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Série Conexões com Elas

A arte como refúgio e resistência: Malu Teodoro explora a maternidade e o espaço no audiovisual

Artista e graduanda da UFU compartilha detalhes de como a criação de redes de afeto e a maternidade impulsionaram sua carreira

Publicado em 27/03/2026 às 14:45 - Atualizado em 27/03/2026 às 16:09

Foto: arquivo pessoal de Malu Teodoro / Arte: Luisa Prados

 

Fotógrafa, videomaker e pesquisadora, Maria Luiza Teodoro esteve em diversos lugares antes de fincar raízes no Cerrado Mineiro. Com uma formação inicial em Comunicação Social Multimídia e vivências em grandes centros culturais como Lisboa e Berlim, ela construiu seu olhar artístico enquanto transitava por diferentes fronteiras. No entanto, foi o nascimento da filha e o desejo de proximidade familiar que a trouxeram de volta a Uberlândia em 2021, marcando o início de um novo capítulo acadêmico e profissional na Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Atualmente, ela  cursa o bacharelado em Artes Visuais, após concluir a licenciatura. A artista transforma a vivência da maternidade solo e os desafios do mercado de trabalho em combustível para projetos autorais. Entre eles, destaca-se o filme "Mulher-Casa" (2026), uma obra que investiga as relações entre o corpo feminino, o cuidado e o espaço habitado.

Nesta edição da série "Conexão com Elas", Malu fala sobre o processo de se assumir artista, a desigualdade de gênero nas artes e como a educação se tornou um pilar central em sua jornada.

 

Malu, como foi a sua vivência em grandes centros da Europa e por que você decidiu fincar raízes em Uberlândia e ingressar na UFU em 2021?

Foi um processo de retorno ao afeto. Eu morava em Lisboa, fazendo formação em dança quando engravidei. Minha filha nasceu em Berlim, mas, depois que ela nasceu, a distância da família começou a pesar. Eu estava há mais de 15 anos longe. Me separei do pai dela e vim para Uberlândia meio "do nada", buscando essa proximidade familiar. A decisão pela UFU veio de um desejo antigo de fazer uma licenciatura em Artes. Esse desejo aumentou muito depois que me tornei mãe e passei a lidar com a educação no dia a dia. Pensei: "Por que não?" Entrei em 2021, me formei na licenciatura e agora sigo no bacharelado, já visando o mestrado.

 

Muitas mulheres relatam que a maternidade as afasta da carreira. No seu caso, parece ter sido o contrário: foi o gatilho para você se assumir artista de vez. Como foi esse processo?

Eu relutei muito em me intitular como artista. Primeiro porque não sabia se dava para viver disso. Minha primeira graduação foi em Comunicação Social - Multimídia, justamente porque eu achava que a fotografia e o vídeo "comerciais" me dariam mais dinheiro e estabilidade. O trabalho artístico ficava sempre de lado, em paralelo.

Só que, depois que virei mãe, o tempo acabou. Não existe mais "hora vaga". Se eu tivesse um trabalho formal, cuidasse da minha filha sozinha e tentasse ser artista nas horas que sobram, eu simplesmente não seria artista, porque não sobra tempo. Então, no momento mais difícil, com quase 40 anos e uma filha pequena, eu decidi: é agora. Ou eu faço da arte o meu ganha-pão, ou eu me anulo. Desde que ela nasceu, vivo de projetos culturais e editais.

 

Você observa que hoje, no mercado das artes e do audiovisual, há diferenças em relação ao gênero dos artistas? 

Sim, a disparidade é absurda. Se você olhar os números de contratação em fotografia e vídeo, as mulheres ganham menos e são menos chamadas. Nas artes visuais, é só olhar as estatísticas de museus como o MASP [Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand]: o número de mulheres em exposição ou representadas por galerias é ínfimo comparado aos homens. Existe um preconceito estrutural. Eu senti isso em várias experiências profissionais. Por isso, trabalhar com projetos autorais e educativos hoje é também uma forma de garantir que minha pesquisa e minha voz tenham espaço, sem depender apenas dessa lógica excludente do mercado tradicional.

 

Imagem de divulgação do filme 'Mulher-Casa'
Fruto de uma rede de afeto e parcerias com outras mães artistas em Uberlândia, o filme 'Mulher-Casa' (2025) investiga as relações entre o corpo feminino, o cuidado e o espaço habitado. (Imagem: arquivo pessoal de Malu Teodoro)

 

Como foi o processo criativo do filme “Mulher-Casa”?

Quando cheguei aqui, precisei me conectar. Fui atrás de outros artistas e, principalmente, de outras mães. Conheci as outras duas proponentes do projeto e idealizamos o que antes chamávamos de Corpo Casa. Ele nasceu dessa volta para Uberlândia e da criação de uma rede de afeto onde as crianças também eram amigas. O filme, que virou Mulher-Casa, é o resultado desse encontro. É sobre o espaço que habitamos e como esse espaço nos habita, especialmente sob o recorte da mulher que cuida, que cria e que resiste.

 

Atualmente, Malu concilia as aulas, com a escrita de novos projetos culturais. Sua intenção é seguir na carreira acadêmica, unindo a prática artística de vídeo e fotografia com a educação. 

 

 

Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.

 

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