Publicado em 25/09/2026 às 17:56 - Atualizado em 25/09/2026 às 18:18
Na noite da última quinta-feira (24), médicos, especialistas e a população de Uberlândia se reuniram para discutir os problemas que o uso prolongado de cigarros eletrônicos causam na saúde. O evento "Por trás da Fumaça" foi organizado pelo docente de Pneumologia, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (Famed/UFU), Tulio Marquez Cunha, que também foi um dos palestrantes da atração. A atividade contou a presença de Margareth Dalcolmo, médica pneumologista, professora da PUC RIO, pesquisadora da Fiocruz e uma das referências em problemas respiratórios do Brasil e de Paulo Vinícius Soares, professor da Faculdade de Odontologia da UFU.
Organizado pela UFU e pela Sociedade Mineira de Pneumologia e Cirurgia Torácica (SMPCT), o evento tinha como foco os jovens que são os principais usuários dos cigarros eletrônicos. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), 29% dos jovens entre 13 e 17 anos, já experimentaram o cigarro eletrônico
De acordo com Túlio Marquez Cunha, uma das principais mudanças no perfil dos usuários de produtos de nicotina é a presença cada vez maior de crianças e adolescentes. “O que mudou é que cada vez pessoas mais e jovens estão utilizando, principalmente crianças. Então, é muito comum os pais chegarem desesperados, que descobriram que o filho está usando, e quando a gente vai ver, ele está usando uma altíssima concentração de nicotina, que causa uma dependência muito grande. E com o tempo de uso, isso vai prejudicar muito a saúde dessa pessoa. Então, essa é a principal mudança.”
O me´dico também chama atenção para a percepção de que o cigarro eletrônico seria menos prejudicial que o cigarro convencional. “A grande maioria da população acredita que não faz mal, faz menos mal. Mas na verdade, ele faz tão, ou, na minha opinião, mais mal do que o cigarro convencional. Ele causa as mesmas doenças pulmonares como o enfisema, doenças cardíacas, doenças pulmonares agudas graves, como o EVALI”
Referência em pneumologia no Brasil, a médica Margareth Dalcolmo destacou que o Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, uma política antitabagista, mas que o avanço dos cigarros eletrônicos trouxe novos desafios. “O Brasil tem uma tradicional e muito bem sucedida política antitabagista que começou há 30, quase 40 anos, na verdade. Além disso, o Brasil é signatário da Convenção Quadro quanto à produção de tabaco da Organização Mundial da Saúde. Isso faz com que nós tenhamos um problema para resolver.”
Ao falar sobre as pesquisas nacionais referentes sobre o uso de cigarro entre os jovens, Dalcomo citou a PeNSE e o Vigitel. “Então, isso resultou que no último PENSE e no último VIGITEL, que são os dois estudos que são feitos tanto em colégio quanto por inquérito telefônico, nós observamos um aumento do número de fumantes, tanto de vape quanto de cigarro convencional. Porque o vape, na verdade, acaba virando um caminho para voltar a fumar.”
A pneumologista também citou a experiência do Reino Unido. “No Reino Unido passou a dar vapes gratuitamente para quem quisesse parar de fumar como uma porta de saída. E agora viu que foi um erro. Não existe redução de danos, como eles quiseram crer.”
Questionada sobre a possibilidade de uma proibição total dos cigarros eletrônicos no Brasil, Dalcolmo respondeu: “Eu acho que você ter uma geração livre do tabaco é uma coisa, uma ambição muito boa do ponto de vista sanitário, social. Considerando que nós estamos vendo um número de adoecimento muito grande de jovens, crianças e adolescentes.”
Na área da odontologia, Paulo Vinicius Soares explicou que os efeitos do cigarro eletrônico também atingem diretamente a saúde bucal. “O cigarro eletrônico, ele altera todo o sistema bucal de uma maneira geral. Se nós pensarmos na boca como um bioma, onde frequentam bactérias nocivas para a saúde bucal e bactérias benéficas para a saúde bucal, existe um equilíbrio. E o cigarro eletrônico, ele provoca um desequilíbrio nesse ambiente. Então, fumantes de cigarro eletrônico tendem a ter mais cárie, mais inflamação, mais sangramento, mais perda de dentes.”
O professor também falou sobre os riscos relacionados à exposição a substâncias produzidas durante o uso do dispositivo. “A queima da fumaça, que é o componente de base pela glicerina. A glicerina é um componente da fumaça, que é o flavorizante, que dá aquela sensação de que você está expelindo aquela fumaça branca. E a queima da glicerina, ela gera um subproduto chamado acetaldeído. E esse produto, ele é cancerígeno.”
Segundo Soares, a conscientização também precisa acompanhar os hábitos de consumo dos jovens. “A primeira intenção, e deve ser de forma intencional, é você ter uma comunicação assertiva com a juventude. Palestras, como nós estamos fazendo aqui, faz parte do processo, sim, talvez pela conscientização dos adultos, que são responsáveis pela formação dos jovens. Mas a conscientização é em rede social, sem sombra de dúvidas. O jovem consome rede social, ele consome inteligência artificial. Então, como diz o ditado, ‘o cantor tem que estar onde o povo está’”.
Para Eduardo Tassinari, estudante de Medicina da UFU e um dos organizadores do evento, aproximar a universidade da comunidade é parte da missão da formação em saúde. “Essa é uma das principais missões que toda universidade deve ter, de levar o que a gente vê na aula e na prática da faculdade. Poder contribuir e levar o conhecimento para população., eu acho que é um dos pilares fundamentais para qualquer estudante da área da saúde e poder contribuir com a sociedade", finaliza.
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Palavras-chave: tabagismo cigarros eletrônicos Pneumologia Faculdade de Medicina Evento
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