Publicado em 21/07/2026 às 13:51 - Atualizado em 21/07/2026 às 13:56
As infecções respiratórias costumam se manifestar através de sintomas que já conhecemos bem, como falta de ar, tosse, coriza e espirros. Essas infecções são uma causa muito relevante de morte na infância. Mas você já parou para se perguntar por que as crianças pequenas são tão mais afetadas por essas doenças?
A resposta está na biologia humana. As crianças têm vias aéreas com um diâmetro menor, a musculatura acessória da respiração ainda é pouco desenvolvida, as vias de ventilação colateral são imaturas e o pulmão tem menor capacidade de se expandir. Isso transforma infecções aparentemente comuns em riscos reais.
Foi com essa preocupação em mente que eu e meus colegas decidimos investigar o cenário brasileiro. O nosso estudo, intitulado “Análisis epidemiológico de las muertes infantiles por infecciones respiratorias y la influencia de los factores socioeconómicos” [tradução livre: Análise epidemiológica de óbitos infantis por infecções respiratórias e a influência de fatores socioeconômicos], foi publicado recentemente na revista científica argentina Respirar, editada pela Associação Latino-Americana de Tórax e indexada na SciELO.
A pesquisa foi desenvolvida pelo médico Nikolas Lisboa Coda Dias; por estudantes de Medicina, entre eles, eu, Alan Braga de Lima; João Victor Benfica Paulino; Wellintom Pereira de Souza e Rayssa Lopes de Souza; e pelos professores Stefan Vilges de Oliveira e Wallisen Tadashi Hattori, do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia.
Para entender o que estava acontecendo, mergulhamos nos registros de saúde pública do Brasil. Analisamos dados do período de 2014 a 2023, dividindo essa abordagem em três fases: pré-pandemia (2014 a 2019), pandemia de covid-19 (2020 a 2022) e pós-pandemia (2023). Usamos bancos de dados oficiais como o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), geridos pelo DATASUS, além de indicadores socioeconômicos. Classificamos as doenças usando códigos internacionais (a CID-10) e calculamos médias e porcentagens para entender as tendências.
Ao longo do período analisado, detectamos 25.729 mortes de crianças. Um dado que nos chamou muita atenção é que a grande maioria dos óbitos foi causada por pneumonia não especificada. Na prática médica e científica, isso aponta para uma dificuldade enorme em confirmar, por meio de exames, qual foi o micróbio exato que causou a morte.
Durante a pandemia (2020-2022), vimos as taxas de mortalidade por pneumonia e bronquiolite caírem na maioria das regiões. Por exemplo, no Sudeste, a mortalidade por pneumonia caiu cerca de 40%. Isso provavelmente ocorreu porque o isolamento social, o uso de máscaras e a lavagem das mãos acabaram bloqueando a circulação de vários outros vírus respiratórios.
No entanto, o cenário pós-pandemia (2023) nos chamou a atenção. Houve um aumento drástico e generalizado. Para se ter ideia, no Nordeste do país, a mortalidade por bronquiolite aumentou quase 390% em relação ao período pandêmico, enquanto no Centro-Oeste o aumento da mesma doença passou dos 317%. Esse “efeito rebote” pode ser explicado pelo fim das medidas de isolamento, somado à queda na cobertura de vacinação, muitas vezes impulsionada por desinformação, deixando as crianças muito mais expostas.
Nossos dados deixam claro que a doença tem um perfil preferencial. A mortalidade se concentrou em bebês de 29 dias a 1 ano de idade, do sexo masculino, de etnia parda (grupos étnicos mistos) e filhos de mães jovens (entre 20 e 29 anos) com apenas o ensino fundamental.
Quando fomos olhar as chances matemáticas de morte, a desigualdade ficou ainda mais escancarada. Durante a crise da covid-19, crianças negras tiveram chances 39% maiores de morrer por influenza e pneumonia em comparação ao período pré-pandêmico. Para crianças indígenas, essa chance de morte foi 56% maior.
E não parou por aí: em 2023, as crianças indígenas chegaram a ter uma chance de morte por bronquiolite aguda aproximadamente três vezes maior do que as crianças brancas. Menores chances de acesso à assistência médica e à realização de necropsias durante o período de crise também foram fatores decisivos nesses anos.
Não dá para culpar apenas os vírus. Encontramos fortes correlações entre a mortalidade e os indicadores de desenvolvimento e desigualdade como o “Índice de Desenvolvimento Humano” e o “Índice de Gini”. Por exemplo, no período pré-pandemia, municípios com baixa oferta de profissionais de saúde e indicadores socioeconômicos piores tiveram maiores taxas de mortalidade por pneumonias entre recém-nascidos e filhos de mães muito jovens e com baixa escolaridade. O baixo nível educacional e a falta de recursos dificultam o acesso e a compreensão de informações vitais sobre cuidados preventivos, vacinas e o momento certo de procurar o hospital.
Como todo estudo científico, temos limitações. Por ser um estudo com dados de grandes populações, não podemos afirmar relações de causa e efeito individuais, e sofremos com a alta taxa de subnotificação e de registros “não especificados” que existem no Brasil.
Esses dois problemas criam um grave “ponto cego” na saúde pública brasileira. A subnotificação esconde os casos reais que simplesmente não chegam aos sistemas oficiais, enquanto os registros não especificados até documentam o paciente, mas usam termos tão vagos, por exemplo, anotar apenas “parada cardíaca” em vez da causa real da morte, que a informação perde a utilidade. Juntos, eles mascaram a nossa verdadeira realidade epidemiológica e social, prejudicando a distribuição de recursos, as políticas de prevenção e a precisão das pesquisas científicas no país.
Portanto, a principal lição do nosso trabalho é dolorosamente clara: o vírus pode até infectar qualquer um, mas a chance de uma criança morrer depende enormemente do local onde ela mora, da cor da sua pele e da renda de sua família. O predomínio de mortes em populações pediátricas vulneráveis nos mostra que, no Brasil, as mortes por infecções respiratórias são, acima de tudo, um reflexo de problemas socioeconômicos e estruturais não resolvidos. Precisamos de políticas públicas direcionadas aos que mais precisam, antes que a próxima onda de vírus encontre novamente as portas abertas.
*Alan Braga de Lima é graduando em Medicina pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), cursando o 7º período. Membro da Liga Acadêmica de Cirurgia do Aparelho Digestivo.
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Palavras-chave: mortalidade infantil infecções respiratórias desigualdade COVID-19 UFUContraOCorona Medicina saúde
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