Publicado em 27/10/2026 às 12:28 - Atualizado em 27/10/2026 às 12:36
Embora a laicidade seja um princípio constitucional desde a Proclamação da República, a relação entre fé e poder permeia a história e o cotidiano do Brasil. Segundo Manoela Mayrink, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e integrante do Centro de Referência para o Ensino do Combate à Desinformação (Codes), um Estado laico não significa a proibição das religiões. Na verdade, o conceito garante que as leis e as decisões públicas sejam tomadas pensando na pluralidade dos cidadãos de forma abrangente, sem se basearem em dogmas religiosos.
Porém, a pesquisadora aponta que, na prática, essa separação é uma "luta constante", evidenciada pela presença de crucifixos em instituições públicas e pela atuação histórica da Igreja em instâncias do governo, como na criação de disciplinas de Moral e Cívica no Ministério da Educação em governos passados.
Essa relação intrínseca possui fortes raízes na colonização portuguesa, que impôs o catolicismo como base da formação social do país, muitas vezes sem margem para argumentações. Mayrink destaca que, independentemente da frequência atual da população aos templos religiosos, a cultura brasileira consolidou um profundo "pano de fundo católico".
Isso se reflete, por exemplo, na manutenção de feriados nacionais ligados aos santos e em costumes diários enraizados, como pedir a bênção aos pais ou fazer o sinal da cruz ao passar em frente a uma igreja. Essa herança, alerta a pesquisadora, foi inicialmente estabelecida a partir de processos históricos de força e apagamento de identidades, como o batismo obrigatório e a troca de nomes de pessoas negras escravizadas antes mesmo de chegarem às terras brasileiras.
Nos últimos anos, a atuação de grupos religiosos nas esferas de poder voltou a ganhar evidência, impulsionada pela articulação de partidos próprios e pelo uso de slogans que incentivam o voto em membros de uma mesma congregação. No entanto, a pesquisadora observa que essa união de pautas sempre existiu no Brasil, ganhando apenas novos contornos e um ritmo mais acelerado devido à forte capacidade de visibilidade das redes sociais.
Ela explica que, enquanto lideranças neopentecostais tendem a ocupar os palanques de forma mais midiática e voltada para a evangelização pública, a intelectualidade conservadora de extrema-direita continua frequentemente amparada pelas bases do catolicismo tradicionalista, que mantém seu histórico de moldar ideologias estruturais e atuar na formação de lideranças de bastidores.
A força da religião como uma importante ferramenta de articulação política também se explica pelo seu papel comunitário e de acolhimento social. As igrejas evangélicas, por possuírem hierarquias menos burocráticas para a abertura de locais de culto em comparação à Igreja Católica, chegam com facilidade a áreas marginalizadas onde os serviços do Estado são insuficientes. Esses espaços religiosos fornecem um senso de pertencimento familiar e empoderamento social para indivíduos subalternizados pelo mercado de trabalho, permitindo que assumam status e papéis de liderança em suas congregações.
O reflexo na política e nas mulheres
No âmbito legislativo, a atuação conservadora no parlamento recai frequentemente de forma severa sobre o corpo e a autonomia das mulheres. A entrevistada observa que as pautas legislativas mais intensas costumam envolver esforços para restringir direitos reprodutivos, métodos de contracepção, independência financeira e liberdade feminina perante relacionamentos abusivos. De acordo com a pesquisadora, as mulheres são a principal base de força de trabalho que sustenta as atividades internas das religiões cristãs no cotidiano. Assim, o empoderamento feminino ameaça a própria manutenção e o funcionamento das instituições religiosas nos moldes vigentes, motivando a busca intensa por leis e regras políticas que conservem o controle sobre esses corpos.
O limite ético e democrático entre a liberdade individual de crença e a imposição religiosa na sociedade é rompido, segundo Mayrink, quando figuras que ocupam posições de poder e de Estado utilizam suas funções para obrigar práticas de fé a quem lhes deve subordinação. O ambiente escolar público é um grande exemplo desse conflito. Por ser um serviço custeado e fornecido obrigatoriamente pelo poder público e não uma escolha de mercado das famílias, o ensino estatal atende a pessoas das mais diversas matrizes religiosas e descrentes. Por isso, impõe-se uma grave quebra da laicidade exigir orações ou a adoção de materiais didáticos baseados na Bíblia no ambiente escolar público.
Apesar das tensões ideológicas, a pesquisadora assegura que é totalmente possível conciliar convicções de fé pessoais com o exercício e a responsabilidade da vida pública de forma responsável. O episódio #160 do podcast “Ciência ao Pé do Ouvido” convida a compreender como a relação entre religião e política se estabeleceu historicamente no país, quais são as raízes dos discursos conservadores e de que maneira o Estado laico é constantemente desafiado na vida pública.
Durante a conversa, Mayrink ressalta que, embora muitas decisões parlamentares tentem ser justificadas por meio da fé e imponham o controle do corpo feminino, a responsabilidade política deve ser regida pelos interesses coletivos e estruturais de toda a população, garantindo a autonomia individual.
Você pode conferir o episódio na íntegra nas principais plataformas de podcast e também aqui no portal Comunica UFU. O "Ciência ao Pé do Ouvido" é produzido pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social da UFU (Dirco/UFU) e conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).
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