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SÉRIE MULHERES E MENINAS NA CIÊNCIA

A curiosidade impulsiona o futuro da ciência

Professora Maísa Silva incentiva alunas da educação básica com projetos em diversas áreas científicas

Publicado em 11/03/2026 às 10:04 - Atualizado em 11/03/2026 às 13:18

Maísa é coordenadora de diversos projetos voltados à Iniciação Científica (Foto: Marco Cavalcanti)

Quando fui convidado para ir até a Escola de Educação Básica (Eseba) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) entrevistar uma cientista da Matemática, já tinha grandes expectativas a respeito da professora, mas, ao entrar no laboratório, fui surpreendido positivamente com cinco pesquisadoras de excelência de Uberlândia: Julia Brito, Laura Rodrigues, Mariana Corsino e Rafaella Faria, todas com trabalhos em diferentes áreas premiados internacionalmente. E o que realmente me impressionou foi a idade dessas meninas: entre as alunas, a mais velha ainda estava no 9° ano do Ensino Fundamental. 

Em uma sala rodeada por experimentos e troféus, fui apresentado para Maísa Gonçalves da Silva, mestre, orientadora de iniciação científica, professora de Matemática e Metodologia de Pesquisa, coordenadora e orientadora do Grupo de Estudos, Pesquisas e Inovações Tecnológicas (Gepit) e representante mineira do Instituto Brasileiro de Iniciação Científica (IBIC).

Nascida em Patos de Minas (MG), Silva sempre foi muito curiosa e, desde sua infância, gosta de procurar saber como o mundo funciona. Ainda na época de escola participava de feiras de ciência interescolares e ajudava seu pai nas manhãs a resfriar o motor do carro da família.

Atualmente, ela incentiva essa curiosidade nas meninas da Eseba como coordenadora do Gepit. Junto com outras professoras, alunos do ensino básico e graduandos, o projeto já soma mais de 100 participantes.

Confira abaixo a entrevista completa com a pesquisadora:

Foto: Marco Cavalcanti A professora Maísa é coordenadora de diversos projetos voltados a iniciação cientifica
Foto: Marco Cavalcanti

Como era seu interesse por ciência quando menina?

Eu sou uma professora aqui da Eseba que teve o ensino fundamental e médio em uma escola de Patos de Minas. Em minha trajetória de formação estudei em uma escola estadual que tinha laboratório de ciência, feiras de ciência, tinha competições interescolares na área de ciência, tinha trabalhos de campo, coletas de amostras, então eu fui incentivada a ser curiosa dentro dessa área. É algo que sempre me chamou a atenção e sempre fui incentivada pelos professores ao longo da minha formação.

Como foi a sua infância?

Em termos de infância, eu fui uma menina muito diferente. Tenho quase 41 anos, então, sou da época em que os carros precisavam de colocar água para resfriar o motor. Meu pai abria o motor e me cedia um espaço para observar. Sempre fui aquela que lê o manual do carro, que abre o capô do carro, tem curiosidade, fui uma criança que, no meu espaço de menina, era tudo que eu queria estar, de brincar de bola e tudo mais. No espaço escolar também, havia feiras de ciência todo ano onde estudava, então fui muito incentivada a descobrir.

O que você gosta de fazer quando não está trabalhando?

De hobbies… Eu leio muito, sou uma leitora voraz. Apenas no mês de fevereiro eu li 12 livros. É algo que me acalma. Gosto muito de livros de fantasia. Outro hobby que tenho é assistir série. Gosto muito de ficção científica.

Como você incentiva a ciência dentro da educação básica?

Na educação básica e no ensino superior são necessárias estas ações de ensino, pesquisa, extensão, estas atividades. Existem vários jovens pesquisadores que têm uma curiosidade natural sobre as coisas. Acho que é necessário incentivar essa curiosidade, a curiosidade de explorar, de desvendar, de pesquisar. Aqui nós temos o Grupo de Estudo e Pesquisa em Inovações Tecnológicas (Gepit), que é um espaço que, hoje, contando todos os envolvidos, chega a mais de 100 pessoas envolvidas na educação básica. Só de pesquisadores têm 24 grupos de alunos de educação básica, que são incentivados a fazer ciência e vão para diferentes eventos, seja regional, nacional ou internacional.

Foto: Marco Cavalcanti A professora Maísa é coordenadora de diversos projetos voltados a iniciação científica
Foto: Marco Cavalcanti

Quais os desafios para uma menina ao iniciar na ciência?

Bem, é algo que trabalhamos na Eseba. Uma das ações que temos é uma oficina voltada a alunas que estão lá no fundamental 1, porque se eu vejo uma aluna lá no início que tem curiosidade, temos que desenvolvê-la na ciência até o oitavo, nono ano e ensino médio, pois ela é uma cientista que está aqui na escola. Então, os exemplos que eu vejo não são distantes, são daqui mesmo.

Como você enxerga essas meninas daqui para frente na trilha da pesquisa científica?

Na verdade já estamos colhendo bons frutos agora, por exemplo, tivemos alunas do 5°ano que fizeram uma oficina de circuito elétrico e deram para o 1° ano do fundamental. E uma das alunas desta oficina, quando entrou no 5° ano, ela se tornou pesquisadora dentro do grupo. Então, ela já se viu como uma futura cientista. Hoje ela está na área da programação e está realizando uma pesquisa sobre fazer um semáforo que mostra o barulho na sala. Ela pegou um momento que está próximo dela e propôs uma solução com a ciência. Então se percebe que o futuro é promissor, pois elas já enxergam soluções para os problemas da realidade em torno delas.

O que é necessário para termos mais meninas e mulheres na ciência?

Esta pergunta é muito complexa. Eu venho da área da matemática e física, e quando você observa não vê grandes nomes femininos ao longo da história. Para isso é importante ter programas como este que realizamos aqui para formar mais cientistas, assim como termos olimpíadas específicas, como a Olimpíada Brasileira de Informática (OBI), que possui uma categoria feminina; a de Química também tem uma específica para meninas. Há eventos em que existe uma avaliação específica para meninas, tanto é que as três, a Julia, Rafa e a Mariana, se tornaram bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em um programa de incentivo às mulheres na ciência então tem esse movimento, mas é importante também ter a clareza que as mulheres acabam tendo uma dificuldade na própria carreira.

Por exemplo, na maternidade, várias mulheres precisam interromper sua carreira para serem mães, um movimento que não acontece com frequência entre os homens. Se pegar a avaliação, a grande maioria dos bolsistas produtividade são homens, quem chega a titular na carreira a grande maioria são homens. Então, é necessário que existam programas de incentivo para superar estes desafios e, mais importante ainda, ter exemplos de mulheres nas áreas, pois isso brilha os olhos das meninas, você ter espaços e oportunidades.

Fotos: Marco Cavalcanti

Quem é a Maísa Silva no Lattes?

A Maísa no currículo é muito mais uma cientista do que efetivamente uma matemática. Hoje, sim, Uberlândia é referência na alfabetização e, junto com outros profissionais na educação, caminhamos para manter Uberlândia com a excelência que a cidade merece na ciência. Estou cercada por grandes mulheres que são excelentes em suas áreas. Eu diria que até mesmo meu currículo não é só meu, eu tenho publicações em parceria com outros diversos colegas que são grandes pesquisadores. A minha produção acadêmica está muito mais voltada para a alfabetização científica, do primeiro contato de uma criança com a ciência, este trabalho fornece ao aluno de experimentar com curiosidade e tranquilidade sobre suas áreas de interesse antes de ter que escolher lá na frente o que realmente deseja fazer. Então, eu sou esta cientista no Lattes, a que participa desta iniciação. 

Qual foi sua pesquisa no mestrado?

No mestrado eu trabalhei prioritariamente com a matemática, pensamento e linguagem algébrica, como trabalhar com estas diferenças de pensamento no sentido de que falar sentenças matemáticas em língua portuguesa é muito difícil. Aí eu consegui fazer essa tradução para símbolos matemáticos lá para a álgebra ou um enunciado.

Um pouco matemática, um pouco de língua portuguesa, mas quando chega literalmente em matemática a equação ou a função fica mais fácil. Às vezes, para resolver um problema matemático, se só tem a língua portuguesa, fica difícil a compreensão do aluno, tanto é que problemas de lógica, combinação, arranjo e probabilidade são problemas muito difíceis em matemática. Esta transição entre linguagem é complicada.

Além das atividades de ensino, você desenvolve atividades de pesquisa e extensão?

Sou professora de Matemática, então, tenho ações voltadas para a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), para a formação de estagiários, de novos docentes e pesquisas relacionadas ao pensamento algébrico, o que é da minha origem dentro da instituição, mas meu maior bloco dentro da instituição é em iniciação científica.

Tem alguma história com seus alunos que você gostaria de compartilhar?

É, eu diria que o primeiro é... Meu Deus do céu, eu chorei, foi a Febrat, a Feira Brasileira de Colégios de Aplicação. Ou seja, tem 22 colégios de aplicação, os colégios funcionam dentro de universidades. E a gente ganhou. E lá não existe, tipo, o primeiro, o segundo... Este foi em 2015, eu faço iniciação científica desde 2008. Mas o primeiro evento científico que a gente foi, foi em 2014. Aí, esse 2015 já foi pela Eseba.

É um evento com apenas uma premiação geral para todos os trabalhos, e este trabalho rendeu frutos, foi a primeira vez que tive contato com a avaliação de patentes, a gente foi para o Equador apresentar, então foi bem marcante. Mas o projeto é marcante para as meninas também. A Rafaela, por exemplo, a primeira vez que ela viajou de avião e viu o mar foi com a iniciação científica. Muitos deles têm a primeira viagem, a primeira vez que dormem fora, aqui no Gepit, e assim foi se formando uma família. Mas eu diria que o mais marcante foi o primeiro, nós da educação básica apresentando trabalho para a graduação na UFU, para todos os campi, então foi muito gratificante.

Quais as dificuldades de ser mulher na ciência?

Primeiro, a escolha, né? Eu sou da área da Matemática por escolha. Eu tive professoras no ensino fundamental, mas um universo muito pequeno de professoras na graduação, e todo o contato que se tem, seja livros ou produções, sempre há um universo maior de homens, e na pesquisa também, então nós já entramos como resistência. Para e pensa: quantos pró-reitores e reitores temos e quantas reitoras temos? 

Inclusive fui em um evento do MCTI [Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação] no Rio de Janeiro, que inclusive era um evento para mulheres na ciência, e lá tinha uma reitora. Era uma consulta à comunidade científica para escutar em quais frentes deveriam ser investidas verbas do ministério, no ano em que a ministra de Ciência e Tecnologia é da engenharia elétrica. Então vem um movimento significativo ali, inclusive na área da educação básica. É muito difícil ter uma professora de Matemática dentro do universo da iniciação científica. A grande maioria são professores e de Biologia, que encontramos em eventos científicos. Aqui na Eseba temos muitas mulheres que estão rompendo estes padrões.

 

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