Por: Felipe Domingos
Publicado em 25/03/2025 às 11:11 - Atualizado em
31/03/2025 às
13:38
A Ditadura Militar ficou marcada pela perseguição política e social de todos aqueles que discordavam dos ideais empregados pelos militares nas décadas de 60, 70 e 80 no Brasil. Dentre perseguições e mortes, alguns tiveram seus nomes marcados na história do país tupiniquim por lutar publicamente, ou por debaixo dos panos, pela liberdade e direito de tantos outros.
Um dos campos mais estudados dentro da História é a “Memória”: lembrar e entender através das vitimas como ocorreram os processos ao longo do tempo. O recente filme de Walter Salles, “Ainda Estou Aqui”, protagonizado por Fernanda Fernandes Torres, traz a história da família Paiva. O filme ilustra bem como entender os processos históricos através das vitimas. É nesse contexto que recordamos e deixamos marcado a trajetória de algumas dessas personalidades durante mais de 20 anos de luta.
Vladimir Herzog, um simplesmente Vlado, como era conhecido por seus amigos, foi um jornalista, documentarista, professor e filósofo brasileiro. Herzog nasceu em 1937, em Osijek, na Iugoslávia (atual Croácia). Filho de judeus, seus pais fugiram do país ainda em 1942 por conta do nazismo. Criado na cidade de São Paulo, Vlado acabou por ganhar a cidadania brasileira anos mais tarde.
Em 1959 iniciou sua carreira como jornalista do “O Estado de São Paulo” - onde permaneceu até 65 -, logo após formar-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). No jornal paulista, Herzog cobriu a inauguração da Brasília, a visita de Jean-Paul Sartre ao Brasil e a posse de Jânio Quadros. Em 1963, começou sua trajetória no telejornalismo, onde foi redator e secretário do “Show de Notícias”, da extinta TV Excelsior, e viu os primeiros atos de repressão militar.
Insatisfeito e contrário à ditadura instaurada no país, Vlado se mudou para Londres com sua esposa Clarice em 1965, onde tiveram dois filhos. Na Inglaterra, trabalhou e estudou na BBC, onde aprimorou seus conhecimentos sobre cinema, TV e telejornalismo. Vlado voltou ao Brasil somente em 1968, dias após a instauração do Ato Institucional n°5. Por aqui, trabalhou durante 5 anos como editor cultural da Revista Visão.
O filósofo voltou ao telejornalismo em 1973, quando foi convidado pelo seu amigo, Fernando Pacheco Jordão, para coordenar a redação do jornal “Hora da Notícia”, da TV Cultura. Dois anos mais tarde, foi escolhido pelo secretário de cultura de São Paulo, José Mindlin, para assumir o telejornalismo da emissora, podendo, enfim, aplicar seu conceito de “responsabilidade social do jornalismo”.
No dia 24 de outubro de 1975, militares procuraram Vlado na redação do jornal para que esclarecesse ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Após horas de negociações entre jornalistas e militares, Vlado concordou em comparecer voluntariamente no dia seguinte ao Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do II Exército.
Na sede de repressão militar na vila Mariana, Herzog foi torturado e morto por militares. Amigos jornalistas, também presos, relataram os gritos e gemidos de sofrimento de Vlado por socos e tapas e ouviram quando os membros do II Exército pediram para trazer “a pimentinha” - cadeira de choque. Os gritos ainda foram abafados por algo colocado na boca de Vlado, o que não impossibilitou que ele continuasse a gritar. Logo após, não se ouvia mais nada, um silêncio dominou a sede do DOI-CODI. George Duque Estrada, um dos jornalistas também presos, lembra que neste momento ouvia-se apenas o canto dos pássaros.
Nas horas seguintes da morte de Vlado, os militares forjaram um falso laudo alegando suicídeo e uma confissão de filiação ao PCB desde 1971. O caso mobilizou diferentes setores da sociedade, como a paralisação do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e a presença de mais 8 mil pessoas na Catedral da Sé e todo o entorno para a Missa de Sétimo Dia do jornalista, em um ato ecumênico com Dom Paulo Evaristo Arns, o Rabino Henry Sobel, o reverendo Jaime Nelson Wright e o missionário Manoel de Mello.
No ano seguinte, sua esposa Clarice entrou com uma ação contra o Estado, pleiteando a responsabilidade da União pela morte do esposo. Em 1978, depois de depoimentos de outros presos, legistas, do comitê funerário judaico responsável pela preparação do corpo para o funeral e outras pessoas, a União foi condenada pela prisão arbitrária, tortura e morte de Vladimir Herzog.
Entre tantas homenagens, a redação de jornalismo da TV Cultura foi renomeada com seu nome após uma reforma e, no dia 25 de outubro de todos os anos, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo entrega o “Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos” aos principais trabalhos jornalísticos dedicados a essa temática, hoje a cargo da Instituição Vladimir Herzog, fundada pela família e amigos de Vlado.
Em 15 de março de 2013, foi entregue à Clarice e Ivo Herzog (filho mais velho de Vlado) o atestado de óbito retificado de Vladimir Herzog corrigindo a causa da morte para “morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército – SP (DOI-CODI)”. Mais que isso, no dia 18 de março de 2025, exatamente 50 anos depois da morte de Vlado, o governo federal reconheceu Herzog como anistiado político - pessoa que, por motivos exclusivamente políticos, tenha sofrido perseguição por órgãos ou indivíduos ligados ao Estado brasileiro durante a Ditadura. E oficializou reparação econômica mensal vitalícia para Clarice.
Heleny Telles Ferreira, nascida em Bebedouro (SP), em 1941, foi uma professora e dramaturga brasileira. Estudou e se formou em Filosofia pela USP, com especialização em Cultura Grega, enquanto estudava paralelamente Teatro. Trabalhou como professora na Faculdade de Filosofia da USP e na Escola de Arte Dramática de São Paulo (EAD). Em 1962, casou-se com Ulisses Telles Guariba Netto, com quem teve dois filhos, Francisco e João Vicente.
Em 1965, Heleny recebeu uma bolsa de estudos do Consulado da França, em São Paulo, para se especializar na Europa, concluiu seu doutorado e estagiou em diversos teatros, além de diversos cursos em Berlim, onde foi assistente de direção. De volta ao Brasil, em 1967, foi contratada pela prefeitura de Santo André e se tornou diretora do Grupo de Teatro de Santo André. Na cidade paulista, montou e dirigiu diversas peças com alunos de escolas públicas e, paralelamente, participou da montagem, direção e lecionou sobre dramaturgia na Aliança Francesa e no Teatro Arena, dois teatros na capital paulista.
Com a publicação do AI-5, seu trabalho foi interrompido e Heleny começou a atuar como militante da oposição pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização que atuava na luta armada contra o regime militar. Heleny tentava ajudar familiares de perseguidos políticos. A atuação na VPR chamou a atenção do governo que acabou prendendo-a em Poços de Caldas, em 1970. Seu ex-marido, Ulisses Telles Guariba Netto, e seu ex-sogro, o general da reserva Francisco Mariani Guariba, a localizaram no DOPS/SP, com marcas roxas nas mãos e nos braços, consequência da tortura sofrida com choques elétricos pelos capitães Benoni de Arruda Albernaz e Homero César Machado. Heleny precisou ser direcionada ao Hospital Militar, onde permanaceu durante dois dias por conta de hemorragias causadas pela tortura. Após a hospitalização, a professora foi transferida para o Presídio Tiradentes, onde permaneceu por um ano até ser solta em abril de 1971.
Três meses após a soltura, Ulisses recebeu um telefonema informando outra prisão de Heleny, dessa vez ao lado de Paulo de Tarso Celestino da Silva (dirigente da Ação Libertadora Nacional - ALN) por agentes do DOI-CODI/RJ. O ex-sogro, Francisco, foi até Brasília e ao Comando do 1° Exército atrás de informações, porém sem muito sucesso. Enquanto informações obtidas por Francisco apontavam a prisão de Heleny junto a Paulo de Tarso, os oficiais mantinham a versão de que ela foi solta em abril de 1971 e que depois teria fugido para o exterior. Para atestar a falácia, em 1976 o Serviço Nacional de Informações (SNI) emitiu um documento onde destacava Heleny como “pombo correio” entre os grupos militantes do país e que permanecia foragida.
Ainda em dezembro de 1971, o Ministério do Exército fez uma declaração em resposta a solicitação da OAB sobre o paradeiro de Paulo e afirmou ter prendido o líder da ALN, entregue à Polícia Federal e que somente o Ministério da Justiça poderia esclarecer o ocorrido. Dias depois, o Ministério do Exército desmentiu o fato alegando um erro.
Heleny e Paulo nunca mais foram vistos, mesmo com os esforços de Francisco Mariani Guariba e Pedro Celestino, pai de Paulo, advogado e ex-deputado federal pelo PSD em Goiás.
Em 1979, Inês Etienne Romeu, em seu relatório de prisão, afirmou que enquanto esteve presa na “Casa da Morte” - sítio clandestino do DOI-CODI em Petrópolis - entre outros desaparecidos, estavam Paulo e uma mulher que acreditava ser Heleny. De acordo com Inês, os dois foram torturados por dias com choques. Em 1987, o ex-médico Amílcar Lobo, do DOI-CODI, afirmou em entrevista à revista “IstoÉ”, ter atendido Paulo na “Casa da Morte”, mas sem precisar uma data. Outro agente do DOI-CODI, o sargento Marival Chaves Dias do Canto, afirmou que, após tortura, os presos politicos eram mortos, esquartejados, separados em sacolas para dificultar a indetificação e enterrados. De acordo com o sargento, a casa em Petrópolis foi onde mais se matou e ocultou cadáveres durante o regime, pessoas de todo o país foram enviadas para lá. Em seu livro, Amílcar Lobo confirma o depoimento.
Iara Iavelberg foi uma psicóloga, professora universitária e militante. Nascida na capital paulista em 1944, era filha de David Iavelberg e Eva Iavelberg, uma família tradicional judia. Casou-se cedo, aos 16 anos, mas por vontade própria decidiu separar-se poucos anos depois.
Em 1963, ingressou no curso de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Letras (FFCL, atualmente FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), onde passou a ter os primeiros contatos com movimentos estudantis e a atuar politicamente dentro da universidade. Quando a ditadura começou no ano seguinte, passou a fazer de parte de diversos grupos, como a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), na VAR-Palmares e, finalmente, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).
Na VPR, conheceu Carlos Lamarca, com quem se envolveu amorosamente pelos anos seguintes, mesmo o ex-capitão do exército sendo cassado. O romance dos dois a colocou como a mulher mais procurada do país (mesmo rótulo de Lamarca). Em 1971, dois anos após os dois se conhecerem, decidiram sair da VPR e integrar o MR-8, que os deslocou à Bahia. Iara foi para Salvador, enquanto Lamarca se escondeu no sertão baiano.
Em agosto de 1971, policiais cercaram o apartamento onde Iara e outros militares estavam escondidos no bairro de Pituba, na capital baiana. Iavelberg conseguiu se esconder no apartamento da vizinha, porém poucos dias depois os policiais conseguiram detectar e cercaram o imóvel. A versão dos militares dizia que Iara teria se suicidado em 20 de agosto de 1971, na impossibilidade de fugir. Porém, testemunhos de vizinhos e da proprietária da casa indicam o caminho do assinato de Iara pelos policiais, como o barulho dos disparos semelhantes a um fuzil e não a um revólver como os policiais relataram Iara ter usado.
O laudo assinado por Charles Pitex, que teria sido enviado à Polícia Federal e à 6ª Região Militar, sumiu, e o registro de entrada do corpo de Iara no IML Nina Rodrigues nunca existiu.
Os rascunhos do laudo detalham com exatidão alguns aspectos de Iara, como suas roupas, porém não cita e nem deixa claro se a mesma teria se suicidado, somente inclui o registro do ferimento na mama esquerda que atravessa até a região lombar. Os rascunhos ainda possuem interrogações ao lado de “suicídio”.
O corpo de Iara foi entregue à família somente um mês depois, em São Paulo, junto do anúncio da morte de Lamarca. Por conta do atestado de suicidio, seu corpo foi enterrado em uma das alas do Cemitério Israelita destinado a pessoas que teriam cometido o ato, seguindo as tradições judaicas.
A família de Iara abriu uma ação judicial em 1998 contestando a versão policial e conseguiu, em 2003, realizar uma exumação do corpo. Na nova autópsia, o médico Daniel Romero Munõz concluiu que a hipótese de suicidio era improvável. Em 2006, Iara foi finalmente retirada da ala de suicidas em cerimônia realizada pelo rabino Henry Sobel.
Em 1998, Iara foi homenageada com a Medalha Chico Mendes de Resistência pelo Grupo Tortura Nunca Mais/RJ. Além da medalha, o Centro Acadêmico de Psicologia da USP leva o seu nome.
O episódio #134 - 1964: sintomas de um golpe, do “Ciência ao Pé do Ouvido”, traz Alexandre Avelar para um bate-papo mais profundo sobre a temática. Ele está disponível nas principais plataformas de podcast e também aqui no portal Comunica UFU.
O "Ciência ao Pé do Ouvido" é produzido pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social (Dirco/UFU) e conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).
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