deseja ficar, mas é impedido por condições sociais estruturais ou por incapacidades institucionais. Todos os demais casos são levados à condição de fluxos típicos da educação, tais como dúvidas sobre campo de trabalho, mudança de interesse, oportunidades pessoais etc. O impacto dessa mudança de definição é enorme, por dois motivos: primeiro, leva a instituição a se dedicar aos abandonos que são problemas de fato; segundo, e consequência do primeiro, permite à instituição elaborar políticas públicas mais eficazes para enfrentar o que é o problema real. Quanto ao público-alvo da obra, é formado por pessoas que estudam o tema, que fazem a gestão de instituições de ensino e governos, além de quem se interessa pelo assunto.

 

Para finalizar, professor Leonardo, por favor, explique de que forma Teorias do Abandono na Educação Superior: fundamentos, natureza e limites pode ser adquirido.

Esta obra está disponível na versão física e na versão eletrônica (e-book) tanto na página da editora Dialética, quanto em lojas eletrônicas como Google Livros e Amazon. Todos os sites estão oferecendo um desconto especial para quem fizer a compra durante os três meses do período de lançamento.

 

Cartaz de divulgação, com as principais informações sobre o evento de lançamento do livro
Arte: divulgação

 

Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.

 

Palavras-chave: lançamento livro Incis Observatório de Políticas Públicas assistência estudantil evasão universitária Combate à Evasão

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