Publicado em 01/09/2026 às 16:40 - Atualizado em 01/09/2026 às 17:24
Uma pesquisa inédita está mapeando a prevalência e os impactos das apostas digitais, as chamadas bets, na saúde mental e financeira da comunidade acadêmica. Os cientistas responsáveis pelo levantamento são do Grupo de Estudos sobre Saúde Mental na Integralidade do Cuidado (Gesmic), da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (Famed/UFU).
A coleta de dados já começou, por meio de questionário online anônimo, e vai até julho de 2027. A meta é obter respostas de 1.060 pessoas, entre estudantes, professores, técnicos e terceirizados vinculados à UFU, para identificar vulnerabilidades, como o risco de vício e o superendividamento, e subsidiar a criação de políticas públicas e redes de apoio dentro da instituição.
O que são bets?
O termo bet vem da língua inglesa e significa aposta. São jogos de azar em que os usuários apostam em eventos esportivos, jogos de cassino e outros tipos de competições, o que é possível fazer por meio de seus próprios celulares conectados à internet. A estimativa é de que a receita global de jogos de azar atingirá 700 bilhões de dólares até 2028, informa a Organização Mundial da Saúde (OMS).
As bets seguem um modelo de quota fixa, em que o valor do prêmio é definido por um multiplicador no momento em que é realizado. Esse tipo de aposta foi legalizado no Brasil pela Lei nº 13.756/2018, no âmbito das apostas esportivas, e pela Lei nº 14.790/2023, no âmbito dos jogos online. O site do Ministério da Fazenda detalha as regras de funcionamento das bets no país.
Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas em plataformas autorizadas no primeiro semestre de 2025. O gasto efetivo médio foi estimado em aproximadamente R$ 164 por mês por apostador.
Já os operadores ilegais, de acordo com a auditoria do TCU, respondem por 41% a 51% do volume total de apostas, o equivalente a até R$ 40 bilhões por ano. O tribunal identificou riscos relacionados a lavagem de dinheiro, manipulação de resultados e evasão fiscal.
O problema com apostas, inclusive em plataformas legais, é uma questão de saúde pública. O Ministério da Saúde reconhece o transtorno do jogo como um problema de saúde que pode provocar prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais. Entre os sinais de alerta estão dificuldade para parar de apostar, tentativa de recuperar perdas apostando novamente, comprometimento do orçamento e uso do jogo para lidar com ansiedade ou frustração.
Bets e universidade
O grupo de cientistas da UFU decidiu focar seu estudo na comunidade acadêmica a partir da observação direta dentro da própria universidade. O Gesmic, que já trabalha com temas como tabagismo e outras formas de dependência, notou conversas frequentes entre alunos e profissionais sobre o uso de plataformas de apostas.
“A gente começou a ouvir assim: ‘ah, eu vou ver se caiu o meu dinheiro na minha conta da bet’. E aí a gente começou a entender que esse assunto está perpassando por todos os perfis”, explica a professora Marcelle Aparecida de Barros Junqueira, coordenadora do Gesmic.
O fácil acesso às plataformas digitais pode exacerbar o risco de vício em uma comunidade altamente conectada como a universitária. Os usuários são constantemente expostos a propagandas de influenciadores e artistas, o que pode levar ao envolvimento por curiosidade. O sistema é projetado para ser envolvente e garantir o lucro da plataforma, muitas vezes resultando em endividamento antes mesmo que o usuário perceba a gravidade da situação.
O ambiente acadêmico é desafiador e impõe pressões ligadas à inovação tecnológica e ao contexto sociopolítico, levando as pessoas a buscarem lazer em meios digitais, explica Junqueira. As plataformas de apostas se vendem de forma sedutora como diversão e uma “ilusória fonte de renda” em um cenário de custo de vida elevado. Além disso, segundo a professora, o marketing vinculado a esportes atrai estudantes, que podem entrar em um terreno perigoso se não houver consciência dos riscos.
Perdas financeiras, desestruturação familiar, danos à saúde física, como a ocular, e, em casos extremos, o risco de suicídio são alguns dos problemas a que estão expostos os apostadores online. O estudo da UFU utiliza escalas validadas pela OMS para rastrear transtornos de ansiedade, depressão, problemas de sono e uso de substâncias.
A integralidade do cuidado, tema que nomeia o grupo Gesmic, concebe a saúde mental para além da relação com doenças ou transtornos. A saúde é integrada a todos os elementos da vida, incluindo a saúde financeira e o suporte ambiental e familiar, porque problemas nessas áreas podem gerar uma cascata que leva ao adoecimento mental.
A pesquisa servirá como um diagnóstico situacional para a gestão superior da UFU. Com os dados, será possível formular campanhas, políticas e organizar serviços específicos de apoio voltados para o público mais vulnerável. O superendividamento, por exemplo, pode contribuir para o baixo desempenho, dificuldades na permanência estudantil e afastamento de servidores.
O questionário é aberto a toda a comunidade acadêmica, independentemente de a pessoa apostar ou não. “É fundamental ter a participação de quem não aposta para que o perfil dos dados não seja viciado ou superestimado, permitindo um conhecimento real da prevalência do hábito na universidade”, explica a coordenadora.
Para quem já está em busca de ajuda para lidar com o vício em apostas digitais, a UFU tem programas de apoio nas pró-reitorias de Assistência Estudantil (Proae) e de Gestão de Pessoas (Progep). No Sistema Único de Saúde (SUS), a recomendação é procurar as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
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Palavras-chave: apostas digitais bets saúde
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