Publicado em 23/03/2026 às 15:44 - Atualizado em 23/03/2026 às 16:25
Formada em Física e doutora em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Karyne Juste construiu uma trajetória de destaque na área da inovação tecnológica. Entre as várias experiências acumuladas ao longo de seus 41 anos, a uberlandense fez intercâmbio de um ano na École Centrale de Lyon, na França.
Após coordenar projetos no Instituto Senai de Inovação em Belo Horizonte, Karyne retornou a Uberlândia em 2020 e se surpreendeu com a força do ecossistema tecnológico local. Atuando como agente de inovação pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), ela teve contato com as dinâmicas do UberHub – um núcleo que conecta empreendedores, investidores, empresas e instituições de ensino para fomentar o desenvolvimento de negócios de alto impacto. Essa forte conexão com o núcleo, somada à sua posterior passagem pela Prefeitura Municipal, foi determinante para consolidar seu perfil empreendedor.
Como resultado dessa vivência, Karyne tomou a decisão de empreender. Hoje, ela está à frente da Findertech, uma empresa focada em gestão da automação e governança da transformação digital.
Nessa edição da série Conexões com Elas, conversamos com Karyne sobre sua carreira, o desafio de entrar na área do empreendedorismo tecnológico, a presença das mulheres nas ciências exatas e como a maternidade transformou sua relação com o mercado de trabalho. Confira a entrevista:
Como foi a sua trajetória acadêmica e qual foi o seu primeiro contato com a área de inovação tecnológica?
Quando chegou o momento do doutorado, busquei uma área que fosse menos abstrata para mim e fui para a Engenharia Mecânica trabalhar com desenvolvimento de materiais. Defendi minha tese em 2012 e, durante o doutorado, fiquei um ano na França. Foi nessa época que tive meu primeiro contato com a inovação, fazendo uma pesquisa aplicada patrocinada por uma indústria. Depois, fui convidada para coordenar a área de tribologia no Instituto Senai de Inovação, em Belo Horizonte, onde fiquei de 2013 a 2020 atendendo a indústria com projetos.
Em 2020, você voltou para Uberlândia. Como foi essa reinserção no mercado local?
Retornei em 2020, quando me tornei mãe, buscando viver em uma cidade mais tranquila. Ao chegar, eu queria saber o que tinha de inovação aqui e fiquei muito impressionada ao conhecer o ecossistema local de tecnologia.
De onde surgiu a ideia de criar a sua própria empresa, a Findertech?
A Findertech, que fundei em agosto de 2024 em parceria com a minha sócia, Bianca Neves, surgiu no final do meu contrato com o Sebrae. Nós identificamos um gap (uma lacuna entre o desempenho atual e o potencial) nas empresas, que precisam olhar para a parte operacional e ver o quanto a tecnologia, de fato, impacta o negócio. Na Findertech, nós não desenvolvemos softwares, mas fazemos a gestão da automação e a governança da transformação digital. Ou seja, auxiliamos no entendimento de quais processos precisam de tecnologia para serem viáveis e quais apenas necessitam de reestruturação para melhorar a eficiência. Hoje, as equipes trabalham por projeto em um modelo 100% remoto, o que também permitiu que eu me dedicasse totalmente à empresa.
Historicamente, áreas como a tecnologia da informação e engenharias são dominadas por homens. Como você enxerga a presença da mulher na tecnologia hoje em dia, comparando com o início da sua carreira?
Empiricamente, percebemos que a mulher ainda é minoria nas áreas de exatas e de tecnologia, inclusive em eventos do setor. Na minha turma de Física, por exemplo, éramos 40 alunos e apenas 10 mulheres. O que vejo como positivo hoje é que existe um movimento dentro das empresas para treinar mulheres a assumirem cargos de liderança, impulsionado pelas pautas de diversidade. Por outro lado, percebemos um desinteresse das meninas no ensino médio em seguir a área de exatas, talvez por dificuldades nas disciplinas base, como Matemática e Física. O que precisamos fazer é motivá-las, identificar fragilidades e mostrar que esses são caminhos completamente possíveis para as mulheres.
Você mencionou que a maternidade motivou seu retorno à Uberlândia. Como tem sido conciliar a criação da filha com a carreira em inovação, que é tão dinâmica e exigente?
Eu ainda estou tentando administrar tudo. A gente não tem noção do que é a demanda de uma criança até ser mãe. Eu sempre gostei muito de trabalhar e viajava bastante; então, achava que com quatro meses minha filha estaria na creche e eu estaria cuidando da minha vida normalmente. Mas foi um susto, pois não consegui fazer isso. Foi aí que precisei buscar funções com maior autonomia de horário, como a oportunidade no Sebrae e, posteriormente, o trabalho na Findertech. Tenho clareza de que, nos primeiros anos de vida dos filhos, a nossa produtividade acaba sendo prejudicada. Apostar na minha empresa foi também uma tentativa de ter um caminho flexível para conciliar meu papel de empresária e o de mãe da Letícia, que hoje tem 5 anos. É um desafio constante quando gostamos demais do nosso trabalho, mas a criança demanda e tem que ser a prioridade.
Para finalizar, qual mensagem ou conselho você deixa para as mulheres e meninas que desejam construir uma carreira na ciência e na tecnologia?
Primeiro: olhem para as dificuldades nas disciplinas base de exatas e trabalhem para superá-las, se realmente quiserem seguir essa área. Depois: busquem inspirações! Faltam referências para muitas meninas; então, é fundamental ir atrás de mulheres que são líderes e pesquisadoras bem-sucedidas para servir de motivação. No meu doutorado, busquei referências como a professora Henara Costa, que é muito conceituada em tribologia e me inspira muito pelo domínio e conhecimento que possui. Existe sim um ambiente majoritariamente masculino nas exatas, mas é muito possível atuar e lidar com essa dinâmica. Ao longo da caminhada, vamos conhecendo e criando o nosso próprio ecossistema de mulheres na ciência e na tecnologia, e essas conexões ajudam muito a seguir em frente.
Ao compartilhar histórias como a de Karyne Juste, a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proexc/UFU) busca celebrar o Mês das Mulheres e inspirar futuras gerações de cientistas, engenheiras e empreendedoras.
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Palavras-chave: Série Conexão com Elas UFU PROEXC Mulheres na Extensão empreendedorismo Tecnologia inovação
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