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Arte

Por trás das cortinas

No último dia 27 de março, o mundo celebrou o 'Dia Internacional do Teatro'. Mas como tudo isso começou?

Por: Ana Julia Camfella | bolsista de Comunicação da Dicult
Publicado em 02/04/2025 às 10:10 - Atualizado em 02/04/2025 às 18:03

 

A cortina avermelhada se abre, as luzes iluminam o palco e os atores entram em cena. Assim como nos palcos, o teatro também tem um papel essencial na cultura e na formação social. No último dia 27 de março, quinta-feira, o mundo celebrou o "Dia Internacional do Teatro", uma data que convida à reflexão sobre a importância dessa arte. Mas como surgiram as primeiras práticas teatrais? E como essa tradição se manifesta hoje na Universidade Federal de Uberlândia (UFU)?

 

História do teatro: das festas de Dionísio aos palcos modernos

O teatro ocidental tem suas raízes nas festividades dionisíacas da Grécia Antiga, celebrações em homenagem a Dionísio, o deus do vinho. Segundo Luiz Humberto Arantes, pesquisador, diretor e professor titular do Curso de Teatro da UFU, essas festividades evoluíram para a incorporação de textos, originando as primeiras tragédias. "Por isso, até hoje lemos obras de tragediógrafos como Ésquilo, Sófocles e Eurípedes", explica Arantes.

Os festivais duravam vários dias, com fartos banquetes, danças e consumo de vinho, além da participação de atores e dançarinos em teatros públicos. Os figurinos teatrais da Grécia Antiga eram marcantes: túnicas coloridas bordadas, máscaras expressivas e sapatos de plataforma. O chíton, principal vestimenta da época, era uma túnica ampla ajustada com um cinto perto do peito, criando a ilusão de maior estatura nos atores.

Os ricos detalhes costurados em ouro, prata e púrpura desenhavam figuras diversas no tecido. As máscaras, principais objetos em cena, eram feitas de tecido, couro ou argila com cabelos de pessoas e animais. Como as apresentações eram ao ar livre, as máscaras eram estrategicamente recortadas, para que os olhos e a boca do ator ficassem visíveis e auxiliassem na amplificação vocal e performance.

Embora, em muitos momentos da história, o teatro tenha sido restrito a determinadas classes sociais, sua acessibilidade variou conforme a época e cultura. Na Grécia Antiga, era restrito a homens livres; no Império Romano, gratuito, porém segregado por status social. O teatro elisabetano permitia a presença de todas as classes, embora com divisões na plateia. Já no Século XIX, teatros parisienses se dividiam entre oficiais, voltados à elite, e particulares. Com o tempo, a ascensão burguesa e o surgimento de novas experiências, como o circo, ampliaram o acesso ao teatro.

O teatro, considerado a quinta arte, ganhou o dia 27 de março como uma data de celebração e homenagem, reconhecendo sua riqueza cultural. Idealizada pelo Instituto Internacional do Teatro (IIT), essa celebração foi criada em 1961, tendo como objetivos promover o teatro pelo mundo, incentivar pessoas a consumirem essa arte e conscientizar sobre a importância dela para que mais pessoas sejam contagiadas por essa fonte de alegria.

A busca por inovação sempre esteve presente no teatro. "Mesmo iluminar uma cena com fogo já se considera uma tecnologia", aponta Arantes. A modernidade, com certeza, proporcionou ferramentas que transformaram as práticas teatrais. Ao longo dos séculos, recursos como engrenagens para movimentar cenários, iluminação elétrica e, mais recentemente, as transmissões on-line transformaram as práticas teatrais, as quais foram uma alternativa para apresentações a distância durante a pandemia.

Ao aplicar essa historicidade à realidade, podemos perceber a relação com o teatro universitário. O teatro acadêmico é aquele realizado em universidades, com foco principal no investimento na formação de pessoas, em que não está essencialmente centrado nas lógicas de mercado. Luiz Humberto Arantes comenta perceber que, ao longo dos anos, “o fazer teatral sempre está se equilibrando entre o tradicional e as necessidades do contemporâneo”.

 

Quando o palco vira sala de aula
Imagem de uma moça branca e com cabelos compridos, usando vestido, sozinha em cima de um palco, com jogo de iluminação em funcionamento, durante a encenação de uma peça teatral
O desafio de encenar: Júlia venceu a timidez, por meio do teatro. (Foto: arquivo pessoal)

O teatro faz parte do dia a dia de Júlia Costa, estudante do 8º período de Artes Cênicas. Seu primeiro contato com a cena foi uma maneira de enfrentar a timidez, mas acabou se tornando essencial para seu desenvolvimento pessoal e artístico. “É um espaço livre, onde você pode ser você mesmo na décima potência e, consequentemente, te leva a uma vida menos mecânica e mais leve”, descreve.

A realidade de quem vivencia a arte é dividida por desafios. No cenário de Uberlândia, Costa visualiza dois movimentos principais. De um lado, o Teatro Municipal recebe, anualmente, grandes espetáculos de artistas globais, com produções de alta qualidade e público majoritariamente da elite da cidade. Por outro, grupos independentes, viabilizados por leis de incentivo, oferecem espetáculos gratuitos e igualmente bem produzidos, mas sem a mesma adesão.

Diante desse cenário, a estudante universitária se questiona: até que ponto o teatro é consumido? As escolas oferecem acesso a espetáculos? Como tornar essa experiência acessível para quem nunca esteve em um teatro?

Considerando essas questões, a jovem comenta que produções locais raramente chegam ao [Teatro] Municipal, já que o alto custo de aluguel dificulta esse acesso. “Existe, portanto, uma dualidade: o teatro pode ser extremamente acessível tanto para artistas quanto para o público, mas também pode se tornar um ambiente elitizado, onde ocorre uma subversão do acesso à arte”, ressalta Costa. 

A UFU busca aproximar o teatro da comunidade por meio do projeto Comunidade e UFU em Cena (COMUFU)que oferece oficinas gratuitas de práticas teatrais, proporcionando trocas de experiências entre alunos do curso de Licenciatura em Teatro e participantes externos. Júlia Costa opina que é, a partir de oportunidades como essa, acessíveis e gratuitas, que “se formam públicos e artistas”. E complementa: "Além disso, as oficinas são ministradas por atores em formação, criando uma relação horizontal de aprendizado. O principal objetivo é permitir que o teatro transforme, de alguma forma, a vida de cada pessoa.”

 

 

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