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REPRESENTATIVIDADE

Fugindo do estereótipo

Márcia Barbosa, reitora da Universidade Federal do Rio Grande Sul, destaca a importância da presença na mulher na ciência e em cargos de liderança

Publicado em 07/07/2026 às 17:04 - Atualizado em 07/07/2026 às 17:19

Márcia Barbosa foi uma das palestrantes do 6º Comunica Ciência (Foto: Milton Santos)

 

“Todo ambiente de liderança no mundo é masculino. Quem manda no mundo ainda são os homens’. A afirmação, de certa forma inquietante, é da reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Márcia Cristina Bernardes Barbosa. 

A reitora teve sua formação na escola pública brasileira e se tornou cientista internacional, em um ambiente, caracterizado pela presença de poucas mulheres. Em 2020, foi eleita pela revista Forbes como uma das 20 mulheres mais influentes do Brasil. Márcia Barbosa é reconhecida pesquisadora pelos estudos com a molécula da água e pela luta por mais espaços para as mulheres no meio científico. 

A professora foi uma das palestrantes da 6ª edição do Comunica Ciência: Encontro de Pesquisadores e Comunicadores, que teve como tema Cultura científica na sociedade”. O evento foi realizado entre os dias 30 de junho e 2 de julho, na Universidade Federal de Uberlândia.

Na ocasião, participou de uma bate-papo com o Portal Comunica, destacando a presença da mulher na ciência e em cargos de liderança, além de ressaltar a importância da união feminina. A professora abordou, também, a importância da divulgação da ciência. “Eu só acredito que uma pessoa entendeu profundamente o seu trabalho quando ela consegue explicar de uma maneira simples”.

Confira, a seguir, a íntegra da entrevista. 

 

Comunica: Quem é Márcia Barbosa?

Márcia Barbosa (MB): Márcia Barbosa é uma estudante da escola pública brasileira que virou cientista internacional, vice-presidente da União Internacional de Ciência, que é a maior instância que se tem em ciência, e reitora da Universidade Federal do Rio Grande Sul. 

 

Comunica: O que motivou a senhora a buscar esse caminho pela ciência? 

MB: A curiosidade! Eu me lembro quando era criança, eu ficava soltando pipa e eu dizia assim, “Eu quero fazer uma pipa que seja melhor que a dos outros e que possa voar quando tem mais vento, que é na chuva.” E eu fiz uma pipa plástica e ganhei de todo mundo, porque eu fiz uma coisinha inovadora. E eu queria passar o resto da minha vida fazendo coisas inovadoras, isto foi me puxando para a ciência, que é o inovar, o fazer diferente. 

 

Comunica: Você começou com a pipa, que é tradicionalmente um brinquedo masculino, e está na universidade que, infelizmente, por mais que a maior parte da população brasileira seja de mulheres, ainda é um ambiente masculino, né? 

MB: Todo ambiente de liderança no mundo é masculino. Quem manda no mundo ainda são os homens. Na área de exatas, que é a minha área, que é a de física, começa desde a base, não precisa ir no topo, a maioria são homens. Então, é um desafio. 

 

Comunica: E como que você vê a presença da mulher nestes espaços em que as pessoas acham que não deveriam ser delas? 

MB: Primeiramente as mulheres se sentem impostoras, elas sentem que elas não pertencem à dinâmica, porque esses locais foram construídos por perfis masculinos [...]. Então, assim, a gente entra, vê aquele ambiente que nos é estranho, que não aceita que as mulheres menstruam, porque não pensam que tu tens que ter uma semana de folga, que não aceita que as mulheres têm menopausa, que não aceitam os filhos e não as encaixam no ambiente de trabalho. O ambiente é hostil. 

 

Comunica: E como fazer pra gente quebrar essa hostilidade? 

MB: Tem que ter mais mulher no poder. Essa é a única saída. Mulheres no poder, mulheres que entendam que nós somos diferentes e que precisamos ter o espaço da diferença dentro do ambiente de trabalho, que a gente não tem que esconder que tem família, que a gente não tem que esconder que tem TPM, a gente não tem que esconder que tem problemas na menopausa. Isso é parte da vida e a gente precisa ter isso dentro do ambiente de trabalho. 

 

Comunica: E como incentivar a mulher a ter este posicionamento? 

MB: Nós temos que trabalhar juntos. As mulheres foram estimuladas, durante toda a história, a brigar uma com a outra. Nós temos que trabalhar juntas, porque juntas a gente vai mais longe. 

 

Comunica: Como a gente pode comunicar a ciência para a sociedade, ainda mais na sua área que é dificílima?

MB: Não é tão difícil. As pessoas se fazem de difíceis para não precisar comunicar, eu tenho essa teoria, se fazem de difícil, aí ninguém quer ouvir, aí pode ficar no teu canto. É muito gostoso você ficar fazendo ciência sem contar para ninguém o que está fazendo. É gostoso, é agradável, mas a gente tem que fazer ciência para o mundo. Então, tem que explicar a ciência para o mundo. Tu só consegues realmente entender o que tu fazes, quando és capaz de explicar aquilo que tu fazes com uma pessoa de fora da área. Eu só acredito que uma pessoa entendeu profundamente o seu trabalho, quando ela consegue explicar de uma maneira simples. 

 

Comunica: E qual o caminho para a gente desmistificar a ciência? 

MB: Nós precisamos desde o ensino fundamental ter pessoas apaixonadas por ciência. E o problema é que a formação, que a gente tem pra quem dá aula no ensino fundamental, é uma formação que tem pouca ciência, tem pouca ciência nos cursos de Pedagogia. A gente precisa ter mais ciência, mais paixão por ciência lá no comecinho, lá na Pedagogia. E a gente precisa reforçar a comunicação científica, nós, cientistas, precisamos por a cara bater e sair pelas ruas contando as maravilhas que a gente faz. 

 

Comunica: Qual a importância de eventos que têm como objetivo comunicar a ciência? 

MB: É importante, porque a universidade tem que se dar conta que ela tem que estar na rua, que quem paga a nossa conta é o povo e o povo precisa saber o que a gente faz e ele só vai saber se a gente comunicar. E a gente está sob ataque no mundo inteiro, não é só no Brasil, no mundo inteiro, a universidade está sob ataque e a gente precisa responder esse ataque, falando mais da paixão,  do jeito que a gente gosta das coisas,  que a gente gosta da ciência que a gente produz com muito orgulho e muita ousadia. 

 

Comunica: E qual o conselho que você daria para aquela menina, que está lá achando que ela não pode fazer ciência, que ela não pode chegar a um cargo igual ao da senhora?

MB: Primeiro escolha uma coisa que te apaixone, se é ciência que te apaixona, segura essa paixão. Na vida a gente tem que ser completa de paixão, o trabalho tem que ser repleto de paixão. E procure outras iguais a você no caminho, para não ir sozinha, vai se apoiando em pessoas como você, vai formando os seus grupos. E tu vais ver que a carreira fica muito mais divertida, quando a gente exerce ela no plural. 

 

Comunica: E como é ter o sonho realizado, aquela menina que construiu a pipa e hoje é uma cientista internacionalmente reconhecida? 

MB: Eu nunca acho que eu realizei nada, eu sempre tenho um sonho mais para frente. Eu tenho desafios científicos que eu quero vencer, eu quero ver mais mulheres no poder, eu quero lutar para que a gente tenha voz, eu quero ver a ciência na boca da rua, e neste momento nós temos que brigar contra um movimento mundial que nos ataca cotidianamente, particularmente, ataca quem fala pela ciência. Eu vou dedicar esse resto de carreira que eu ainda tenho, para isso, para fazer descobertas, para jogar na cara de quem é contra a ciência as descobertas que a gente fez com muita felicidade, com muito tesão e com muita ousadia.

 

Comunica: A mulher é muito criticada não pelo que ela faz, mas por ser mulher. Como você lida com isso? As críticas não são sobre o seu trabalho, mas pelo fato de ser mulher? 

MB: As pessoas criticam minha roupa, meu jeito, meu modo de falar, meu cabelo, meus trejeitos, eles criticam tudo isso e eu vou dizer assim: “Olha, eu sinto muito. Eu não vou deixar de ser quem eu sou porque isso é difícil ou dá trabalho. Não sei ser outra pessoa”. Então, ‘vambora’, cada um sendo quem quiser ser. E, meninas, lembrem-se de nunca estarem sozinhas. Mulheres, vocês não estão sozinhas, nós somos metade da população, nós vamos tomar o poder. 

 

Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica.

 

Palavras-chave: Comunica Ciência Ciência; Mulher

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