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Leia Cientistas

Por que nos sentimos tão bem perto de uma cachoeira?

Pode haver algo mais acontecendo nesse ambiente, algo que não conseguimos enxergar

Publicado em 17/08/2026 às 18:01 - Atualizado em 17/08/2026 às 18:08

Cascata do Caracol, em Canela (RS), e representação esquemática do processo de formação de íons negativos no ar (Imagem: acervo da pesquisadora/gerada por inteligência artificial)

Quem nunca parou diante de uma cachoeira e teve vontade de permanecer ali por mais tempo? O som da água, a umidade, a vegetação, a temperatura mais agradável e a própria beleza da paisagem ajudam a explicar essa sensação. Mas pode haver algo mais acontecendo nesse ambiente, algo que não conseguimos enxergar.

Quando a água despenca e se choca contra as rochas, ela se fragmenta em uma infinidade de pequenas gotículas. Nesse processo ocorre um fenômeno físico conhecido como efeito Lenard, ou efeito cascata, responsável pela separação de cargas elétricas e pela formação de partículas carregadas no ar. Entre elas estão os chamados íons negativos do ar.

Apesar do nome, “negativo”, neste caso, não significa algo ruim. Um íon é simplesmente um átomo ou uma molécula que ganhou ou perdeu elétrons e, por isso, apresenta carga elétrica. Nas proximidades de quedas d’água, a intensa fragmentação das gotas favorece a geração e dispersão de partículas carregadas negativamente, fazendo com que esses ambientes apresentem condições atmosféricas bastante particulares.

Mas o que isso tem a ver conosco?

Nas últimas décadas, pesquisadores de diferentes áreas têm investigado se a exposição a ambientes ricos em íons negativos pode produzir efeitos sobre o organismo humano. Alguns estudos apontam associações com aspectos fisiológicos e psicológicos, como humor, estresse e determinadas respostas do organismo. Pesquisas realizadas especificamente em ambientes de cachoeiras também têm procurado compreender esses efeitos.

É importante, entretanto, não transformar essas evidências em uma promessa de que cachoeiras “curam”. Os benefícios percebidos nesses lugares dificilmente podem ser atribuídos a um único fator. Quando estamos diante de uma cachoeira, estamos expostos simultaneamente a diferentes estímulos sensoriais. A ionização do ar é uma das peças desse interessante quebra-cabeça ambiental.

Essa perspectiva nos ajuda também a enxergar as cachoeiras de outra maneira. Elas não são importantes apenas por sua beleza ou potencial turístico. São elementos da geodiversidade, registram parte da história evolutiva das paisagens, participam da dinâmica dos sistemas fluviais e proporcionam experiências que podem contribuir para o bem-estar das pessoas.

Talvez, portanto, aquela sensação agradável que experimentamos diante de uma queda d’água seja mais complexa do que imaginamos. Enquanto contemplamos aquilo que nossos olhos conseguem ver, uma série de processos físicos, químicos, biológicos e sensoriais está acontecendo ao nosso redor.

Conhecer esses processos acrescenta uma nova camada de significado à experiência de visitar uma cachoeira. E também nos lembra de algo fundamental: quando conservamos uma queda d’água e seu entorno, não protegemos apenas uma bela paisagem. Protegemos processos naturais e benefícios que essa natureza pode proporcionar.

* Lilian Carla Moreira Bento é docente da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), atuando no Instituto de Ciências Humanas do Pontal (ICHPO) e no Programa de Pós-Graduação em Geografia do Pontal (PPGEP/UFU). Também é professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional Sustentável (Proder/UFCA). Desenvolve pesquisas nas áreas de Geodiversidade, Geopatrimônio, Geoconservação, Geoturismo e Interpretação Ambiental, com ênfase na valorização do geopatrimônio. E-mail: liliancmb@ufu.br  Redes sociais: @labgeol.2024

 

A seção "Leia Cientistas" reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). São produzidos por professores, técnicos e/ou estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A publicação é feita pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), mas os textos são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, a opinião da UFU e/ou da Dirco. Quer enviar seu texto? Acesse: www.comunica.ufu.br/divulgacao

 

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Palavras-chave: cachoeiras água meio ambiente saúde bem-estar

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