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O que é capacitismo?

Cientistas com deficiência explicam o tema como sujeitos pesquisadores, e não como objetos de pesquisa da ciência tradicional

Publicado em 18/08/2026 às 11:57 - Atualizado em 18/08/2026 às 14:06

(Ilustração: Ana Julia Viola. Layout: Abrão Júnior)

O capacitismo é a discriminação ou o preconceito contra pessoas com deficiência (PcD), baseada na ideia de que um corpo e uma mente não normativos são inferiores ou menos capazes. Assim como outras formas de discriminação, o capacitismo estrutura uma sociedade desigual, que exclui as pessoas com deficiência de lugares públicos, ensino regular, postos de trabalho, relacionamentos amorosos, entre outros direitos.

O termo capacitismo surgiu entre os anos 1960 e 1970, com os movimentos sociais em prol dos direitos das pessoas com deficiência no Reino Unido e nos Estados Unidos. No Brasil, essa palavra começou a ganhar força na academia em 2017, por meio dos trabalhos da pesquisadora Anahí Melo, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e foi se tornando mais conhecida pela população conforme passou a ser abordada nas redes sociais e pela mídia, como em uma reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, em 2021.

As condições de possibilidade para que surgisse o conceito de capacitismo foram estudadas pelo pesquisador Kennedy José de Oliveira Júnior, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e PcD, e estão detalhadas na dissertação de mestrado Capacitismo: Vontade de verdade e estratégias de resistência

Foto do Kennedy
Além de doutorando na UFU, Kennedy Oliveira Júnior é professor da rede pública do estado de Goiás (Foto: Túlio Daniel)

A pesquisa mostra que o capacitismo tem raízes históricas na eugenia, que foi a ideia de uma suposta melhoria genética de seres humanos difundida no início do século 20, inclusive em regimes fascistas; no modelo biomédico, que enxerga a deficiência como um "erro" a ser curado ou normatizado; e, mais recentemente, nas influências do neoliberalismo, uma racionalidade econômica que privilegia a produtividade, visando ao lucro.

A designação, por meio da palavra, é um recurso político. “É necessário conceituar essas vivências de segregação, opressão, invisibilidade, dentro da nossa sociedade como um todo”, afirma Oliveira. Outra virada de chave para uma ciência anticapacitista acontece quando as pessoas com deficiência deixam de ser objetos de pesquisa para serem sujeitos pesquisadores.

A partir desses movimentos e em resposta ao modelo biomédico sobre as pessoas com deficiência, construído pela ciência tradicional, surge o modelo social, que confere responsabilidade ao Estado e às instituições. “O modelo social retira a responsabilidade do corpo da pessoa e passa para a comunidade. Se uma pessoa não consegue ocupar um espaço, o problema não é a cadeira de rodas, mas a falta de acessibilidade e o despreparo da sociedade para lidar com a diversidade corporal", afirma Aleska Trindade, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História na UFU e PcD.

Na sua pesquisa de mestrado, (In)visibilidades e experiência de pessoas com deficiência na cidade de Uberlândia, Trindade questionou o título de “cidade exemplo em acessibilidade” concedido a Uberlândia pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2010. Ela fez entrevistas com moradores e detectou que a realidade das ruas contradiz os slogans oficiais: calçadas inadequadas e falhas na manutenção de elevadores em ônibus impedem o direito básico de ir e vir.

Foto da Aleska
No doutorado, Aleska Trindade pesquisa transformações físicas e institucionais na UFU relacionadas à inclusão e ao acolhimento de estudantes com deficiência (Foto: Túlio Daniel)

Além de Oliveira e Trindade, a UFU tem, em 2026, outros 481 estudantes com deficiência, mas o número pode ser maior, pois além das cotas documentadas pode haver ingresso de PcD pela ampla concorrência. O setor responsável por atender e apoiar esse público na UFU é a Divisão de Acessibilidade e Inclusão, coordenada por Janine Cecília Gonçalves Peixoto. Entre professores e técnicos, são 189 servidores com deficiência, de acordo com a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas.

Entre os desafios para melhorar a acessibilidade na instituição, a coordenadora aponta a solução de problemas arquitetônicos, principalmente no Campus Umuarama, o aumento no número de pessoal e a estrutura física da divisão e o aperfeiçoamento do sistema acadêmico para coleta de dados sobre os estudantes. “Outro desafio é que os estudantes se sintam acolhidos pela divisão, entendam o que se faz aqui, que eles busquem e se autodeclararem como pessoas com deficiência, principalmente aqueles que não entraram por cota”, explica Peixoto.

Desde 2025, a divisão passou a ser vinculada ao Gabinete do Reitor, Carlos Henrique de Carvalho, que é a primeira pessoa com deficiência a ocupar o maior cargo na UFU. No fim do ano passado, foi entregue ao Conselho Universitário, para futura votação, a minuta da Política de Inclusão, Acessibilidade e Educação Especial.

O reitor da UFU, Carlos Henrique de Carvalho, é cadeirante e conta que, em sua época de estudante de graduação em História, no fim dos anos 1980, não havia elevadores e ele precisava ser carregado para assistir às aulas no Campus Santa Mônica. "Eu jamais gostaria de ver uma situação daquela com um aluno hoje em 2026. Aquilo era a negação do direito de estar na universidade”, afirma. Carvalho acredita que a verdadeira inclusão deve ser garantida em sua plenitude, ultrapassando adaptações arquitetônicas para oferecer suporte psicopedagógico e condições efetivas de ingresso e permanência aos pesquisadores com deficiência na universidade.

Aleska Trindade, que décadas depois estuda no mesmo Bloco 1H, da História, hoje com elevadores, defende que a transformação da universidade passa pela acessibilidade atitudinal, ou seja, pela mudança na forma como a sociedade se comporta e percebe a pessoa com deficiência. “Aí eu vou puxar um pouco de sardinha para a História. Será que a gente está ouvindo as histórias dessas pessoas? E para a gente que está aqui dentro da universidade, que história que a gente quer contar?”

Em âmbito nacional, existe a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, também chamada de Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015). Essa lei prevê o capacitismo como crime no Brasil, com pena de um a três anos de reclusão e multa para quem praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência.

Mais informações sobre a ciência construída pelas pessoas com deficiência estão no episódio “Ciência sem barreiras” do podcast “Ciência ao Pé do Ouvido”, publicado nesta terça-feira (18/08). O programa é produzido pela Divisão de Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação Social da UFU e está disponível abaixo e nas principais plataformas.

 

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Palavras-chave: podcast Ciência ao Pé do Ouvido Capacitismo inclusão pessoa com deficiência pcd

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