Pular para o conteúdo principal
Educação

5ª Semana Preta fortalece educação antirracista e valoriza a cultura afro-brasileira

Programação reuniu comunidade escolar do Colégio de Aplicação em exposições, debates e apresentações culturais

Publicado em 08/07/2026 às 08:59 - Atualizado em 08/07/2026 às 12:56

A primeira feijoada da Semana Preta integrou a programação do sábado letivo, acompanhada por apresentação musical do grupo Sambak /Foto: Ester Moraes

O Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Uberlândia (CAP/UFU) realizou, entre os dias 29/6 e 4/7, a 5ª Semana Preta. Com o tema "Celebre a Negritude", a iniciativa promoveu atividades culturais, pedagógicas e formativas voltadas à valorização da cultura afro-brasileira e ao fortalecimento de práticas antirracistas no ambiente escolar.

Organizada pela Comissão de Diversidade Étnico-racial, a programação reuniu estudantes da Educação Infantil ao Ensino Fundamental, docentes, técnicos, famílias e comunidade externa em uma série de ações.

A professora Léa Aureliano de Sousa, docente do CAP e integrante da organização do evento, explica que a Semana Preta surgiu a partir do projeto "Construindo uma Escola Antirracista", desenvolvido há cinco anos na instituição. “Foi um projeto com financiamento em que realizamos várias ações voltadas para estudantes, docentes e para a comunidade durante um ano e oito meses. O resultado foi a primeira Semana Preta. A partir disso, ela se tornou uma tradição e parte do trabalho da escola”, afirma.

Segundo a docente, a proposta da iniciativa é promover reflexões sobre história e cultura afro-brasileira por meio de diferentes linguagens e experiências pedagógicas. “Nós realizamos atividades formativas para professores, estudantes de licenciatura e profissionais de outras redes de ensino, oficinas, jogos africanos, contação de histórias e exposições. É um conjunto de ações voltadas à história e cultura afro-brasileira, buscando fortalecer o compromisso da escola na luta antirracista”, destaca.

Costurando Memórias 

Entre os destaques da programação esteve a exposição "Costurando Memórias", da artista visual Isabelle Oliveira, instalada no corredor de acesso à biblioteca do colégio. A mostra nasceu a partir do trabalho de conclusão de curso (TCC) da artista e aborda temas como memória, ancestralidade, identidade e negritude.

Segundo Isa, as obras são inspiradas em pessoas negras que fizeram parte de sua trajetória e contribuíram para que ela pudesse chegar à universidade. “Cada obra carrega uma história e tem como objetivo valorizar a cultura afro-brasileira, além de evidenciar trajetórias que, muitas vezes, não são contadas ou reconhecidas”, explica.

Entre as trajetórias retratadas está a de sua tia, Lúcia Helena, que retornou aos estudos aos 45 anos, ingressou no curso de Geografia, na modalidade a distância e, aos 50 anos, tornou-se a primeira pessoa da família a conquistar um diploma de ensino superior em uma universidade pública. Atualmente professora concursada, sua história inspirou as obras “Costuradas em Mim e Trajetórias que Precedem”.

 

Obra têxtil composta por fotografias em preto e branco de diferentes pessoas negras costuradas sobre tecido claro. Os retratos estão organizados em duas fileiras horizontais e apresentam homens e mulheres de diferentes idades, com expressões serenas e sorridentes. A peça está exposta em uma parede branca e destaca temas relacionados à memória, ancestralidade e trajetórias familiares.
Trajetórias Que Precedem, 2026, 245x71cm, serigrafia sobre tecido / Foto: Isabelle Oliveira

A artista destaca que sua principal referência é Rosana Paulino, conhecida por abordar em suas produções os impactos do racismo e da escravidão na vida da população negra, especialmente das mulheres negras brasileiras. Em sua pesquisa, Isa também buscou registrar histórias familiares marcadas pela crença na educação como instrumento de transformação social.

“A exposição deixou de ser apenas uma produção artística e passou a ser também um registro de memórias, uma homenagem aos que vieram antes de mim e um convite para que outras pessoas reflitam sobre suas próprias histórias e ancestrais”, afirma.

Durante a Semana Preta, a artista realizou mediações com turmas do 1º, 4º e 6º anos do Ensino Fundamental. Para ela, o contato das crianças com as obras revelou a importância da representatividade nos espaços educativos. “Foi muito emocionante ver muitas crianças se identificando com as obras. Na obra Minhas Raízes, ouvi meninas negras dizendo: ‘Nossa, parece comigo!’ ou ‘O cabelo dela é igual ao meu!’. Já em outra pintura, elas procuravam entre as diferentes tonalidades de pele aquela que mais se parecia com a sua”, relata.

 

Estudante observa obras da exposição Costurando Memórias instaladas em um corredor do CAP/UFU. Na parede, há retratos e composições artísticas inspiradas em pessoas negras e em elementos da cultura afro-brasileira. Em destaque, uma grande obra em tons de azul apresenta o retrato de uma mulher idosa. A estudante está de perfil, observando as obras expostas.
A participação das famílias faz parte da proposta do evento desde sua primeira edição, aproximando a comunidade das discussões sobre relações étnico-raciais /Foto: Isabelle Oliveira

Para Isa, momentos como esses evidenciam o potencial da arte na construção de uma educação mais inclusiva e antirracista. "Quando vejo esse reconhecimento acontecendo, sinto que meu papel como artista está sendo cumprido. Fico muito feliz em perceber que crianças negras, especialmente meninas, conseguem se enxergar na arte, sentir que pertencem àquele espaço e compreender que suas histórias, suas famílias e suas características também merecem ser valorizadas e celebradas", conclui.

Ações da Semana 

Ao longo da semana, estudantes participaram de atividades relacionadas à cultura afro-brasileira e às contribuições da população negra para a formação da sociedade brasileira. Entre as ações desenvolvidas estiveram oficinas de rima e slam, debates sobre o filme Vista Minha Pele, reflexões sobre os 100 anos de nascimento do geógrafo e intelectual Milton Santos, atividades sobre afro-mineridades e uma mostra literária antirracista organizada pela biblioteca da escola.   

 

 

Entrada da sala de leitura decorada parapa a mostra Literária Antirracista. Tecidos estampados com padrões coloridos inspirados em estampas africanas revestem a parede ao lado da porta. Um cartaz anuncia a exposição, enquanto almofadas dispostas no chão criam um espaço acolhedor para leitura, convivência e atividades relacionadas à valorização da literatura e da cultura afro-brasileira.
A mostra literária antirracista organizada pela biblioteca teve seu período de visitação ampliado para que mais estudantes pudessem conhecer o acervo /Foto: Ester Moraes

A programação também incluiu formações voltadas a docentes da educação básica, estudantes de licenciatura e demais interessados na temática das relações étnico-raciais. Os encontros discutiram o Protocolo de Identificação e Resposta ao Racismo, elaborado pelo Ministério da Educação (MEC), e abordaram práticas pedagógicas comprometidas com a promoção da igualdade racial.

Além das atividades educativas, a Semana Preta promoveu apresentações culturais, como o Terno de Congado Marinheiro de Nossa Senhora do Rosário, batalhas de rima, apresentações musicais e a peça teatral “A Voz de Kemily". A programação foi encerrada com atividades destinadas às famílias e aos estudantes durante o sábado letivo, fortalecendo os vínculos entre escola e comunidade.

Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.

 

Palavras-chave: CAp/UFU educação antirracista Educação Básica UFU

A11y