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CIÊNCIA

Laboratório de Incubação de Aves da UFU passa a integrar rede nacional de métodos alternativos

Reconhecido pelo uso pioneiro de embriões de galinha em pesquisas, Liave reforça o compromisso com o bem-estar animal

Publicado em 08/07/2026 às 13:41 - Atualizado em 08/07/2026 às 13:46

Liave é o primeiro da UFU a integrar a rede (Foto: Milton Santos)

O Laboratório de Incubação de Aves (Liave) da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Uberlândia (FMVZ/UFU) passou a integrar a Rede Nacional de Métodos Alternativos (Renama). A associação destaca a importância do laboratório na substituição e no refinamento do uso de animais em experimentação, consolidando a UFU no cenário nacional de inovações éticas em biotecnologia.

Criado em 2017, o Liave tornou-se referência na utilização de embriões de galinha como modelo experimental. O espaço presta suporte a diversos pesquisadores em análises complexas e tem parcerias com instituições nacionais e internacionais. Bia Fonseca, coordenadora do laboratório, relembra que a iniciativa cresceu de forma orgânica e colaborativa. “Começou com o pedido de um pesquisador para inocular um tumor. Eu nunca tinha trabalhado com isso, mas tentamos. Desenvolvi várias metodologias graças a essas pessoas que pediam suporte. Hoje, somos um polo para fornecer metodologias para outros pesquisadores, garantindo um resultado mais robusto para os trabalhos”, relata a docente.

 

A ciência por trás do modelo alternativo

Na ciência, os métodos alternativos são um conjunto de técnicas, ensaios e abordagens desenvolvidas com o objetivo de substituir, reduzir ou refinar o uso de animais vivos em pesquisas, como em testes de toxicidade e atividades de ensino. Em vez de recorrer a espécies que possuem plena consciência e percepção de dor, como roedores e outros mamíferos, a comunidade científica tem investido em opções inovadoras, a exemplo de culturas de células artificiais (in vitro) e modelos embrionários em estágios precoces de desenvolvimento, em que o sistema nervoso ainda não processa o sofrimento. 

O propósito fundamental dessas metodologias é garantir a mesma segurança, eficácia e rigor das descobertas biotecnológicas e farmacêuticas, promovendo simultaneamente um avanço ético indispensável na pesquisa contemporânea.

A principal dúvida que surge ao se falar de embriões é se o método utilizado é livre de sofrimento animal. Murilo Vieira da Silva, diretor técnico-científico da Rede de Biotério de Roedores (Rebir/UFU) e articulador do ingresso do Liave na Renama, esclarece a questão: “A primeira coisa que as pessoas perguntam é: ‘O embrião é um ser que está em desenvolvimento. Isso é um método alternativo?’. No Brasil, ele é considerado, principalmente nos avanços das pesquisas do Liave, que faz experimentos com embriões que têm menos de 50% de desenvolvimento.”

Pesquisadora manuseando ovo
Método diminui a utilização de animais vivos na pesquisa (Foto: Milton Santos)

A médica veterinária e técnica do laboratório, Simone Sommerfeld, detalha a janela de tempo adotada pela equipe para garantir a ausência de dor. Segundo ela, o sistema nervoso central da ave começa a se desenvolver entre o 12º e o 13º dia, mas a percepção real de dor só ocorre depois do 14º dia.

"A grande importância de integrarmos a Renama é porque utilizamos o embrião antes dele desenvolver a consciência e o entendimento de dor nessa janela de tempo. Nós trabalhamos sempre com o embrião abaixo dessa idade. É diferente de um animal nascido e com consciência do que está acontecendo no corpo dele", explica Sommerfeld.

Os ovos utilizados são provenientes de doações ou compras de criatórios comerciais. Para os raros estudos que exigem a ultrapassagem desse limite de desenvolvimento, o protocolo muda e exige-se submissão ao Comitê de Ética e uso obrigatório de anestésicos, equiparando o rigor ao trato de animais já nascidos. Após os testes, o descarte é feito seguindo as mesmas normas de biossegurança de um biotério tradicional.

Outros laboratórios da UFU já têm trabalhado no mesmo princípio dos métodos alternativos, como é o caso do Laboratório de Biotecnologia em Modelos Experimentais (Labme/UFU), coordenado por Silva, que está desenvolvendo um banco de embriões de camundongos.

 

Sobre a rede e o laboratório

A Renama é composta por laboratórios centrais, como o do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), e por laboratórios associados, grupo do qual o Liave agora faz parte. A rede tem a função de disseminar, desenvolver e constituir a infraestrutura de testes que reduzam a dependência de animais no país.

Para a equipe do Liave, o ingresso na rede funciona como uma vitrine estratégica. Ao listar o laboratório no portal da Renama, a UFU atrai pesquisadores interessados em testagens mais éticas e eficientes.

Silva destaca o peso da associação para o futuro: "Isso posiciona a UFU em uma área importante para o desenvolvimento de imunobiológicos e da indústria farmacêutica. O futuro da ciência tem que ir por esse caminho. Não tem como ficarmos totalmente livres de animais, mas temos que reduzir e refinar ao máximo."

Fonseca compartilha da mesma visão e reforça o impacto direto dessa triagem prévia. "Isso mostra o comprometimento da universidade com as questões éticas. Eu não preciso testar mil drogas nos animais; posso pré-testar mil nos embriões e escolher as melhores para testar nos animais. Então, eu reduzo bastante o sofrimento", pontua.

Atualmente, o modelo em ovo se provou completo em pesquisas, superando até mesmo os testes in vitro com células em determinadas aplicações. O Liave atende pesquisadores de diversas áreas, como oncologia, no estudo de tumores, nanobiotecnologia e  farmacologia.

Além de focar nos modelos, o laboratório também mantém sua tradição na avicultura, testando nutrição in ovo e vacinas para garantir que as aves comerciais nasçam com um sistema imunológico mais resistente.

 

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