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Leia Cientistas

Saiba mais sobre os fungos presentes no ambiente

Esses seres vivos podem estar em fezes de aves, como as de pombos, e causar doenças

Publicado em 05/05/2020 às 16:18 - Atualizado em 22/08/2023 às 16:52

Resultados de pesquisa mostraram presença de Cryptococcus de várias espécies, mas não foram encontrados C. neoformans e nem C. gattii nas amostras de fezes de pombos e de ocos de árvores (foto: Marco Cavalcanti)

Na natureza o Reino Fungi inclui seres vivos microscópicos (que não são vistos a olho nu, precisam de lentes de aumento, como dos microscópios) e seres macroscópicos (que conseguimos enxergar sem uso de lentes de aumento, como por exemplo as orelhas de pau vistas em troncos de árvores, e os cogumelos). 

Os fungos estão agrupados em dois: leveduras e fungos filamentosos. Dentre as leveduras estão alguns que conhecemos, como o fermento biológico usado para fazer pão, e a levedura usada na fabricação da cerveja. Dentre os fungos filamentosos estão os bolores, aqueles mesmos que emboloram alimentos, como pães, e em lugares que ficam úmidos e frescos aparecem nas paredes e muros como manchas escurecidas. 

Um aspecto positivo dos fungos é que eles são decompositores por excelência na natureza, ao lado das bactérias. Eles colaboram na reciclagem de materiais no solo, como madeira, alimentos e frutos de árvores que caem no chão. 

No entanto, alguns fungos são parasitas e vivem às custas de outros seres vivos, como plantas, animais e homem, e podem causar doenças. No homem e animais, os fungos podem causar micoses, que são doenças que podem ocorrer na pele, pelo, unhas ou cascos, mas também doenças mais profundas e às vezes disseminadas. 

No homem, por exemplo, as leveduras das espécies Cryptococcus neoformans e Cryptococcus gattii podem causar meningites e/ou meningoencefalites, que ocorrem principalmente em pessoas com problema de resistência imunológica. Aliás, os indivíduos com imunocomprometimento (inclusive os internados, especialmente em UTI), são mais susceptíveis às infecções fúngicas.

Entre nós, são mais conhecidas as micoses superficiais, como as frieiras (que ocorrem entre os dedos dos pés, mais comuns entre atletas, mas também entre aqueles que ficam muito tempo com calçado fechado) e o pano branco (que são aquelas manchas esbranquiçadas, mas às vezes podem ser avermelhadas, que aparecem no tronco, nas costas ou no pescoço, especialmente quando a pessoa queima do sol, estas manchas aparecem mais).

Os fungos do gênero Cryptococcus, C. neoformans e C. gattti são os principais do gênero que causam doença no homem. O primeiro é encontrado principalmente em fezes de pombos no ambiente, mas também em fezes de outras aves; e o segundo em ocos e troncos de árvores. 

Outras espécies deste mesmo gênero também estão presentes no ambiente, mas poucas podem causar doença no homem ou nos animais, sendo raras geralmente, inclusive em pessoas imunocomprometidas. Entre 2017 e 2018 realizamos um trabalho de pesquisa de espécies de Cryptococcus em fezes de pombos e ocos de árvores nas áreas do Campus Umuarama da UFU.

Os resultados mostraram presença de Cryptococcus de várias espécies, mas não foram encontrados C. neoformans e nem C. gattii nas amostras analisadas. Isso mostra que, apesar de não terem sido isoladas estas espécies, outras estão presentes, de modo que não podemos descuidar, pois a literatura mostra que as diferentes espécies compartilham o mesmo nicho orgânico, isto é, as fezes de aves e os ocos de árvores. Ou seja, onde tem uma, pode ter a outra. Se continuássemos procurando, provavelmente encontraríamos uma hora ou outra.

Assim, chamamos a atenção, no artigo que publicamos, que é importante manter sempre limpos os ambientes onde circulam muitas pessoas. Lembramos que ambientes onde existem excretas (fezes) de pombos, estes devem ser varridos com água, e não a seco, para evitar que levantem poeira, e esta possa ser inalada. Aliás, é nesta poeira e no ar que as estruturas do fungo podem estar e são inaladas, e podem atingir o pulmão e de lá causar doenças (tipo pneumonia e/ou cair na circulação sanguínea e ir para outro lugar do corpo, como o sistema nervoso central).

Lembramos ainda que pessoas com diversos graus de imunocomprometimentos precisam tomar mais cuidado ao transitar por estes ambientes, usando máscara protetora quando possível, para evitar inalar as estruturas dos fungos. 

O artigo Isolation of Cryptococcus species from the external environments of hospital and academic areas está publicado na revista The Journal of Infection in Developing Countries.

Referência:

Brito M de O, Bessa MA de S, Menezes R de P, Röder DVD de B, Penatti MPA, Pimenta JP, Aguiar PADF de, Pedroso R S (2019) Isolation of Cryptococcus species from the external environments of hospital and academic areas. J Infect Dev Ctries 13:545-553. doi: 10.3855/jidc.10849.

 

*Reginaldo dos Santos Pedroso é doutor em Biociências Aplicadas à Farmácia pela USP e pós-doutor em Promoção de Saúde. Estudou a presença de Cryptococcus no ambiente, sua patogenicidade e seus fatores de virulência e resistência a antifúngicos no mestrado e no doutorado. É professor da Escola Técnica de Saúde e orientador no Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da UFU.

 

A seção "Leia Cientistas" reúne textos de divulgação científica escritos por pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). São produzidos por professores, técnicos e/ou estudantes de diferentes áreas do conhecimento. A publicação é feita pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU), mas os textos são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, a opinião da UFU e/ou da Dirco. Quer enviar seu texto? Acesse: www.comunica.ufu.br/divulgacao. Se você já enviou o seu texto, aguarde que ele deve ser publicado nos próximos dias.

 

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