Publicado em 29/05/2026 às 14:24 - Atualizado em 29/05/2026 às 14:31
O avanço do período seco, no Cerrado, levanta um alerta para a saúde pública. Com a baixa umidade relativa do ar, aumento de queimadas e concentração de poluentes na atmosfera, doenças respiratórias tendem a se desenvolver, principalmente entre crianças, idosos e pessoas com comorbidades.
O professor do Instituto de Geografia, Geociências e Saúde Coletiva da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Rildo Costa, explica que, diferente de outras regiões do país, o Cerrado possui duas estações climáticas, mais bem definidas: seca e chuvosa. “No papel, estamos no outono, mas, na prática, nossa região funciona de forma diferente. Temos um período seco, que vai aproximadamente de abril ou maio até setembro ou outubro, e um período chuvoso entre outubro e março”, afirma.
Ainda, segundo o pesquisador, o período seco é uma característica natural do Cerrado, mas as emergências climáticas intensificam de certo modo, os seus efeitos. Em 2025, Uberlândia registrou cerca de 135 dias consecutivos sem chuva.
De acordo com o professor, o clima seco não causa diretamente doenças respiratórias, mas potencializa quadros já existentes, como rinite e sinusite. Isso ocorre devido à combinação entre baixa umidade do ar e aumento do material particulado na atmosfera. “Sem chuva, a poeira e a fuligem permanecem suspensas no ar por mais tempo. Quando a umidade relativa fica muito baixa, nossas vias respiratórias perdem lubrificação, o que facilita irritações e sangramentos”, explica Costa.
Atualmente, a umidade relativa do ar na região gira entre 35% a 40%, mas pode chegar a índices próximos de 15%, entre agosto e setembro. O percentual considerado ideal para o organismo humano é em torno de 60%.
O pesquisador ainda destaca que crianças e idosos sofrem mais nesse período porque possuem maior vulnerabilidade fisiológica. Enquanto crianças ainda estão com o sistema imunológico em desenvolvimento, idosos podem apresentar doenças pré-existentes que agravam com os impactos da poluição e do clima seco.
As queimadas urbanas e rurais também representam um dos principais fatores de agravamento dos problemas respiratórios na região. Segundo o docente, além de incêndios em áreas rurais, a prática de colocar fogo em terrenos baldios e resíduos sólidos, ainda é comum. “Esse material particulado é inalado pela população e contribui para o agravamento das doenças respiratórias”, ressalta.
O professor coordena uma pesquisa em Ituiutaba que relaciona queimadas e internações hospitalares. O estudo analisa dados climáticos, registros de incêndios atendidos pelo Corpo de Bombeiros e internações por problemas respiratórios.
Os resultados preliminares apontam aumento entre 20% e 30% nas internações, durante períodos com maior ocorrência de queimadas. Aproximadamente 70% dos casos registrados envolvem idosos.
Segundo o pesquisador, os impactos do clima seco não atingem toda a população da mesma forma. Moradores de áreas periféricas costumam enfrentar condições mais desfavoráveis, devido à falta de arborização, ventilação adequada, proximidade com terrenos baldios e áreas suscetíveis a queimadas. “Quem vive em casas com pouca circulação de ar, menos áreas verdes e infraestrutura inadequada, tende a sofrer mais”, afirma o professor.
Ele também explica que as ondas de calor, cada vez mais intensas, por causa das emergências climáticas, não afetam todas as pessoas da mesma forma. Enquanto quem possui maior poder aquisitivo, consegue buscar conforto em ambientes climatizados e no uso de ar-condicionado e umidificadores, populações vulneráveis acabam enfrentando mais dificuldades para suportar as temperaturas extremas.
O professor explica como amenizar a situação: “A arborização urbana é importante, porque a árvore não é só uma questão de estética. Ela vai, filtrar o ar e vai gerar uma umidade relativa do ar um pouco melhor. Ela vai combater ondas de calor combater no sentido de amenizar as temperaturas de ondas de calor na cidade. Então, por exemplo, quase todos os municípios têm políticas de arborização urbana, mas são poucos que realmente funcionam, e isso ajuda a população a enfrentar esse período seco”, declara o professor.
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Palavras-chave: meio ambiente Cerrado Umidade do ar
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