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ENTREVISTA

Comunicação e ciência: Margareth Dalcolmo reflete sobre o legado da pandemia de covid-19 e a importância da saúde pública nacional

Em visita à UFU, pesquisadora da Fiocruz detalhou os desafios no combate à desinformação e os avanços do protagonismo feminino na academia

Publicado em 28/09/2026 às 13:57 - Atualizado em 28/09/2026 às 14:07

Dalcomo foi uma das principais vozes científicas nacionais acerca da crise de coronavírus (Foto Milton Santos)

Há seis anos, a pandemia de covid-19 trouxe o maior desafio sanitário do século, colocando a ciência e a saúde pública nos principais debates globais. A urgência por respostas rápidas e eficazes fez com que pesquisadores assumissem a linha de frente não apenas nos laboratórios e hospitais, mas também na comunicação diária com a população. 

Entre esses profissionais, destacou-se a médica pneumologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Margareth Dalcolmo, que se consolidou como uma das principais referências no combate à desinformação. Reconhecida internacionalmente, Dalcolmo esteve em Uberlândia para um evento que reuniu especialistas em torno dos riscos do cigarro eletrônico e visitou a Universidade Federal de Uberlândia (UFU). 

Durante a visita, a professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e membra da Academia Nacional de Medicina (ANM) analisou o panorama atual da ciência brasileira e as consequências da pandemia de covid-19. Confira a entrevista:

 

Para começar, é interessante mostrarmos o outro lado dos cientistas. Quem é Margareth Dalcolmo no Currículo Lattes e quem é ela fora do Lattes?

Sou pesquisadora clínica da Fiocruz, pneumologista de formação, e me dedico há praticamente três décadas à pesquisa na área de doenças respiratórias relacionadas a infecções, de forma mais específica à tuberculose. Tenho uma forte atuação na docência e, agora, aceitei o novo desafio de assumir a graduação de uma nova escola médica da PUC-Rio. Além disso, participo há muito tempo de comitês científicos internacionais e de aprovação de novos medicamentos da Organização Mundial da Saúde (OMS). Fora do Lattes, eu sou escritora e uma viajante, uma globetrotter por natureza. Gosto muito de tudo o que faço. Já passei cinco anos trabalhando em um projeto do Banco Mundial na África Subsaariana, lidando com populações muito afetadas por doenças pulmonares complexas. Aceitar desafios é algo que a vida me ensinou, e essas experiências, sem dúvida, me tornaram uma pessoa mais compreensiva.

 

A senhora foi uma das vozes mais marcantes da ciência no Brasil durante a pandemia de covid-19. Ao olhar para trás, qual foi a principal lição que a ciência brasileira deixou para a sociedade?

A ciência brasileira deixou uma bela lição. Fui conselheira no Ministério da Saúde no início de 2020 e, desde cedo, entendi que viveríamos uma tragédia comparável apenas à Gripe Espanhola. Compreendi que havia uma responsabilidade imensa em orientar a sociedade civil de maneira muito transparente e pedagógica. Foram cerca de 680 entrevistas apenas nos dois primeiros anos. A comunicação da ciência, quando temos talento para fazê-la, é indispensável. Diante da desinformação, que se dissemina rapidamente como uma epidemia nas redes sociais, é nosso dever desconstruir inverdades e oferecer a informação trabalhada. O Brasil foi o 9º país em publicações científicas durante a pandemia. A despeito de adversidades e de uma retórica oficial nociva que enfrentamos na época, a comunidade acadêmica respondeu de forma brilhante, testando medicamentos, conduzindo estudos vacinais e estabelecendo, pela primeira vez, uma relação de intimidade e confiança entre o que fazíamos e o que a sociedade civil acompanhava.

Foto do livro de Margareth
Em "Um tempo para não esquecer", a pesquisadora traz um olhar humanizado para refletir sobre os desafios, a memória e o legado da pandemia de covid-19 (Foto: Túlio Daniel)

A pandemia mostrou a relevância vital do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Programa Nacional de Imunizações (PNI). O que ainda precisa avançar para blindar essas ferramentas públicas contra futuras crises sanitárias?

O Ministério da Saúde criou um grupo de trabalho, do qual faço parte, justamente para colocar uma nova institucionalidade com foco em preparar o Brasil para novas pandemias. Não queremos criar um órgão burocrático, mas sim uma estrutura enxuta, de articulação rápida. Isso vai desde orientações técnicas ágeis até questões de logística. Vale lembrar que, na pandemia de covid-19, o país não tinha autonomia de insumos: nos faltavam máscaras, vidros para envasar vacina, respiradores, tudo. Essa nova organização ajudará o Brasil a garantir autonomia e capacidade de resposta imediata.

 

A senhora ocupa espaços de destaque, como a Academia Nacional de Medicina e comitês internacionais. Como enxerga a evolução do protagonismo feminino na ciência e na medicina hoje?

As mulheres sempre tiveram um desempenho extremamente louvável, ainda que muitas vezes com um protagonismo abafado ou sutilmente dissimulado. Já somos 52% da força de trabalho na área da saúde no Brasil. Problemas de acesso e certas barreiras existem, mas estamos conquistando nosso espaço. Há quatro anos, fui apenas a quinta mulher eleita na história da Academia Nacional de Medicina; depois de mim, entraram mais três. Ainda somos minoria, sete entre 100, mas não há dúvida de que esse cenário está mudando, embora tenha demorado muito. A representação precisa crescer não apenas por proporção numérica, mas por mérito. Mulher não é cota; mulher passa em concurso, só precisa de igualdade de condições.

Margareth no gabinete da reitoria
Cientista visitou o gabinete da reitoria da UFU e o Hospital de Clínicas (HC-UFU) (Foto: Túlio Daniel)

Em sua visita à UFU, qual avaliação a senhora faz da importância das universidades públicas federais para a descentralização e o fortalecimento da pesquisa científica hoje?

O papel é enorme, porque a grande parte da ciência produzida no Brasil nasce nas universidades públicas federais. Inclusive, estamos em um momento crucial de recuperação frente à diáspora de cérebros que o país viveu recentemente. Muitas pessoas altamente qualificadas foram embora por não encontrarem condições adequadas aqui, esbarrando em uma visão obscurantista que considerava a produção científica um gasto, e não um investimento no futuro do Brasil. Precisamos trazer esses pesquisadores de volta para nossas instituições e dar a eles plenas condições de produzir conhecimento que reverta em qualidade de vida para a nossa população. Nesse sentido, o papel das universidades federais segue histórico e absolutamente determinante.

 

Política de uso: A reprodução de textos, fotografias e outros conteúdos publicados pela Diretoria de Comunicação Social da Universidade Federal de Uberlândia (Dirco/UFU) é livre; porém, solicitamos que seja(m) citado(s) o(s) autor(es) e o Portal Comunica UFU.

Palavras-chave: Entrevista Margareth Dalcolmo Ciência pandemia COVID-19

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