Publicado em 13/10/2026 às 10:12 - Atualizado em 13/10/2026 às 10:23
A presença da arte no cotidiano contemporâneo está em diferentes lugares, ela pode ser encontrada na arquitetura, nos monumentos urbanos, no artesanato e na profusão de imagens digitais que consumimos diariamente. No entanto, as formas, os significados e as funções das expressões artísticas passaram por intensas transformações ao longo dos séculos para chegarem ao que conhecemos hoje. O surgimento da arte moderna, embora frequentemente associado a uma ruptura brusca com os ideais estéticos do passado, é resultado de um longo e complexo processo de mudanças sociais, tecnológicas e políticas.
Longe de ser uma mudança que ocorreu de repente, a transição das estéticas classicistas para as propostas vanguardistas envolveu um desenvolvimento gradual. Um dos primeiros marcos práticos dessa mudança no século XIX foi o que estudiosos chamam de "crise do tema". Se antes a grande arte acadêmica se dedicava exclusivamente a pintar temas históricos, episódios mitológicos e passagens religiosas, artistas começaram gradativamente a voltar seus olhares para o cotidiano.
Segundo Marco Antônio Pasqualini, docente do Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), essa ruptura temática causou grande impacto na sociedade da época, pois temas corriqueiros passaram a ser retratados em telas com as mesmas dimensões e grandiosidade antes reservadas aos grandes heróis e figuras divinas. Ele cita como exemplo o pintor francês Gustave Courbet: “Quando o Courbet vai fazer uma tela gigante representando o seu próprio ateliê, as pessoas ficam chocadas, porque a representação de uma cena de ateliê é uma pintura de gênero que devia ser no máximo de um metro”, exemplifica.
Já Cláudia dos Reis e Cunha, da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design da UFU, complementa que não foi apenas a dimensão da obra que escandalizou, mas a postura do artista em relação à sua própria imagem. Courbet retratou a si mesmo em sua tela como um trabalhador comum, rompendo com uma tradição consolidada. “Durante 500 anos se trabalhou essa perspectiva de tentar tirar o artista daquele lugar do artesão, do mundo medieval, e de tornar o artista esse que convive com os príncipes, que tem uma aura toda. E de repente, ele se pinta em mangas de camisa, meio maltrapilho, e isso foi um escândalo profundo”, detalha a docente.
A tecnologia e a libertação da forma
A consolidação da Revolução Industrial e o avanço de novas ferramentas visuais, como a fotografia, reconfiguraram totalmente a relação da arte com a realidade. Historicamente, a pintura e a escultura possuíam o importante papel social de registrar a vida e eternizar a imagem de figuras de poder, como imperadores e monarcas. Com a popularização dos retratos fotográficos, que trouxeram reprodutibilidade técnica à imagem, a arte institucional encontrou liberdade para explorar outras linguagens.
“A pintura agora não precisa mais representar a vida. Ela se liberta, finalmente. Ela pode prescindir, não precisa mais imitar a natureza”, explica Cunha. A pesquisadora destaca que, livre da obrigação de atuar como um mero registro visual da realidade, a expressão artística pôde se focar em experiências voltadas à experimentação. “A arte pode realmente mergulhar em outros aspectos, em outras possibilidades de comunicação com o espectador, seja através da intensidade das cores, seja através da forma geométrica”, acrescenta.
Neste novo cenário de modernidade, surgiram tanto utopias voltadas para abstração espiritual quanto tentativas de integrar o trabalho criativo à produção industrial em massa. O movimento Arts and Crafts, idealizado na Inglaterra, buscou resgatar o valor do trabalho manual e artesanal como uma resposta contrária à poluição e à baixa qualidade dos primeiros produtos industriais, mas acabou esbarrando no alto custo de suas matérias-primas e mão de obra, não conseguindo se popularizar.
Posteriormente, escolas de vanguarda, como a Bauhaus, propuseram uma nova abordagem: atrelar a arquitetura e o design de mobiliário diretamente à lógica da indústria para tentar democratizar o acesso, embora também tivessem enfrentado barreiras políticas e comerciais ao longo do tempo.
Reinterpretações locais e apagamentos históricos
A construção da arte moderna, no entanto, não se restringiu de forma homogênea às fronteiras da Europa. Ao visitarem Paris, na época, o grande epicentro da arte global, criadores de diversas regiões do mundo absorveram as inovações estéticas, mas passaram a adaptá-las ativamente às suas próprias realidades socioculturais quando retornaram a seus países. Pasqualini destaca que esse movimento resultou em fenômenos únicos, como os muralistas no México e os esforços dos modernistas latino-americanos. No caso do Brasil, obras lideradas por Tarsila do Amaral abandonaram o simples fascínio estético europeu e começaram a explorar figuras de forte simbolismo nacional para discutir a identidade do país.
Apesar dessas importantes pluralidades, revisões recentes mostram que os cânones e as instituições de ensino excluíram sistematicamente diversos grupos da história da arte oficial. Mulheres, por exemplo, passaram quase todo o século XIX impedidas de ingressar nas principais academias de belas artes, sendo marginalizadas nos grandes catálogos de exposições sob o rótulo de "amadoras", sem direito a endereço profissional. Ao mesmo tempo, artistas negros como Estêvão Silva tiveram destaque excepcional que contrastava com a falta de diversidade geral do período.
Ainda assim, debater essas exclusões exige cuidado metodológico. “A gente nunca vai ter uma história da arte pronta, acabada, resolutiva, mas a gente vai estar sempre olhando e revisitando essas questões, sempre também tomando cuidado para evitar anacronismos”, alerta Cunha, reforçando que não se pode simplesmente cobrar do passado concepções sociais do século XXI. "A historiografia da arte, ela é tão construto social quanto a própria arte o é”, conclui.
O episódio #158 do podcast Ciência ao Pé do Ouvido convida a compreender como a história da arte moderna se desenvolveu, quais foram os impactos das inovações tecnológicas nas linguagens estéticas e como a modernidade reflete as transformações da sociedade.
Durante a conversa, Cunha e Pasqualini ressaltam que, muito além das grandes rupturas visuais, as vanguardas enfrentaram os paradoxos da Revolução Industrial, a busca por novas identidades culturais e a constante revisão social de suas narrativas. Você pode conferir o episódio nas principais plataformas de áudio e também aqui no portal Comunica UFU. O ‘Ciência ao Pé do Ouvido’ é produzido pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social da UFU (Dirco/UFU) e conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).
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Palavras-chave: podcast Ciência ao Pé do Ouvido Ciência história arte arte moderna
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