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El Niño está de volta: a Engenharia Florestal explica o que isso significa para o Brasil

Vamos te explicar por que o fenômeno pode alterar as chuvas e as temperaturas no país e quais cuidados podem ajudar a reduzir seus impactos

Publicado em 15/09/2026 às 15:09 - Atualizado em 15/09/2026 às 16:00

Períodos persistentes de temperaturas elevadas aumentam o risco de desidratação e estresse térmico, elevam a demanda por água e energia e afetam animais, culturas agrícolas e ecossistemas(Imagem: Magnific/Freepik – adaptado)

Calor mais intenso, chuvas irregulares, períodos prolongados de seca em algumas regiões e excesso de chuva em outras. Nos próximos meses, essas situações poderão aparecer com maior frequência em diferentes partes do Brasil. Uma das razões é o El Niño, expressão que tem aparecido com grande frequência nas redes sociais, nos telejornais e discussões da academia. O El Niño é um fenômeno climático que já está estabelecido no Oceano Pacífico e deve influenciar o clima brasileiro ao longo de 2026 e início de 2027.

Mas o que exatamente é o El Niño? Por que o aquecimento de uma região do Oceano Pacífico consegue alterar as chuvas no Brasil? E, principalmente, o que podemos fazer diante disso?

Essas perguntas fazem parte do trabalho de educação climática que estamos desenvolvendo no Centro de Formação em Educação Climática da Universidade Federal de Uberlândia (Cefec/UFU), uma Sala Verde reconhecida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do governo federal, sediada no curso de Engenharia Florestal, do Instituto de Ciências Agrárias (Iciag) do campus Monte Carmelo. Nosso espaço atua com educação climática, divulgação científica e ações voltadas à relação entre clima, sociedade e paisagem.

Primeiro: o que é o El Niño?

O El Niño começa a milhares de quilômetros do Brasil, no Oceano Pacífico Equatorial, e é uma condição natural já reconhecida pela ciência desde meados de 1950. Em condições normais, os ventos alísios sopram predominantemente de leste a oeste ao longo do Pacífico tropical. Esses ventos ajudam a deslocar águas superficiais mais quentes em direção à região da Indonésia e da Austrália. Próximo à costa oeste da América do Sul, esse movimento favorece a subida de águas profundas e relativamente frias para a superfície, processo conhecido tecnicamente como “ressurgência”.

Mas, durante o El Niño, esse sistema se modifica. Os ventos alísios enfraquecem e o aquecimento das águas superficiais aumenta principalmente no Pacífico Equatorial central e oriental.

Pode parecer uma mudança distante, mas o oceano e a atmosfera funcionam como um sistema muito bem conectado e sincronizado. Quando uma área tão extensa do Pacífico apresenta temperaturas anormalmente elevadas, mudam também os locais onde o ar sobe, onde se formam grandes sistemas de nuvens e como ocorre a circulação atmosférica tropical. Essas alterações conseguem repercutir a milhares de quilômetros de distância. É por isso que o El Niño pode modificar o clima no Brasil.

Ilustração
Representação simplificada das condições do Oceano Pacífico Equatorial em situação normal e durante um episódio de El Niño (Imagem: elaborada com auxílio de inteligência artificial, a partir de prompt desenvolvido pelos autores)

O El Niño de 2026 merece atenção

O cenário atual é particularmente relevante. O terceiro boletim do Painel El Niño 2026–2027, publicado em 2 de setembro pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em parceria com Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e outras instituições, informa que as previsões do CPC/Noaa (Centro de Previsão Climática/Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, dos Estados Unidos) apontam mais de 90% de probabilidade de o El Niño se intensificar consideravelmente para uma escala “muito forte” no trimestre setembro–outubro–novembro de 2026. Os modelos também indicam permanência do fenômeno pelo menos até o início de 2027. 

Consulte o Painel El Niño 2026–2027 do INPE

Uma análise divulgada pelo Inmet a partir das previsões da Noaa aponta ainda 69% de probabilidade de que este episódio seja o mais intenso registrado na série iniciada em 1950, com possibilidade de anomalias iguais ou superiores a 2,5 °C nas águas do Pacífico. 

Isso não significa, porém, que a temperatura do Brasil ficará 2,5 °C mais alta. O valor se refere ao aquecimento anormal das águas do Pacífico utilizado para caracterizar a intensidade do fenômeno.

E há outra distinção importante! o El Niño não é sinônimo de onda de calor. O fenômeno altera a circulação atmosférica e pode criar condições que favoreçam temperaturas elevadas e eventos extremos, mas uma onda de calor é um evento meteorológico específico, definido a partir da persistência de temperaturas excepcionalmente elevadas em determinado local.

O Brasil inteiro será afetado da mesma maneira?

Não! Essa talvez seja uma das informações mais importantes para compreender o El Niño. O fenômeno não produz os mesmos efeitos em todo o território brasileiro. Para setembro, outubro e novembro de 2026 por exemplo, a previsão oficial indica maior probabilidade de chuvas acima da média em áreas da Região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, além de partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Em sentido oposto, Norte e Nordeste apresentam tendência de condições mais secas. Partes do Brasil Central e do Sudeste, incluindo áreas de Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo, também apresentam maior probabilidade de chuvas abaixo da média.

As temperaturas, por sua vez, apresentam tendência de ficar acima da média em praticamente todo o país.  Isso explica uma dúvida comum que você leitor pode estar se fazendo agora. Se estamos sob influência do El Niño, ainda assim pode chover em Minas Gerais?

A resposta é sim. Claro que pode. O El Niño altera probabilidades e padrões médios de variáveis climatológicas, mas não determina o tempo de cada dia. Frentes frias, corredores de umidade, tempestades convectivas e outros sistemas atmosféricos continuam atuando. Assim, uma região com previsão de chuva abaixo da média pode registrar tempestades fortes em determinados dias e, ainda assim, terminar o mês ou a estação com déficit de precipitação.

E por que o calor preocupa tanto?

O problema não é apenas um dia muito quente. Na verdade, são os períodos persistentes de temperaturas elevadas, que aumentam o risco de desidratação e estresse térmico, elevam a demanda por água e energia e afetam animais, culturas agrícolas e ecossistemas.

A combinação entre temperaturas elevadas, baixa umidade, déficit de chuva e vegetação seca também favorece a propagação do fogo. Aqui existe outra distinção importante, que é a de que o El Niño não inicia incêndios. A ignição na verdade depende de uma fonte de fogo, muitas vezes associada à atividade humana ou, menos frequentemente, a causas naturais. O fenômeno climático pode, entretanto, deixar a paisagem mais seca e inflamável, permitindo que uma ignição e propagação se transforme mais facilmente em um incêndio de grandes proporções.

O próprio Painel El Niño alerta que temperaturas elevadas combinadas com chuvas abaixo da média podem intensificar o déficit hídrico e aumentar o risco de incêndios florestais, especialmente se houver atraso no início da estação chuvosa.

No Sul, o problema pode ser água demais

Enquanto parte do país se preocupa com déficit hídrico, áreas da Região Sul precisam acompanhar o risco oposto. Chuvas persistentes ou muito volumosas podem elevar rapidamente o nível dos rios, saturar o solo, sobrecarregar sistemas de drenagem urbana e aumentar a possibilidade de alagamentos, enxurradas, inundações e movimentos de massa em áreas suscetíveis. Essa diferença entre regiões mostra por que não existe uma única estratégia de preparação para o El Niño. 

Um exemplo drástico dessa vulnerabilidade ocorreu na tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, considerada o maior desastre do tipo no estado. Segundo o relatório do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC), os temporais afetaram centenas de municípios e 2.398.255 pessoas, provocou 183 mortes e 27 desaparecimentos, além de extensos danos socioeconômicos.

Consulte o relatório do INCT-MC

E no campo?

Na agropecuária, os impactos dependem da cultura, do estágio de desenvolvimento das plantas, do tipo de solo e, principalmente, de quando a chuva ou o calor extremo ocorre. No Sul, o excesso de chuva pode dificultar operações agrícolas, atrasar plantio e colheita, favorecer determinadas doenças e comprometer a qualidade de produtos. 

No Centro-Oeste e em partes do Sudeste, Norte e Nordeste, períodos mais quentes e secos ou a irregularidade das chuvas podem dificultar a germinação e o estabelecimento das culturas, reduzir a disponibilidade hídrica e aumentar o estresse térmico de plantas e animais. 

Um exemplo claro ocorreu durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, onde lavouras essenciais como arroz, soja e milho sofreram perdas severas de produtividade, além de dificuldades de colheita, avarias em grãos armazenados e impossibilidade de escoamento. Além disso, no mesmo período, a soja e o milho também figuraram entre as culturas mais afetadas pelo El Niño no Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste, visto que as ondas de calor e a seca extrema coincidiram com seus ciclos críticos de desenvolvimento. Para responder a esse cenário, a Embrapa publicou em setembro uma Nota Técnica com 163 medidas para gestão de riscos climáticos na agropecuária brasileira. São 14 medidas transversais, 139 específicas para diferentes cadeias produtivas e dez ações relacionadas a políticas públicas e suporte institucional. Cerca de 50 especialistas participaram da elaboração do documento. 

Conheça as recomendações da Embrapa para o El Niño 2026–2027

Então, o que podemos fazer?

Não podemos impedir a ocorrência do El Niño. Podemos, porém, reduzir nossa exposição e nos preparar melhor para seus efeitos. Na cidade, acompanhe previsões e alertas oficiais; evite exposição prolongada ao calor intenso; mantenha hidratação adequada; dê atenção especial a crianças, idosos e pessoas mais vulneráveis ao calor; não atravesse ruas alagadas ou enxurradas; conheça rotas seguras caso viva em áreas sujeitas a inundação ou movimentos de massa; economize água durante períodos de escassez; nunca utilize fogo em vegetação durante condições críticas; e fazer deslocamentos de veículos em períodos de alerta, principalmente quando há alertas de tempestades, chuvas intensas e granizo.

Uma medida simples é cadastrar gratuitamente o celular nos alertas da Defesa Civil: basta enviar, por SMS, o CEP da localidade para o número 40199. 

No meio rural, o planejamento precisa considerar as condições locais. Manutenção de cobertura do solo, conservação da água, acompanhamento da umidade do solo, planejamento da época de semeadura, disponibilidade de água para os animais, sombreamento, prevenção de incêndios e acompanhamento das recomendações da assistência técnica podem reduzir perdas. Para agricultores e pecuaristas, uma orientação adicional é procurar os serviços de assistência técnica e extensão rural, como a Emater, além de consultar informações do Inmet, Embrapa e Zoneamento Agrícola de Risco Climático. 

O El Niño tem a ver com a mudança climática?

É fundamental distinguir o El Niño da mudança climática em curso, visto que se tratam de processos diferentes. A mudança climática é de origem antropogênica, impulsionadas pela emissão desenfreada de Gases de Efeito Estufa (GEE), elevando a temperatura média global de forma persistente. Em contrapartida, até o estado atual do conhecimento científico, o El Niño é classificado como um fenômeno climático natural, cujos ciclos de aquecimento das águas do Pacífico Equatorial não possuem relação com a mudança climática.

No entanto, embora sejam fenômenos distintos, um cenário onde o planeta já está mais quente por causa da mudança climática, o El Niño ocorre de forma mais agravada, com ondas de calor mais intensas, secas prolongadas e temperaturas superiores aos recordes, potencializando os riscos socioambientais e econômicos.

Centro de Formação em Educação Climática da UFU

A própria Universidade Federal de Uberlândia pode ser procurada para mais esclarecimento, junto aos departamentos de ciências agrárias em todos os Campi da UFU. Em Monte Carmelo, nosso Centro de Educação Climática está à disposição para mais orientações.

Para conhecer melhor a Sala Verde Cefec e as nossas ações desenvolvidas, visite a nossa página na internet e siga nosso perfil no Instagram.

Alunos e professor
Educação para enfrentamento a crise do clima, realizado pela Cefec UFU em Monte Carmelo em parceria com a Prefeitura Municipal de Monte Carmelo. (Imagem: Arquivos do Cefec UFU)
Projeto Sala Verde
A Sala Verde CefecUFU em Monte Carmelo está em fase construção em contêiners modulares e em breve estará fisicamente aberta para visitas e atendimentos em geral (Imagem: Ilustração 3D - arquivos do Cefec UFU)

*Rafael Maick dos Santos é estudante do curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Uberlândia e integrante da Sala Verde Cefec.

*Vicente Morais é doutor em Engenharia Florestal, professor da Universidade Federal de Uberlândia e coordenador institucional suplente da Sala Verde Cefec.

*Luciano França é doutor em Engenharia Florestal, professor da Universidade Federal de Uberlândia e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência Florestal da UFVJM. É coordenador da Sala Verde Cefec.

 

A seção "Leia Cientistas" reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). São produzidos por professores, técnicos e/ou estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A publicação é feita pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), mas os textos são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, a opinião da UFU e/ou da Dirco. Quer enviar seu texto? Acesse: www.comunica.ufu.br/divulgacao

 

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Palavras-chave: aquecimento global El Niño mudanças climáticas Engenharia Florestal Campus Monte Carmelo Leia Cientistas

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